Nossa Opinião

8.0
Ótima sacada na montagem torna o longa de Aurélio Michiles um programa ainda mais interessante, além do fato de a vida do biografado ser, por si só, digna de homenagem.
Nota 8.0

Cosme Alves Netto dedicou a melhor parte de seus 59 anos de vida ao cinema. Passo a passo, sua caminhada foi de espectador voraz a agitador de Cineclubes e a preservador da história da sétima arte no Brasil, como diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O ciclo se completa agora ao ganhar um filme que conta sua trajetória, com o merecido título Tudo Por Amor ao Cinema.

O homem que ao longo da vida ajudou a construir a memória da produção cinematográfica, agora é relembrado e eternizado a partir de trechos de 70 filmes nacionais e internacionais que ajudam a ilustrar passagens de sua trajetória. Este ótima sacada na montagem torna o longa de Aurélio Michiles um programa ainda mais interessante, além do fato de a vida do biografado ser, por si só, digna de homenagem.

Rico em depoimentos e imagens de arquivo, o documentário tem, entre os 34 entrevistados, figuras como Eduardo Coutinho, que teve o material de Cabra Marcado Pra Morrer escondido em segurança por Cosme durante a ditadura militar, até que pudesse retomar e finalizar a obra que deu novo patamar à carreira. Só por esse caso já é possível afirmar que o cinema brasileiro seria outro sem seu envolvimento.

Para Cosme, não existia filme ruim, pois qualquer filme oferece um registro sobre o comportamento, costumes, discussões e ambientes de seu tempo.

Tudo por Amor ao Cinema apresenta a uma nova geração a figura deste amazonense que começou a conservar filmes por querer guardar sempre por perto aqueles que mais o emocionavam. Queria tê-los disponíveis para mostrar aos amigos que por ventura ainda não conhecessem a obra. Era um curador de cinema sem nem saber ser esse o nome para o que fazia. Vale lembrar que tudo isso começou entre as décadas de 50 e 60, muito antes do VHS. Ou seja, era um trabalho de conservação que exigia dedicação e espaço físico, preenchido por latas e rolos.

Como é muito bem colocado no depoimento do crítico Carlos Alberto Mattos, já na comovente parte final, a alma daquele homem está presente a cada vez que repetimos o ritual de apresentar a alguém uma obra cinematográfica que conquistou nosso coração. Ou no movimento de resistência dos protestos que culminaram na reabertura do cinema Belas Artes, em São Paulo. Cosme Alves Netto é o herói desconhecido – espera-se que agora um pouco menos desconhecido – de todo cinéfilo.

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