Se alguém tinha dúvida do talento de Denzel Washington e Viola Davis – e, à essa altura, é difícil de acreditar que alguém tenha – Um Limite Entre Nós parece ter feito sob medida para demonstrá-los de forma acachapante. Ao longo de quase duas horas e vinte de filme, o público é exposto a longos monólogos vociferados por Denzel e Viola, salpicados por lágrimas, perdigotos e secreções nasais. Ok, entendemos, vocês querem o Oscar. E provavelmente irão ganhá-los.

A dupla de atores já tinha interpretado os mesmos papéis na segunda montagem teatral do texto escrito por August Wilson, originalmente apresentada em 1987. As duas versões foram premiadas no Tony, o troféu mais importante do teatro norte-americano.

Washington, que também dirige o filme, vive Troy Maxon. Pai de família rígido, ele carrega internamente uma mistura do orgulho de ser o provedor para a mulher e os filhos com a frustração de não ter tido a chance de viver a carreira como jogador de baseball. O cenário é uma casa da periferia de Pittsburgh durante os anos 50, época da segregação racial nos Estados Unidos.

Indicações ao Oscar

Filme, ator (Denzel Washignton), atriz (Viola Davis) e roteiro adaptado.

Troy é um sujeito que teve de endurecer para superar as dificuldades impostas pelas circunstâncias e, aos 53 anos, parece buscar as últimas alegrias que a vida pode lhe oferecer. Estas são resumidas por um caso extraconjugal com uma mulher mais jovem e a bebedeira de toda sexta-feira junto ao amigo Bono (Stephen McKinley Henderson).

A casa já não é um lugar de afeto, mas sim de cumprir obrigações. Ele entende que é seu dever dizer ao filho mais novo que uma vida como atleta é mera ilusão, desprezar o outro que tenta a vida como músico de jazz. “Qual lei diz que tenho que gostar de você?”, pergunta o protagonista ao caçula.

Ainda que seja a única capaz de respondê-lo à altura, a esposa Rose (Viola) fica a maior parte do tempo restrita à rotina entre quatro paredes. Este espaço delimitado pela cerca do título original é, como diz um dos personagens, não para manter estranhos fora, mas a família dentro, como uma unidade. Não à toa, na maior parte do tempo a cerca aparece incompleta, relegada a uma prioridade secundária diante do ritmo avassalador da vida. Simbólico.

Tanta informação presente em Um Limite Entre Nós se beneficiaria de alguns momentos mais contemplativos, respiros cinematográficos. Do jeito que se apresenta, em sua estrutura teatral e verborragia irrefreável, impõe-se como um rolo compressor. E não necessariamente no melhor sentido enquanto filme.

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