Nossa Opinião

7.0
Até o besteirol americano entendeu a voz das minorias e aproveitou para mirar seu produto nesse público que começa a se atentar para a falta de diversidade e igualdade na comédia
Nota 7.0

Para quem adora dizer que o mundo politicamente correto está “acabando com a graça das coisas” e dificultando quem só quer fazer o povo rir, vale a pena dar uma olhada em Vizinhos 2 e rever um pouco os conceitos.

Sim, até a comédia dirigida por Nicholas Stoller, sequência do filme de 2014 estrelado por Seth Rogen, Rose Byrne e Zac Efron, entendeu o recado de setores da sociedade antes sem voz e, como bom produto capitalista, apropriou-se do discurso certamente tentando atingir esse público.

O longa tinha tudo para passar batido nos cinemas como mais um exemplo do besteirol pós-adolescente norte-americano. Porém, um olhar mais atento vai notar um subtexto que mostra reconhecer força no discurso progressista, algo impossível na cabeça de, vamos supor, Danilo Gentili, Rafinha Bastos e seus asseclas.

Para começar, o personagem de Dave Franco, amigo inseparável de Zac Efron no longa anterior, está prestes a se casar. Com outro homem. Pretexto para uma enxurrada de insinuações homofóbicas, pensaria o espectador incauto? Não exatamente. O assunto é tratado com naturalidade e até certa ternura.

Mas nada é mais surpreendente do que o aceno declarado ao feminismo que está em Vizinhos 2, representado em Shelby (Chloë Grace Moretz). Ela é uma garota que acaba de ingressar na faculdade, está começando a formar sua identidade adulta e não se vê representada nas irmandades femininas já existentes, uma vez que estas seguem a cartilha bela, recatada e do lar.

Nas festas organizadas pelas fraternidades masculinas, a situação é ainda pior. Shelby e suas amigas se sentem acuadas pelos garotos, que só estão interessados em assediá-las, das piores maneiras possíveis.

A solução então é montar a própria irmandade. Onde cada uma se vista e se comporte como quiser, sem se preocupar com julgamentos. Uma liberdade que todo mundo quer quando é adolescente, mas que é privilégio de poucos mesmo hoje em dia.

Tão certeira é a mira do roteiro num público que começa a se familiarizar com o feminismo que, em uma das cenas, as garotas organizam uma festa à fantasia com o tema “grandes mulheres da história”, e aparecem figuras como Hillary Clinton, Oprah Winfrey e até Joana D’Arc. Em outra, o personagem de Zac Efron repreende um amigo que solta o jargão “Bro’s before Hoes” (os amigos vêm antes das vadias), dizendo que a expressão já não é mais bacana.

E o mais importante: as garotas lideradas por Shelby não estão esperando serem resgatadas por um príncipe encantado. Em nenhum momento elas jogam suas aspirações de lado para se curvar às expectativas de um homem – escorregão que acontece com Descompensada, por exemplo, filme do ano passado com a comediante Amy Schumer, alçada ao posto de ícone do humor feminino.

O mundo está mesmo mudando, e só não vê quem não quer. E é mais do que simbólico que, na mesma semana em que Michel Temer anunciou seu ministério sem mulheres, negros ou representantes de outras minorias, uma comédia besteirol estreie apontando o dedo para uma questão tão preemente e tão estrondosamente ignorada pelo nosso presidente postiço.

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