Em um festival que começou com a sessão do seminal Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, passou pelo filosófico Índios Zoró, Antes, Agora e Depois? e culminou com o revelador Taego Ãwa, a questão indígena e seus espaços em conflito esteve em consonância perfeita com o tema da Mostra de Tiradentes 2016, encerrada no último sábado. Além do tema ganhar destaque na Mostra Aurora, a principal do evento, os longas fizeram o público repensar não só a forma como o chamado progresso e também o espectador contemporâneo olham para os índios brasileiros.

Juntos, os três longas traçam um panorama complexo sobre o passado, o contato muitas vezes nocivo e imposto com os brancos  e uma possibilidade de futuro mais promissor, após o apocalipse que a imensa maioria das etnias indígenas do Brasil passou ao longo dos séculos.

Resumidamente, o já clássico Serras conta, e reencena de forma rara e, ao mesmo tempo, verdadeira, a história do lendário Carapiru, um índio Guajá que em 1977, viu sua família ser perseguida e capturada na Amazônia. Ele passou uma década perambulando sozinho nas serras do Brasil. Encontrado por um sertanista, Carapiru foi levado para Brasília e as discussões sobre sua origem mobilizaram antropólogos, linguistas e a mídia do País.

Zoró, em busca do tempo perdido –Zoró viaja até a aldeia do povo retratado por Luiz Paulino dos Santos há 30 anos, quando ele, que foi produtor de Deus e o Diabo na Terra do Sol (de Glauber Rocha), realizou Ikatena – Vamos Caçar. O curta documental registra uma tribo feliz, em que as crianças nadam em estado de graça, em uma ideia próxima do paraíso selvagem.

Três décadas depois, o que Paulino encontra está distante do ideal de preservação. Ele, que narra o filme e é também personagem principal desta nova história, ao traduzir para o espectador seu olhar e seu pensar sobre os Zoró, encontra os índios transformados por uma série de fatores, principalmente a conversão à religião evangélica. Mas, ainda assim, em um grande exemplo do caráter antropofágico do brasileiro, os Zorós dançam em seus cultos cristãos com a mesma força circular e mítica que quando o faziam para os antigos deuses.

Taego Ãwa parte de imagens em VHS encontradas pela diretora Marcela Borela nos arquivos da Universidade Federal de Goiás, onde ela estudou comunicação social. Cinco fitas que trazem cenas de uma situação nada idílica, registradas no final dos anos 1980. As imagens de arquivo do passado recente dos Ãwa estão muito distantes da ideia de paraíso de Ikatena, pois já registram as dilapidações que o povo passou. Marcela e seu irmão, o antropólogo Henrique Borela, decidiram levar esse material, entre outros, para os Ãwa e realizar, a partir daí, um registro atual, em 2014.

Luiz Paulino, que realizou 'Ikatena' e 30 anos depois voltou à aldeia Zoró para registrar o presente da tribo
Luiz Paulino, que realizou ‘Ikatena’ e 30 anos depois voltou à aldeia Zoró para registrar o presente da tribo

“Foi um avanço muito grande para nós. Contar a história da gente, que não sabíamos de muito do que aconteceu com nosso povo”, declarou o índio Waiakógo Ãwa sobre a experiência de ter a história de seu povo, e de seu avô, o Tutawa, retratada e resgatada por Marcela e Henrique.

Ãwa, um “povo invisível” – “Mas foi difícil, pois ao aceitar fazer o filme, e agora ver, tivemos de falar da nossa história. E não sabíamos o que viria pela frente. Esta é uma história profunda para nós, triste. Mas foi bom porque tivemos de enfrentar isso”, continuou ele. “Os Ãwa do Araguaia eram tidos como povo invisível. A gente é integrado aos Javaés, como se não existíssemos. Mas com esta luta pela terra e com este filme, a gente viu que podia contar nossa história e a de todos os povos indígenas. É muito difícil falar sobre isso. O filme está aí”, completou Waiakógo.

Juntos, Waiakógo e os diretores assistiram ao longa pela primeira vez na tela grande em Tiradentes, na Mostra Aurora, a principal competitiva do festival. Aliás, Taego Ãwa conta a história do patriarca Tutawa no presente em contraponto ao passado de violência que a tribo, hoje reunida principalmente na Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, cercada pelos rios Javaés e Araguaia, no Tocantins, enfrentou ao longo de séculos.

Waiakógo Ãwa, Henrique Borela e Marcela Borela, de 'Taego Ãwa'
Waiakógo Ãwa, Henrique Borela e Marcela Borela, de ‘Taego Ãwa’

Esta dor de Waiakógo, neto de Tutawa, e de sua família, está nítida em uma cena marcante do documentário, quando o patriarca, depois de passar o dia ensinando seus netos a se pintar com a tinta do jenipapo, balança seu chocalho e canta uma canção secular, sentado em uma cadeira, enquanto os mais jovens apenas escutam, calados e pensativos.

O espectador não entende as palavras de Tutawa, mas sente a melancolia de sua voz e a enxerga nos olhares dos filhos e netos.

Há ali um tempo perdido, entre o primeiro contato da tribo dos Ãwas, ocorrido à força em 1973, a violação de sua cultura e a dilapidação de seu modo de vida, até chegar ao presente registrado pelos diretores. Talvez seja desta tristeza, deste olhar perdido, de que falou Waiakógo durante o debate.

Taego Ãwa, no entanto, não se restringe a apenas registrar esta melancolia, mas caminha em direção a uma ação mais afirmativa dos próprios índios mais jovens.

Cena de 'Taego Ãwa', que retrata a trajetória do patriarca Tutawa e sua tribo, "quase invisível"
Cena de ‘Taego Ãwa’, que retrata a trajetória do patriarca Tutawa e sua tribo, “quase invisível”

Com muito cuidado para não sentimentalizar a questão e com respeito aos personagens desta história, os diretores fazem com que a plateia repense o significado da herança histórica de um pretenso progresso, que os expulsou de suas terras, os obrigou a fugir por séculos, sempre evitando o contato com o branco.

“E agora tudo é terra índigena?”- Há uma sinalização para um possível futuro melhor, calcado na luta pela demarcação da terra dos Ãwa (que por muito tempo foram, e ainda são, chamados pelos brancos de Avá-Canoeiros) e na educação dos mais jovens. Mas a luta é árdua. “Eu até gosto de índio, até crio alguns aqui. E agora tudo é terra índigena?”, questiona um dos ‘entrevistados’ brancos, cuja voz só se ouve (pois a câmera estava escondida).

“Não temos a consciência dos efeitos que o filme provoca. Ainda não sabemos o lugar em que conseguimos chegar, pois tudo ainda é muito novo”, declarou Marcela, sobre o longa que passou anos fazendo e que ´nasceu’ há pouco.

O fato é que, ao trazer questões como esta em contraponto aos relatos do velho Tutawa (falecido em julho de 2015), a imagens de arquivo em VHS, Super 8, matérias de jornal (“Índios negros são perigosos”, diz o título de uma delas, dos anos 70), fotos realizadas por pesquisadores, antropólogos e indigenistas, Taego Ãwa desconstrói o clichê do filme etnográfico e faz um rico mosaico de uma história que até então era só contada pelo viés oficial.

O patriarca Tutawa Ãwa e seu neto em foto de 1984
O patriarca Tutawa Ãwa e seu neto em foto de 1984

“É impossível contar esta história. Se nós pudéssemos, nós contaríamos. Há muita coisa que a gente não acessa. E a impossibilidade disso é o que faz com que a gente use estes restos, rastros destas imagens, do que a gente filmou”, comentou Marcela.

A diretora, falando das escolhas éticas e estéticas de seu filme, completou: “A gente achava que a visão crítica do passado, da visão dos brancos sobre os índios era algo que a gente não podia perder de vista. Passamos por um laboratório de roteiro e ouvimos em um deles: “O que vocês têm é a relação com as imagens.”

Sobre a relação direta que seu filme tem com  Serras da Desordem, Marcela comentou: “Vocês se lembram que os antropólogos pensam que o Carapiru era Ava-Canoeiro? Então, isso já revela a proximidade entre os povos tupis em fuga. Isso nos marcou. O Serras já abria para a gente a ideia da destruição e do avanço sobre a Amazônia.”

“Mas a destruição do Planalto Central é muito minimizada. Esses índios foram contatados à força dez anos depois da fundação de Brasília. A cada decisão tomada lá, a cada aperto de mão, a cada fita cortada, era um índio que morria no Serrado. Nosso filme é uma leitura desta destruição a partir da ideia esquizofrênica de modernização”, concluiu a diretora.

Serras da Desordem, Zoró e Taego Ãwa dialogam entre si e se complementam. Fazem o ‘homem branco’ (ou pelo menos o que está disposto a repensar sua herança cultural e sua postura atual e futura) se olhar no espelho e questionar o modelo de um pretenso progresso a que se refere Marcela. E abriram uma janela importante em Tiradentes para que se ressignifique o espaço que cabe ao índio no Brasil e no cinema brasileiro. Serras já se tornou um clássico que merece sempre ser visto e revisto. Já os dois novos longas começam agora, depois do festival mineiro, suas carreiras em outros importantes festivais nacionais e internacionais.

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