“Nós não nos reconhecemos como uma sociedade racista e preconceituosa. E o primeiro passo para poder superar um problema, é reconhecer que o problema existe”. Assim, colocando o dedo numa ferida que muita gente prefere ignorar, que o diretor Belisario Franca define uma das questões fundamentais há muito tempo no Brasil, que volta à tona num momento de avanços preocupantes da filosofia de extrema direita.

Seu documentário Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil já está em cartaz nos cinemas, após ser premiado em duas categorias na edição deste ano do Cine Ceará (roteiro, para Franca e Bianca Lenti, e montagem, para Yan Motta).

O que se vê na tela é uma história que, como muitas, foi varrida para debaixo do tapete por parte de uma família da elite nacional. Durante os anos 30, quando setores influentes do País flertavam com o fascismo e o nazismo através do movimento integralista, 50 meninos negros foram levados de um orfanato no Rio de Janeiro para uma fazenda no interior de São Paulo, onde foram submetidos a trabalho escravo.

A descoberta que deu origem ao documentário aconteceu quase por um acaso, quando uma aluna do historiador Sidney Aguilar disse a ele que havia encontrado tijolos marcados com a suástica nos arredores da propriedade de sua família.

Aguilar aparece como o narrador do filme, mas os protagonistas são dois sobreviventes da época, Argemiro Santos e Aloísio Silva, o menino que era identificado como 23, já que os nomes dos garotos eram frequentemente substituídos por números.

“Foi um momento muito forte em que testemunhamos as memórias submersas do Menino 23 virem à tona, os véus que estavam ali estavam sendo desvelados”, relembra o diretor, sobre o encontro com Silva, já um senhor de 89 anos, quando a produção o levou de volta ao Rio de Janeiro para gravar parte de seu depoimento.

O longa tem informações assustadoras por serem tão pouco conhecidas ou mencionadas desde então, como o fato do Brasil ter tido o segundo maior partido nazista do mundo, fora da Alemanha. “Somos a nação da negação: negamos que somos violentos, que somos racistas, que somos excludentes, que existe trabalho escravo no Brasil e que temos uma elite que não perde nunca”, dispara.

Leia abaixo a entrevista exclusiva que o documentarista concedeu via email ao TelaTela:

TelaTela – Como você tomou conhecimento da história que deu origem a Menino 23?

Belisario Franca – Tomei contato com a pesquisa do professor Sidney em 2011. Uma pesquisa de muita profundidade e original onde vislumbrei imediatamente a possibilidade de transformar num longa metragem documentário. Como as necessidades do cinema são diferentes, fomos seletivos e privilegiamos as informações que nos ajudassem a contar a história sem perder o rigor científico.

O que mais me atraiu na pesquisa era a possibilidade de fazer um filme, para além da História com H maiúsculo e a história da vida dos meninos do Orfanato Romão Duarte. O filme trata de dois temas atualíssimos no Brasil do século XXI: infância desassistida e racismo.

Como foi seu contato com os personagens a as revelações que foram surgindo durante a pesquisa? Como isto mexeu com você?

Depois da primeira leitura da tese, a primeira decisão foi filmar o Seu Aloísio Silva, naquele momento com 89 anos de idade. Sabemos que nessa idade a saúde pode mudar bruscamente. Fomos duas vezes naquele ano a Campina de Monte Alegre. Na terceira vez convidamos seu Aloísio para vir ao Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e de onde foi levado há 80 anos. Foi um momento muito forte em que testemunhamos as memórias submersas do Menino 23 virem à tona, os véus que estavam ali estavam sendo desvelados.

Paralelamente, buscamos e encontramos Seu Argemiro. No primeiro encontro, colocamos para tocar o hino integralista. Aquela memória que estava enterrada há mais de 70 anos, vira matéria. Seu Argemiro começa a cantar o hino do começo até o fim. E mais uma vez assistimos subir a superfície as histórias vividas por aqueles órfãos retirados do orfanato Romão Duarte. Memórias que antes eram privadas passam agora a ser coletivas.

O filme tem algumas informações reveladoras, como o fato de que o Brasil teve o segundo maior partido nazista do mundo, fora da Alemanha. Por que fala-se tão pouco disso no País?

Somos a nação da negação: negamos que somos violentos, que somos racistas, que somos excludentes, que existe trabalho escravo no Brasil e que temos uma elite que não perde nunca. Negamos que nossa elite na década de 30 nutria forte adesão às praticas autoritárias. O Brasil ainda precisa acertar as contas com a era Vargas no período de 30 até 1945.

Uma constatação da pesquisa era a existência de uma bancada assumidamente eugenista na Assembléia de 33 e 34, em que podemos ler os discursos de alguns deputados constituintes sobre a necessidade de excluir os riscos sociais e de aprimoramento da raça. Esse contexto permitiu a naturalização de práticas segregatórias que tiveram impacto na vida dos meninos retirados do orfanato Romão Duarte.

Assombrosamente alguns dos temas da pesquisa são atuais e o cinema pode articular com mais intensidade, desvelar e condensar histórias colocando expostas verdades que de outra maneira não se revelariam. No cinema, a história surge encarnada, doída e viva.

Você vê algum tipo de evolução social, principalmente na questão da representação dos negros e do racismo, daquele tempo até hoje?

Nós não nos reconhecemos como uma sociedade racista e preconceituosa. E o primeiro passo para poder superar um problema, é reconhecer que o problema existe. E nós estamos patinando nisso há muito tempo. Como você pode se constituir como um ser autônomo, senhor de si, se você não teve os cuidados que você precisava ter para se constituir num cidadão? O que eu chamaria de cultura de direitos, ou seja, o sujeito de direito no Brasil é muito recente. Não existe democracia sem cidadania e direitos humanos.

Como você vê o crescimento de setores da direita no contexto político e social atual? Foi um fator a mais para fazer o filme?

A decisão de fazer o filme é anterior ao atual cenário político. A mesma naturalização de práticas autoritárias que víamos na década de 30, começam a aparecer em discursos de maneira acentuada. Como se estivessem à espera de uma oportunidade para emergir de forma despudorada.

O documentário não tem depoimentos da família Rocha Miranda, que se recusou a falar com vocês. Como eles receberam esta aproximação da equipe? Já houve algum tipo de reação deles ao filme?

A história incomoda quando ela não trata das ações comemorativas cívicas. Quando da publicação da tese do Sidney Aguilar a família demonstrou o desconforto com as informações levantadas e também com a notícia que o filme estava sendo produzido. Essa entre outras famílias teve um passado glorioso e agiam dentro das lógicas autoritárias da época com muita naturalidade. Então, para as novas gerações é difícil admitir hoje que elas não foram tão gloriosas assim.

Se no passado eles tiveram um brilho dentro de uma teia de relações políticas, econômicas e sociais, esse passado também traz fatos que maculam essa glória e que incomodam nos dias de hoje. Talvez tenha sido um dos motivos por terem se recusado a participar do filme.

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