Um personagem histriônico solta uma frase de efeito. Preferencialmente, ele pertence a alguma minoria tão marginalizada quanto estereotipada, como gays ou nordestinos (se for os dois, é estouro de audiência). Faz isso sempre gesticulando de forma bem afetada, ladeado por alguém de corpo escultural e cérebro vazio, um serviçal atrapalhado e outro que há alguns minutos fez uma piada classicista dizendo ter aversão a pobre. A plateia do teatro gargalha, enquanto os próprios atores têm dificuldade de segurar o riso em cena.

Responda rápido: de que programa estamos falando? Se você pensou em três ou quatro respostas de uma vez, não se enganou. A fórmula pasteurizada deixa indissociáveis uma das outras algumas das principais apostas humorísticas da TV paga, especificamente, do Multishow.

#PartiuShopping, a nova (?) série do canal, é o mais recente exemplo disso, e cabe nas mesmas caixinhas que também servem para a segunda temporada de Vai que Cola e da chegada do inacreditável Acredita na Peruca.

Muitos vão se lembrar que tudo isso é muito familiar ao que fez de Sai de Baixo um sucesso nos anos 1990. Não é por acaso que a primeira temporada de Vai que Cola tenha sido antecedida por uma leva de novos episódios do antigo programa no canal irmão Viva, como que para reativar a memória afetiva dos espectadores àquela linguagem.

Pode comparar: tem sempre um(a) gostoso(a) burro(a), um elitista sem muito status cuja personalidade se baseia em discriminar pobres e funcionários desbocados que se intrometem em qualquer situação.

Para ilustrar a indiferenciação dos formatos desses programas, o TelaTela elaborou o quadro abaixo, que agrupa, linha a linha, personagens afins.

mapa-do-humor

Apesar de a comparação óbvia ser o Sai de Baixo, dá para ir mais longe nessa história. Esta é uma fórmula que tem já seus 50 anos e remonta ao sucesso de audiência de Família Trapo. Considerada a primeira sitcom brasileira, as gravações do programa, de 1967 a 1971, lotavam o teatro Record, em São Paulo, e é um dos marcos da história da televisão.

Desde então, a televisão já criou dezenas de programas de humor tentando reviver o sucesso de Família Trapo. Explica muito da contaminação do que assistimos hoje.

Além da presença do público num teatro, contanto que ele esteja lá apenas para ver de perto os artistas e tietar seus ídolos, outra herança de Família Trapo é ter sempre um comediante central em torno de quem tudo acontece. Lá, era Ronald Golias como Carlos Bronco Dinossauro; aqui, temos Tom Cavalcante (Sai de Baixo e #PartiuShopping), Luis Fernando Guimarães (Acredita na Peruca) ou Paulo Gustavo (Vai que Cola).

A estrutura principal muda pouco, e se dá num ambiente familiar de classe média (uma casa, pensão, salão ou mesmo shopping). Lá, os “patrões” lidam com parentes desagradáveis, que normalmente não querem saber de trabalhar, e com os empregados que, apesar da convivência diária e dos laços afetivos, são sempre lembrados de qual é o “seu lugar”. Esta situação, tão comum nas relações com funcionários domésticos até hoje, remonta às interações mesmo de Golias com o mordomo vivido por Jô Soares (“Você se bote no lugar de lacaio!”).

“Estou entendendo agora porque pobre vira evangélico. É para poder chamar a gente de irmão. Ugh.”

Num contexto assim, o tipo de humor só pode ser aquele que ri do oprimido. Pobres estereotipados, gays afetadíssimos e transexuais estão lá enquanto forem ridículos e risíveis. E não tente encontrar diversidade quando juntar todos esse elencos. Alguns desinformados vão argumentar que vivemos em tempos politicamente corretos, que antes era mas simples e tudo não passa de piada. É a recusa em perceber que as minorias ganham voz e podem agora, mais do que nunca, apontar o dedo e denunciar a opressão cotidiana.

Se a ideia é trazer a plateia para ver famosos, contando sempre com suas gargalhadas para impor ritmo a tudo, ninguém realmente se importa com o enredo. O aplauso já está garantido assim que cada ator entra em cena, sai do personagem, agradece, e começa a cena. O grande momento é gritar em coro algum dos bordões.

Dentro dessa estratégia, é uma boa ideia trazer uma celebridade sempre que possível. Nem precisa saber atuar, já que a única coisa importante que terão de fazer é entrar em cena. Neste episódio da Família Trapo, o famoso da ocasião era Pelé, que recebe aulas de futebol de Bronco:

Jogando com os números de audiência debaixo do braço (Vai que Cola estreou como o programa mais visto na TV paga em dez anos até então), os executivos do Multishow tinham em mãos um template que não hesitaram em seguir, com as mínimas mudanças, nas atrações seguintes.

Até o nome dos programas é semelhante. Sai de Baixo, Vai que Cola, Acredita na Peruca e #PartiuShopping são expressões curtas, de fácil reconhecimento e identificação. A quantidade de personagens segue a lógica do quanto mais, melhor. Se der pra colocar todos juntos no palco ao mesmo tempo, de preferência no final, maravilha.


“Você tem noção da bicha pão com ovo que você é?”

O roteiro é apenas um detalhe. Desde que deixe espaço para todos irem entrando e saindo de cena rapidamente, a gostosa confundir um ditado, e até preveja alguns improvisos. Se tudo não fizer sentido durante aqueles aproximadamente cinquenta minutos, vem uma música, a cortina fecha e todos estão satisfeitos do mesmo jeito.

Essa parece ser a lógica dominante, e sempre haverá alguém pra dizer que, afinal, é disso que o povo gosta. Mais do que a falta de criatividade, é a falta de ambição por quem cria estes programas em querer fazer algo diferente que é realmente assustador.

Não dá para acreditar que nas últimas cinco décadas o humor brasileiro tenha andado sem sair no lugar e continue fazendo o mesmo de sempre. Se o plano é trazer a classe C dos canais abertos para os por assinatura, é melhor parar de subestimar a inteligência do telespectador e começar a pensar de forma realmente criativa.

Comentários

comentários