Rafael Saar fazia pesquisa para o documentário Olho Nu, de Joel Pizzini, sobre Ney Matogrosso, quando começou a prestar atenção nos nomes que assinavam algumas das composições mais famosas do repertório do cantor. A dupla Luhli e Lucina estava por trás de sucessos como ‘Bandoleiro’, da fase solo de Ney, ‘O Vira’ e ‘Fala’, estas presentes no disco de estreia dos Secos & Molhados (1973).

Saar foi então atrás das mulheres, que poucos conheciam e pareciam envoltas em um ar de mistério. Quando finalmente conheceu-as, ficou tão encantado que resolveu fazer seu primeiro longa metragem, para contar esta rica trajetória.

Assim surgiu Yorimatã, documentário que chega agora ao circuito comercial de cinema após passagens importantes por festivais como a Mostra de São Paulo, em 2014, onde foi eleito um dos preferidos do público, e o In-Edit de 2015, em que levou os troféus de melhor filme pelo júri oficial e pelo público.

Nada mal para uma produção independente, que estreia nas salas graças a uma campanha de financiamento coletivo. Acaba sendo um passo fiel à carreira de Luhli e Lucina, elas próprias pioneiras em gravar e lançar seus trabalhos por conta própria, uma vez que fugiam das gravadoras interessadas em rotulá-las em categorias que acabariam por reduzir sua força. Como contam no filme, chegaram a receber uma proposta para ficarem no catálogo infantil.

Elas queriam liberdade de qualquer convenção. Mergulharam nos batuques do candomblé e da umbanda, se isolaram do mundo num sítio numa pequena cidade do litoral carioca, viveram por anos numa relação a três, completada por Luiz Fernando Borges da Fonseca, com quem formaram uma harmoniosa família. Transformaram tudo isso em música.

O documentário é um resgate e também uma grande homenagem. Com olhar de admirador, Rafael Saar parece ter uma missão clara com seu documentário: mostrar para mais gente a beleza desta história. Esta narrativa de exaltação é sustentada por muitas imagens de arquivo pessoal, registros de shows e ótimas fotos tiradas por Fonseca, parceiro de vida das duas.

O time de participantes em cena é reforçado com as aparições de Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Tetê Espíndola e Zélia Duncan, sempre em tom de conversas intimistas, e não como depoimento formal.

Sem levantar bandeiras ou assumir uma postura excessivamente discursiva, Luhli e Lucina são personagens que vêm bem a calhar neste momento em que tanto se fala sobre diversidade. À sua maneira, levaram a vida que as fez feliz, livre de julgamentos e patrulha ostensiva. Pena que para isso tiveram que viver muitos anos em um exílio voluntário, se retirando de uma sociedade que tem dificuldade para lidar com o diferente.

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