selomostra39As vidas do ator britânico Tim Roth e do cineasta mexicano Michel Franco cruzaram-se pela primeira vez em 2012, durante o Festival de Cannes. Naquele ano, o jovem realizador latino apresentava seu segundo longa-metragem, Depois de Lúcia, que saiu de lá coroado como o melhor filme da mostra Um Certo Olhar, cujo júri era presidido justamente por Roth.

Três anos mais tarde, os dois voltaram juntos à Croisette, no último mês de maio, para apresentar Chronic, um dos resultados da parceria que nascera ali (o outro foi 600 Milhas, produzido por Franco e também estrelado por Tim Roth, exibido no Festival do Rio e candidato do México ao Oscar). Ganharam muitos elogios, além do prêmio de melhor roteiro na competição principal.

No filme, o astro de Cães de Aluguel e da série Lie to Me tem uma atuação como nenhuma outra em sua carreira. Como o enfermeiro David, ele está em cena o tempo inteiro, muitas vezes calado ou falando baixinho com os pacientes, homens e mulheres que sofrem de alguma doença terminal e são colocados sob seus cuidados para cumprirem as atividades mais banais do dia-a-dia: tomar banho, comer, se limpar após as necessidades fisiológicas.

Extremamente profissional, ele se mantém à distância de qualquer envolvimento emocional com a família daqueles que cuida, possivelmente para se preservar. Fora do trabalho, ele também carrega seus traumas, que vão se revelando pouco a pouco.

Esta contenção do roteiro, sempre alimentando em doses homeopáticas o público com informações e sem ligar para convenções como pontos de virada ou momentos forçadamente grandiosos, é calcada em desempenhos naturalistas do elenco. Os atores foram encorajados pelo diretor a improvisar, e a sempre contar até cinco antes de dizerem suas falas.

Além de Roth, destaque para Robin Barlett como a senhora com câncer que aparece na última parte do filme, abandonada pelos familiares e extremamente rígida ao decidir como quer passar os dias derradeiros de sua vida.

Com a frieza que já tinha demonstrado em Depois de Lúcia, Franco grava essas imagens fortes usando uma câmera estática, que parece não se comover com as atrocidades da vida. O estilo cru e a solidão do protagonista fazem de Chronic uma obra árida, mas extremamente impactante, mesmo antes da irônica cena final, que divide opiniões.

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Nossa Opinião

8.5
A contenção do roteiro, sempre alimentando em doses homeopáticas o público com informações e sem ligar para convenções como pontos de virada ou momentos forçadamente grandiosos, é calcada em desempenhos naturalistas do elenco
Nota 8.5