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Alguns mais profissionais, outros mais mambembes e experimentais, mas todos em busca de uma linguagem própria e realizados nas mais diversas técnicas. Sejam futuristas como Mobios (de Carlos Eduardo Nogueira. Veja trailer abaixo) ou mais clássicos como o poético Égun (de Helder Quiroga) e até o divertidíssimo Até a China (de Marcelo Marão), há uma característica que os une: a produção de animação para cinema no Brasil ainda é, em sua grande maioria, realizada de forma autoral.

Para discutir o legado, o presente e o futuro da animação brasileira, o Festival de Curtas dedica a sexta-feira para debater, exibir e celebrar a produção nacional. Abrindo a programação, às 18h, será lançado o livro Maldita Animação Brasileira, com a presença do diretor e pesquisador Sávio Leite, que levou dois anos entre a pesquisa e a elaboração do livro.

Rara iniciativa de discutir e mapear a produção e os talentos de diversas regiões do País, a publicação joga luz em questões importantes como o atual panorama da produção atual, a produção underground (ou udigrudi, consagrada por mestres como Otto Guerra),  a produção de animação feita por crianças (em um artigo da diretora e animadora Patrícia Alves Dias), além de entrevistas com nomes de destaque como Allan Sieber,  César Cabral, Clécius Rodrigues, Marcelo Marão, entre outros.

Capa do livro 'Maldita Animação Brasileira', com lançamento em São Paulo durante o Festival de Curtas de SP
Capa do livro ‘Maldita Animação Brasileira’, com lançamento em São Paulo durante o Festival de Curtas de SP

”Eu sempre quis fazer um livro que fizesse um estudo sobre a animação. Ainda existe muito preconceito em relação à nossa produção. Primeiramente do próprio público, que ainda acha que animação é coisa feita só para criança. Em segundo, o da própria classe, que acha que animação é uma arte menor dentro do cinema”, declarou Sávio em entrevista ao TelaTela.

“E para completar, há poucas publicações sobre animação brasileira. Fui pesquisar sobre a literatura em torno do tema e tudo que encontrei é muito técnico e pouco analítico”, completa o pesquisador, que antes de Maldita Animação Brasileira já havia organizado o livro Subversivos, o Desenvolvimento do Cinema de Animação em Minas Gerais.

 “O primeiro livro surgiu para comemorar os dez anos do Mumia (Festival Udigrudi Mundial de Animação de Belo Horizonte) e contar uma história que até então existia de forma oral, a do núcleo de animação formado em BH na década de 80, com convênio do National Film Board do Canadá em parceria com a Universidade Federal de Belas Artes. Isso permitiu criar uma geração que faz e pensa animação” relembra o professor e pesquisador.

Já o segundo livro, mais abrangente, faz um recorte da animação underground brasileira. “Mas, na verdade, tudo é underground. É difícil diferenciar um projeto completamente comercial de um completamente independente. Isso porque nossa produção ainda é independente, por mais que tenhamos crescido, feito longas-metragens, criado e vencido editais públicos de financiamento”, analisa Sávio.

Para o pesquisador e também professor, ouvir, por meio de entrevistas, os diversos profissionais de animação de vários estados e vertentes brasileiras foi a forma mais ágil de realizar um panorama abrangente da produção contemporânea. “Cada um deu sua opinião direta, como um depoimento, e reflexiva sobre seu trabalho, o mercado de trabalho e o cenário atual. É uma forma de conversar com eles todos e pensar mais analiticamente a animação”, completa Sávio, que já planeja um terceiro volume.

“Ficou ainda muita gente boa de fora. E quero também realizar um retrato com uma visão antropofágica do nosso estilo, que absorve referências tão diversas, do mundo todo, e produz algo tão cheio de personalidade”, diz Sávio.

Cena de 'Passo', em exibição na sessão especial 'Caminhos da Animação'. Curta dirigido por Alê Abreu em 2007 exigiu pesquisa e tem traços livres e estilo muito particular, que ganhou mais força ainda no longa O Menino e o Mundo, de 2013, que venceu o Festival de Annecy do mesmo ano.
Cena de ‘Passo’, em exibição na sessão especial ‘Caminhos da Animação’. Curta dirigido por Alê Abreu em 2007 exigiu pesquisa e tem traços livres e estilo muito particular, que ganhou mais força ainda no longa O Menino e o Mundo, de 2013, que venceu o Festival de Annecy do mesmo ano.

Animação feita por e para crianças

Quem debate também a produção, mas a feita por crianças, é Patrícia Alves Dias. Criadora do projeto Carta Animada pela Paz (reconhecido pela Unesco como Melhor Prática de Mídia nas Escolas da América Latina), em sua gestão como coordenadora de projetos especial na Multirio.”Todo mundo é um criador, incluindo a criança.   A presença das crianças na cultura – e falo aqui das  redes sociais  e suas reinvenções (que até chamo de revolucionárias porque podem ser percebidas como prospecção de mudanças) de linguagens, das animações, e seus modos de produção com as TI’s – nos convida, no mínimo a olhar para essa categoria social e repensar o conceito de incompletude que a modernidade apresenta sobre a infância e sobre tudo aquilo que  é menor, pequeno e que tende a desaparecer na modernidade, como lembra Wim Wenders. Gosto da imagem da infância como alegoria possível da imagem do animador autoral brasileiro, tão e quanto maldito como a criança como produtora de cultura”, comenta a animadora.

“Para se ter a expressão das crianças, não basta apenas conduzi-las em oficinas em que o tempo do adulto que dita a dinâmica, mas sim respeitar o tempo delas, com direito a aprender, processar, desenhar, criar, animar”, acrescenta Patrícia, que destaca em seu artigo Animação Maldita…Crianças Malditas… a forma como a criança foi classificada e tratada ao longo da história e cita exemplos de iniciativas que ensinam e valorizam a criação de animação infantil.

“Há ótimos casos, como o de Anima Escola (do Festival Anima Mundi, o mais importante do Brasil), Núcleo de Cinema Casa Amarela (do Ceará), o Departamento de Projetos Especiais de Animação da Multirio, como o Carta Animada pela Paz, o Espelho Lunar (na Bahia e Pernambuco), o Cinema no Rio São Francisco (em Minas), entre tantos outros”, comenta a diretora.

Patrícia também questiona o fato de que muitos animadores conceberem suas obras de curtas metragens como pilotos de séries de TV e/ou de longas. “Por que não os criam como como obras simplesmente, autorais, experimentais? Esse fato tem ditado no Brasil, atualmente, uma tendência de produção, não somente de formato, mas linguagem, em detrimento da invisibilidade de outras. Uma resposta imediata, mas que merece nossa reflexão e mais diálogo, pode estar  nos fundos de incentivo disponíveis atualmente e como são pensados e por quem”, analisa a animadora.

“O Brasil ainda tem uma vocação autoral, nosso grande exemplo é O Menino e o Mundo, que extremamente autoral e universal.  É a prova de que há lugar para tudo e para todos. É uma opção à tendência em voga atualmente, a de que se começa autoral, como curta-metragista, mas já pensando na indústria, na transformação de um projeto em série para a TV ou longa. Os fundos de pesquisa públicos ainda não pensam o curta como um trabalho autoral de pesquisa, mas sim voltados para produzir. Só que para se produzir é preciso um tempo de pesquisa, de elaboração e desenvolvimento. Somos nós animadores que precisamos dizer isso para que o poder público entenda isso”, conclui Patrícia.

O livro será distribuído gratuitamente para quem participar do lançamento.  Aliás, quem for ao evento, já pode retirar seu ingresso para a atração das 19 horas, quando ocorre a sessão Caminhos da Animação. É a chance para se assistir na telona clássicos do gênero, como o cult A Lasanha Assassina, de Ale Machado, Amigãozão, de Andrés Lieban, que deu origem à série que é um dos cases mais bem sucedidos de animação para a televisão, além de Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas, de Victor-Hugo Borges, que também se tornou série de TV, e Laurinha, de Thomas Larson,

Passo, de Alê Abreu, autor de um dos mais belos longas de animação de 2014, O Menino e o Mundo, que já entrou em cartaz em diversos países e venceu o Festival de Annecy (o Cannes da Animação) no ano passado.

Em seguida, às 20h30, na programação do LabMIS, o público terá a chance de conversar com os diretores dos filmes  exibidos na sessão especial.  Com a coordenação do animador e presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), Cesar Cabral, o encontro vai discutir as perspectivas do curta de animação no Brasil e seus desdobramentos.

Toda a programação é gratuita. Mais informações, abaixo:  

18h – Lançamento do livro “Maldita Animação Brasileira”, de Sávio Leite.

O livro traz textos de Quiá Rodrigues (RJ), Leonardo Ribeiro (RJ/MG), Roberto Maia (SP), Diego Akel (CE), Caó Cruz Alves (BA), Christiane Quaresma e Marcus Buccini (PE), Patrícia Alves Dias (PE) e Márcio Junior (GO), cada um analisando diversos aspectos da animação brasileira e suas especificidades, além de dez entrevistas com expoentes da animação brasileira contemporânea, voltados ao recorte das produções independentes.

19h – Sessão “Caminhos da Animação”

A Lasanha Assassina – Ale Machado (Brasil-SP. 8’. Cor. 2002)

Uma lasanha é deixada no refrigerador e sofre uma mutação, tornando-se um monstro asqueroso.
Amigãozão – Andrés Lieban. (Brasil. 1’. Cor. 2006)

Dizem que não é certo falar amigãozão, mas eu não consigo achar um jeito melhor de falar do meu maior amigo.
Guida – Rosana Urbes (Brasil-SP. 11’. Cor. 2014)

Guida é arquivista há 30 anos. Sua rotina muda quando ela se depara com um anúncio de aulas de modelo vivo.
Historietas Assombradas (Para Crianças Malcriadas) – Victor-Hugo Borges (Brasil-SP. 15’. Cor. 2005)

Três histórias que sua avó não contou senão você faria xixi na cama.

Laurinha – Thomas Larson (Brasil-SP. 1’. Cor. 2005)

A amizade entre uma menina de 5 anos e um pedaço de massa de modelar.
Menina da Chuva, de Rosaria (Brasil-RJ. 6’. Cor. 2010)

Bonecas vermelhas para as meninas vermelhas, bolas azuis para os meninos azuis.
O Divino, de Repente – Fabio Yamaji (Brasil-SP. 6’. Cor. 2009)

Ubiraci Crispim de Freitas, conhecido por Divino, canta repentes e conta sua vida neste documentário animado com ficção experimental.

O Reino Azul – Otto Guerra, Jose Maia, Eloar Guazzelli Filho, Lancast Mota (Brasil-RS. 15’. Cor. 1989)

As atribulações de um tirano que, para fugir do tédio, decide pintar todo o seu reino de azul.

Passo – Alê Abreu (Brasil-SP. 4’. Cor. 2007)

Um pássaro e sua gaiola.

20h30 – LabMIS

Debate sobre os “Caminhos da Animação”, com o diretores da sessão.

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