botaooscarArrogante, frio, teimoso. Estas não são as características que vêm logo de cara no imaginário popular quando se fala no homem que ajudou a consolidar a posição que a Apple ocupa hoje. É mais comum encontrar adjetivos mais positivos e valorizados no mundo corporativo, como “confiante”, “focado”, “obstinado”.

A versão da história, afinal, é normalmente contada pelos vencedores e ninguém discute o impacto real que as ideias do empresário causaram não apenas no ramo da tecnologia, mas também na cultura pop.

Steve Jobs, o filme de Danny Boyle, propõe uma imersão nos bastidores das apresentações que tornaram sua marca gigante e mostra um lado de seu protagonista nem sempre fácil de simpatizar, mas não menos fascinante. Mérito do roteiro afiado de Aaron Sorkin e da atuação brilhante de Michael Fassbender, que dribla qualquer falta de semelhança física e vai além da simples imitação para construir um personagem forte e conflituoso.

Sua performance, indicada ao Oscar, está sendo eclipsada nas conversas pela expectativa sobre a provável -e até certo ponto, merecida – premiação a Leonardo DiCaprio. É uma pena, pois o filme, que fracassou nas bilheterias norte-americanas, poderia ter sido beneficiado se o ator estivesse entre os favoritos. Os números ruins, mesmo com elogios da crítica, parecem ter refletido por aqui: Steve Jobs estreou em número moderado de salas, e na segunda semana já era tarefa difícil encontrar os horários de suas sessões nos cinemas.

Nossa Opinião

8.5
O filme de Danny Boyle, propõe uma imersão nos bastidores das apresentações que tornaram sua marca gigante e mostra um lado de seu protagonista nem sempre fácil de simpatizar, mas não menos fascinante.
Nota 8.5

Talvez seja saturação. Afinal, Jobs morreu em 2011 e desde então tem sido alvo de documentários, e até outro longa de ficção, em 2013. Mas, ao contrário da esquecível cinebiografia estrelada por Ashston Kutcher, o longa de Boyle não quer reconstituir um passo a passo da vida de alguém. É estruturado em apenas três momentos fundamentais de sua trajetória: o lançamento do primeiro Mac em 1984, do Next em 1988 e do iMac, em 1998.

Nos três casos, a fórmula é a mesma: momentos antes da apresentação, um Steve Jobs ansioso perambula pelas cochias do auditório, onde recebe a visita de figuras chave para sua trajetória. Pode parecer um loop repetitivo, mas os diálogos (e são muitos) são tão bons que tudo flui suavemente. Ajuda também que estas figuras sejam interpretadas por gente como Kate Winslet (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante), Jeff Daniels e Seth Rogen, todos em plena forma.

Há também a presença de uma filha, inicialmente rejeitada, mas posteriormente uma das únicas capazes de derreter seu coração de gelo. É o elemento que pretende dar mais suavidade à trama, mas acaba soando até mesmo dispensável e artificial, como que para humanizar a figura de Jobs. Ou não seria a ambição um traço suficientemente humano? É tão humano que o aproxima a Macbeth, outro personagem recentemente interpretado por Fassbender.

O filme se sai bem melhor justamente quando assume as imperfeições de seu protagonista, alguém que se declara indiferente à aprovação das pessoas, mas que faz tudo para projetar uma imagem de sucesso. É justamente por mostrar este poço de contradições, mais comum a nós do que gostaríamos de admitir, que Steve Jobs triunfa.

Comentários

comentários