Com a morte do iraniano Abbas Kiarostami, aos 76 anos, o cinema perdeu não apenas um de seus melhores diretores, mas um autêntico poeta das imagens. Driblando as dificuldades e restrições de seu país natal, Kiorastami fez obras cheias de simbolismo, sutilezas e humanidade. Não à toa, sua perda foi lamentada por mestres como Martin Scorsese e seu conterrâneo e muitas vezes parceiro Jafar Panahi.

O diretor deixa um legado cinematográfico certamente duradouro, com obras premiadas como Gosto de Cereja, premiada vencedora da Palma de Ouro em Cannes, em 1997, e O Vento nos Levará, Leão de Ouro em Veneza, em 1999. A equipe do TelaTela se junta a estas merecidas homenagens, relembrando seus filmes que mais nos marcaram.

 

eutelatela Flavia Guerra

Um Alguém Apaixonado

Abbas Kiarostami sempre contou as histórias de sua aldeia, mas nunca perdeu sua universalidade. Tanto que, mesmo já consagrado, foi até o Japão para contar a história de amor e de solidão que é Um Alguém Apaixonado.

O diretor já havia ido até a Itália em Cópia Fiel para retratar até onde a arte, e o amor, têm valor. E foi ao Japão filmar a história de uma jovem japonesa garota de programa que é enviada para passar a noite com um velho professor. Mais que em um drama sobre o conflito de gerações, mergulhamos na intimidade dos personagens, revelada com a instabilidade da garota e o tédio e a solidão do professor.

Ainda que sutil, o projeto é ousado, e muito por isso que, quando Kiarostami mostrou o filme no Festival de Cannes de 2012, disse que só no Japão ainda havia histórias com a delicadeza de seu filme. Cada detalhe tem seu significado calculado, da escolha dos espaços aos rostos dos atores.


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Diego Olivares

Cópia Fiel

Um homem e uma mulher viajam pela Toscana. São desconhecidos que aproveitam um do outro para reviver relacionamentos passados ou um casal afastado se reencontrando? Em Cópia Fiel (2010), Abbas Kiarostami brincou de esconder e revelar as coisas ao mesmo tempo, e como foi delicioso participar como público desta brincadeira, por mais que algumas verdades inconvenientes sobre o comportamento humano venham à tona na tela de vez em quando.

O filme faz qualquer título da trilogia Antes do Amanhecer, também movida por uma discussão de relação em movimento constante, parecer pueril. Maduro e discreto em sua genialidade, o cineasta nos envolve completamente no jogo entre Juliette Binoche e William Shimmell, tão brilhantes em cena que ofuscam até as belas paisagens do cenário italiano.


 

Clarice Cardoso

Gosto de Cereja

O longa que rendeu a Palma de Ouro ao cineasta nos conduz de forma delicada pelo último dia de vida do Sr. Badii, um homem de meia idade que vai a Teerã em busca de quem aceite enterrá-lo após ele cometer o suicídio. Conforme procura por um homem para realizar a tarefa, oferecendo farta recompensa, ele percorre cenários do interior do país e revela sutilezas sobre os estados de alma dos candidatos.

Para cumprir sua missão, o sr. Badii tenta a ajuda de um soldado, de um seminarista e de um velho homem, numa trajetória que é comumente comparada ao existencialismo de Albert Camus. Isso porque todos esses personagens demonstram diferentes respostas quando confrontados com a questão da morte e do suicídio. Se similar ao que se pode ler em O Mito de Sísifo, a proposta vai na direção contrária do que prega a tradição islâmica, o que causou a proibição do filme no Irã.

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