Maior cidade da América Latina, sexta metrópole do mundo, centro de um estado com mais de 44 milhões de habitantes. Uma cidade cheia de superlativos, mas não no que tange o cinema. São Paulo passou anos atrás de outros pólos da produção cinematográfica brasileira, como o Rio de Janeiro e Pernambuco. É na tentativa de tirar esse atraso que surgem iniciativas como a SP Cine, empresa criada neste ano com o intuito de desenvolver e financiar programas de audiovisual na capital paulista.

“Não é possível que São Paulo não tenha uma atividade de fomento nas três esferas de governo pra alavancar produção, distribuição, produção de roteiro. Está tudo aqui, só depende de a gente articular as políticas públicas”, disse o prefeito Fernando Haddad em evento, na quinta, 1.º, em que a SP Cine anunciou sua primeira lista de projetos contemplados.

São 30 longas-metragens habilitados a receber o aporte total de 12,7 milhões de reais, dedicados não apenas à produção, mas também à distribuição, com o compromisso de serem lançadas em aproximadamente 3 mil salas de cinema pelo Brasil.

A lista inclui desde produções que já estão prestes a estrear, como ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert, ‘Sinfonia da Necrópole’, de Juliana Rojas, ‘Obra’, de Gregório Graziosi, e outras que devem entrar em circuito a partir de 2016, como ‘Escaravelho do Diabo’, de Carlo Milani e ‘A Comédia Divina’, de Toni Venturini.

“No ano passado 50 filmes paulistanos estavam prontos, mas não tinham lugar em salas de exibição”, relatou Alfredo Manevy, diretor-presidente da SP Cine, na abertura do evento. Mudar essa realidade passa pelo novo circuito a ser implementado pela prefeitura, com  20 salas de cinema já em licitação, que devem ser abertas na periferia, na maioria em bairros onde atualmente não existe cinema, com sessões a preços populares. Um novo edital, que ocorre a partir deste mês, será dedicado justamente aos equipamentos destas salas.

 

Alfredo Manevy, presidente da SPCine, e o prefeito Haddad
Alfredo Manevy, presidente da SPCine, e o prefeito Haddad

Também presente na coletiva, o Secretário Municipal de Cultura, Nabil Bonduki, ressaltou a importância de ter como parceira “uma empresa estruturada, que está pensando em toda a cadeia do audiovisual, produção, roteiro, distribuição, exibição”.

O próximo passo é fazer com que seja mais fácil filmar em São Paulo: “Temos ainda muita dificuldade, mas vamos trabalhar isso bastante no próximo período, pra poder fazer com que o espaço público da cidade possa estar mais presente nos filmes. Na verdade, isso faz parte de uma política até mais geral da Secretaria e da Prefeitura, de fazer com que a cidade seja um palco da cultura de São Paulo, de o espaço público ser o palco da cultura”.

Sobre isso, o presidente da SP Cine deu mais detalhes: “A gente vai implantar um decreto novo para a film comission, que vai criar autoridade audiovisual, liberações rápidas. A cidade tem que facilitar a vida de quem filma. E temos que fazer um trabalho educativo e cultural com a população, porque eu recebi uma carta lá na secretaria, um ano e meio atrás, de um munícipe reclamando que estavam filmando na rua”, lembrou Manevy.

Haddad aproveitou a ocasião para explicar como o cinema se integra ao projeto de ocupação social que tem marcado sua gestão. “A partir do momento em que você convida os nossos profissionais do cinema e do audiovisual pra essa parceria e oferece apoio, garante a exibição, promove salas públicas de exibição, faz as pessoas saírem de casa. Muita gente não sai de casa na periferia. Muita gente não tem o que fazer na periferia. Muito paulistano nunca foi ao cinema na vida”, declarou o prefeito.

O que a gente precisa hoje é levar as pessoas ao cinema. E o que está sendo feito de política de uso de espaço público pelo cidadão vai contribuir muito pra que muita gente que nunca foi ao cinema possa ir. As pessoas vão estar muito mais dispostas a ir ao cinema, por estar no espaço público, do que quem está hoje prisioneiro em casa”
“Agora imagina num Ceu (Centro Educacional Unificado) lá do extremo leste ou do extremo sul você convidar as pessoas pra ver a cultura da sua cidade, que eles desconhecem”, projetou. A iniciativa, ressaltou, é uma forma também de criar empregos na cidade.

“O que a gente precisa hoje é levar as pessoas ao cinema. E o que está sendo feito de política de uso de espaço público pelo cidadão vai contribuir muito pra que muita gente que nunca foi ao cinema possa ir. As pessoas vão estar muito mais dispostas a ir ao cinema, por estar no espaço público, do que quem está hoje prisioneiro em casa”, complementou o secretário. Para Manevy, “a ideia dialoga com o carnaval de rua, dialoga com as ciclovias. É um novo momento que a cidade tem de afirmar, e o cinema é parte disso”.

Nessa cadeia da produção cinematográfica, a SP Cine está disposta a atuar até a raiz, com oficinas e workshops de cinema na periferia, para plantar uma semente em jovens e adolescentes.“Se a gente fechar o ciclo do cinema, desde a escola até a exibição em salas públicas do que a gente tem de melhor, ninguém vai segurar São Paulo”, finalizou Haddad.

"Sinfonia da Necrópole", de Juliana Rojas
“Sinfonia da Necrópole”, de Juliana Rojas

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