Tapis Rouge, ou Tapete Vermelho, é o tipo de título de filme que pode enganar um espectador distraído. No caso do filme suíço em cartaz no 5º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo, que ocorre em São Paulo até o dia 29, o título se refere ao cobiçado tapete vermelho de Cannes, o festival de cinema mais badalado do mundo, em que fazer a sua monté de marche (o tradicional caminho até o Palácio dos Festivais) é para poucos privilegiados cineastas do mundo.

“Cannes é um festival muito grande. É uma família. Muito difícil de entrar para o clube. É preciso ter a carteirinha de sócio para fazer parte”, brincou o diretor Fred Baillif, quando questionado pela plateia que lotou o cinema do Centro Cultural Banco do Brasil na semana passada, em debate após sessão do filme.

A pergunta feita? Se Tapete Vermelho tinha entrado para a seleção oficial do festival francês, uma vez que revela a aventura de um grupo de jovens descendentes de imigrantes africanos e muçulmanos que vivem na periferia da cidade suíça de Lausanne e viajam até Cannes. O que eles querem? Fazer um filme. Mas, além de não terem oportunidades de trabalho, não têm ideia de por onde começar. Nem mesmo um roteiro há.

Para ajudá-los, o assistente social Fred (o ator Frédéric Landenberg) propõe que escrevam e apresentem o roteiro a produtores no Festival de Cannes. A jornada até a Croisette, a avenida à beira-mar da cidade francesa que abriga o festival, é o que está em foco no longa, que foi produzido com verba mínima, em tempo recorde de apenas um mês e que foi escrito a seis mãos pelos diretores e por Landerberg.

“Nós íamos trabalhando no roteiro enquanto fazíamos as oficinas de atuação com os atores. Tivemos apenas dois meses, de março a maio, para roteirizar e filmar em Cannes, quando ocorre o festival. Depois de pronto, enviamos o filme para os selecionadores de Cannes, mas não recebemos resposta”, explicou Kantarama Gahigiri, codiretora do longa.

Tapete Vermelho, que tem sessão na terça-feira 23, no Cinesesc, às 19h, com a presença dos diretores, que conversam com o público após a exibição, revela que, assim como sua vizinha França, a Suíça está longe de ser um paraíso onde questões como as oportunidades oferecidas a imigrantes já foram superadas.

“Muitos acham que não temos problemas sociais, mas eles são muitos. Sabemos que não temos a mesma violência que há no Brasil, mas temos também problemas com questões de falta de perspectiva, racismo, intolerância religiosa. O que descobri é que o cinema pode ser sim uma ferramenta para promover mudanças”, declarou Fred, que antes de se tornar diretor trabalhou como assistente social em Genebra.

Para ele e para Kantarama, o fator ‘realidade’ foi decisivo para a elaboração do roteiro. “Assim como na trama, que é ficcional mas incorpora vários aspectos reais da vida dos atores/personagens, os jovens do nosso elenco queriam mesmo fazer um filme e procuraram um assistente social local. A diferença é que aí nós fomos procurados e o projeto de Tapete Vermelho surgiu”, conta Fred.

Além de lidar com o orçamento enxuto, os realizadores tiveram de lidar com as questões sociais reais que envolviam a vida de cada um dos atores. “ Da mesma forma que na história, eles de fato pertencem àquela comunidade, uma das mais pobres da Suíça, enfrentam questões que os personagens também têm. Para eles, que não são atores e nunca tinham feito nada no cinema, o desafio foi tão grande quanto para os personagens, cujas histórias têm muito a ver com a vida real de cada um deles”, revelou Kantarama.

Fred também ressaltou que aprendeu tanto como diretor quanto como assistente social que é possível levar um projeto, seja social seja cinematográfico, até certo ponto. “Depois disso, é com eles. Ou seja, quando trabalhei com jovens carentes de um dos parques mais perigosos de Genebra, em que gangues brigavam o tempo todo, aprendi que envolver os jovens em atividades, como o basquete, que usei nesse caso, o cinema, no caso do longa-metragem, é a melhor forma de promover alguma mudança. Mas para que isso aconteça, é preciso que eles estejam dispostos. Meu trabalho acaba onde começa o engajamento deles”, analisou o diretor.

“Só aprendi que o cinema é tão capaz de mudar, ou influenciar, a realidade de jovens de todo o mundo quanto outras atividades sociais. Um dos atores do filme, por exemplo, o mais jovem deles, foi para Paris, com uma demo do filme na mão e conseguiu um papel em uma série da Arte (um dos canais mais prestigiados da França)”, continuou ele. “O caso dele me inspira. Poder debater nosso filme e nosso trabalho com plateias do mundo, como a do Brasil, país que tem questões sociais profundas e um cinema que nos inspirou muito, é o que nos motiva”, completou o diretor, que é fã de longas como Cidade de Deus.

“O primeiro filme que vi, justamente, no Festival de Cannes, quando ainda pensava em estudar cinema, foi, por acaso Cidade de Deus. No final da sessão, para uma plateia imensa que aplaudiu o filme por dez minutos, vi que todos os garotos do longa estavam presentes. Aquilo me emocionou e certamente me inspirou a fazer o trabalho que faço hoje”, concluiu Kantarama.

Comentários

comentários