Nossa Opinião

8.0
O filme é objetivo e vai com maestria ao ponto onde quer chegar, mostrando que uma ideia simples não precisa ser necessariamente simplória
Nota 8.0

O novo filme de Ugo Giorgetti é também um de seus filmes mais baratos. “Pelo clima de harmonia no set durante as onze madrugadas que filmamos, já estou achando que é melhor fazer com pouco dinheiro mesmo”, brincou o veterano cineasta durante o lançamento.

Se a grana é curta, Giorgetti mantém intacto seu tino para a observação social, especialmente das figuras típicas da capital paulista, sua marca presente nos melhores trabalhos, como Sábado (1995) e Boleiros – Era Uma Vez o Futebol (1998).

A comédia Uma Noite em Sampa gira em torno de uma única situação, mas é o suficiente para formular um comentário ácido sobre uma classe média cada vez mais encastelada e desacostumada a conviver fora do que acredita ser um ambiente seguro.

A premissa é simples: um grupo formado predominantemente por casais de meia-idade sai de sua reclusão no interior do Estado (para onde se mudaram em busca de uma suposta “qualidade de vida”) e vem ao centro de São Paulo, assistir a uma peça no Teatro Ruth Escobar. Acabado o espetáculo, na hora de pegar o ônibus de volta, percebem que o motorista sumiu, e se veem incapacitados de sair do lugar tão cedo.

O que vem em seguida, conforme a noite avança, é um revelador festival de incapacidade diante da situação. Sem os celulares, que ficaram dentro do ônibus trancado, ninguém tem coragem de dar dois passos além daquela praça, imobilizados por um medo alimentado pelas histórias sensacionalistas que uma das personagens conta, por exemplo, ou pela desconfiança sem pé nem cabeça de que estão sendo observados por criminosos à espreita.

Quando moradores de rua chegam ao local, apenas com a intenção de se instalar precariamente com seus colchões num canto, o pânico é generalizado. A cena é ridiculamente cruel e autêntica, basta lembrar aquele comentário preconceituoso que você já ouviu de alguém (quase certamente uma pessoa que raramente coloca os pés no centro da cidade).

Zanzando sem sair do lugar em plena madrugada, os personagens vão ganhando uma aura de zumbis, numa escalada rumo ao surreal, a um absurdo movido por suas imaginações e angústias.

Econômico também em sua duração (75 minutos), Uma Noite em Sampa é objetivo e vai com maestria ao ponto onde quer chegar. Os homens e mulheres retratados podem estar perdidos em seus temores particulares, mas Ugo Giorgetti, aos 74 anos, continua fazendo seu cinema valente e bem sacado.

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