Qualquer pessoa que tenha tentado escapar de uma situação pouco convidativa já usou a desculpa do “melhor sair por cima”. Poucos, pra não dizer ninguém, tiveram a mesma astúcia de Armando Iannucci ao se despedir de Veep.

Há quatro temporadas, o criador da série nos guia por uma sátira política que está garantida em qualquer lista séria das melhores comédias atuais, e há tempos vem planejando sair de cena de forma memorável. A atração principal é a vice-presidenta (e atual “presidenta interina”) Selina Meyer, vivida por Julia Louis-Dreyfus, que há muito já provou ser mais que uma Elaine (de Seinfeld) na história televisiva.

Enquanto trabalhava na terceira temporada, Armando sentiu que a próxima seria a sua última. A produção poderia seguir, mas teria de fazê-lo se ele. Primeiro para não ter mais de enfrentar os exaustivos voos entre Londres e Baltimore. Segundo, porque aos quatro anos de Veep se somam os outros seis da série britânica The Thick of It, o que dá uma década indo e vindo entre comédias políticas. Este teria sido o prazo máximo para começar a ter aquele tipo de ideia que parece nova num primeiro momento, mas que já foi feita antes. “Preferi me demitir”, resume.

Ele brinca que é como o final de Uma Saída de Mestre, quando um carro está à beira de um precipício, Michael Caine diz “espera, tive uma ideia” e, do nada, o crédito sobe. “É como se eu fosse o Michael e estivesse dando o fora”, diverte-se em entrevistas.

Em sua experiência anterior estava a série britânica que satirizava o sistema político local num formato similar: um começo que gira em torno dos tropeços dentro do gabinete de um político e cujo universo vai se expandindo ano a ano à medida que ele almeja voos maiores, como o cargo de primeiro ministro. Do lado de cá do oceano, a série começa apresentando Selina como a vice-presidente do mundo livre. Não há dúvidas de que ela é a pessoa ideal para o cargo, apesar de não ser exatamente a mais qualificada; ou seja, o mesmo que passa na política real.

Ao mesmo tempo, por trás do poder estão uma série pessoas altamente incompetentes e sem capacidade para dar conta de si mesmos, quem dirá dos Estados Unidos. Tão bem criados são esses outros personagens que, de certa forma, e guardadas as proporções de tal comparação, daria até para dizer que Veep veio para preencher o vazio deixado por The Office.

Apesar de estar no topo do mundo, ela é apenas uma personagem risível jogada num canto da Casa Branca – em todos os sentidos. Vive frustrada com aparições públicas menores e tarefas chatas como ter de ir a feiras de ciências escolares ou falar em público em tom stand-up e, não importa o que aconteça, sempre acaba sendo ridicularizada num meme nas redes sociais.

Aí está o tempero do humor. “O presidente ligou?”, ela repete incansavelmente desde a primeira aparição. Mas, não, ele nunca liga. Até que Selina se vê presidenta dos Estados Unidos. E ninguém continua ligando.

Do seu escritório longínquo, só lhe resta planejar a próxima eleição e tentar navegar da melhor forma possível até chegar sua vez de fazer a diferença. É quando chegamos à quarta temporada, em que a data do pleito finalmente chega e coroa uma espera de anos para candidata e telespectadores. Ou não?

Já presidenta, Selina aguarda a contagem de votos para saber o resultado da eleição que pode deixá-la no cargo ou ruir seus sonhos. Basicamente, espera o sucesso para literalmente não ter de sair do lugar onde está.

colagem veep

Quando coloca Selina no lugar de uma mulher acostumada ao poder e em sua busca incessante, Armando está fazendo referência direta a Hillary Clinton, ex-primeira dama e pré-candidata à cadeira de Barack Obama.

“Por que alguém como a Hillary Clinton, na idade dela, decide passar pelo que vai ser um inferno por dois anos para tentar ser presidente, e daí ser presidente? Ela já esteve nessa situação. Foi um inferno! Então, por quê? Para alguém como Selina, não importa o que aconteça, valeu a pena porque, se ela disser que não, vai questionar toda a sua vida e sua carreira, o que seria devastador”, definiu o roteirista em entrevista à Hollywood Reporter,.

“Parte de mim sabia que seria minha última temporada, então gostei da ideia de deixar esse dilema constitucional para o meu sucessor”, diz Armando
Assim, a quarta temporada de Veep costura mais uma vez seu humor rápido e indulgente, aliado a diálogos inteligentes que não raro desvelam para um humor político negro para contar a história de uma mulher que, ao fim e ao cabo, não sabe que será dela mesma.

O episódio final exibido há pouco pela HBO justifica o talento que fez Julia Louis-Dreyfus quem ela é. E é acalentador ver um roteiro que usa tão bem seus personagens de forma a contribuir com uma história maior, ao contrário de secundários que servem sempre e apenas de escada para um protagonista que rouba a cena à exaustão.

A começar pela deliciosa participação de Hugh Laurie (‘House‘), que aqui deixa de ser um ranzinza e odiado médico extraordinário para se tornar uma espécie de queridinho da América. Tal é a proporção que seu personagem toma que existe um risco de real de que, por manobras legais praticamente inéditas no sistema eleitoral americano, o candidato a vice venha a tomar o lugar da estrela principal. Assim, a série faz graça não só do sistema democrático dos EUA, mas também da Constituição, da Suprema Corte e do Congresso.

“Parte de mim sabia que seria minha última temporada, então gostei da ideia de deixar esse dilema constitucional para o meu sucessor”, brinca Armando ao falar do final em aberto do episódio em questão. A boa notícia é que, apesar da sádica despedida dele, parte dos roteiristas britânicos vai continuar para ajudar a criar no arco desta nova temporada, que será dirigida por Chris Addison. É como diz o próprio slogan da campanha de Selina: Continuidade pela Mudança.

A boa notícia é que ele e Julia já trabalharam juntos em Seinfeld, o que não é dizer pouco. Aos olhos de Armando, essa é a combinação perfeita, porque soma essa veia cômica a seus estudos sobre a política norte-americana. “É bacana ter feito cenas às quais as pessoas se referem como clássicas, como aquela em que Selina descobre que vai ser presidente enquanto está dentro do banheiro com Gary”, diverte-se.

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