Nossa Opinião

7.0
A obra é aberta o suficiente para que cada um que tenha algum olhar sobre o espírito do nosso tempo arrisque sua teoria e consiga sustentá-la
Nota 7.0

Assistir a Adeus à Linguagem no cinema pode ser uma experiência penosa. Como se já não bastasse o incômodo dos óculos 3D, a edição é toda picotada, o som é propositadamente ruidoso e não equalizado, algumas falas ficaram sem legendas a pedido do diretor, além das imagens com alguma frequência usarem um efeito de sobreposição, capaz de entortar os olhos de quem vê.

Se cabe a dúvida sobre como uma obra dessa seria recebida caso fosse o trabalho de estreia de algum mero desconhecido, também é preciso dar crédito a Jean Luc-Godard. Cineasta provocador por natureza desde seus primeiros filmes na Nouvelle Vague, o veterano mestre francês pode se dar ao luxo de, aos 84 anos, fazer o que bem entender. Portanto, se escolheu fazer um filme deste jeito, com tamanha abstração, alguma coisa ele tem a dizer. Mas o quê?

Estranhamento é pouco para descrever o que se sente diante da proposta do diretor, que causa incômodo físico, angústia até. Com um título que pode ser levado quase ao pé da letra, Godard não entrega o que algum incauto possa esperar desse tipo de filme. Esqueça a experiência de entrar numa sala para ver um filme de ação ou de super-herói e esperar passivamente que o 3D efetivamente saia da tela até você para te puxar para a imersão na história. O 3D de Godard não se presta à contemplação preguiçosa: antes, é uma experimentação com a profundidade, da imagem e do filme, que não permite reduções simplistas. Aqui, é você quem tem que fazer o trabalho.

Decifrar o enigma de Adeus à Linguagem faz qualquer filme de David Lynch parecer um conto da Carochinha. Não há narrativa “redondinha” capaz de preencher uma sinopse tradicional, por exemplo. Se você viu o filme, tente o exercício de contar sobre o que ele trata para algum amigo leigo, cinéfilo ocasional, em poucos caracteres. Não será tarefa fácil.

Até para os iniciados, a recomendação é apenas contemplar a obra, como uma pintura impressionista. A citação a Monet pode ser uma dica, assim como são simbólicos os questionamentos filosóficos que vez por outra são jogados na tela, e ficam no ar, sem aprofundamento.

Talvez a crítica seja justamente a essa sociedade contemporânea, fascinada pela tecnologia 3D que simula uma imersão e falso senso de profundidade, enquanto fica a cada dia mais e mais superficial.

Pode não ser nada disso também. A obra é aberta o suficiente para que cada um que tenha algum olhar sobre o espírito do nosso tempo arrisque sua teoria e consiga sustentá-la.

“Estou seguindo outro caminho. Tenho habitado outros mundos, às vezes por anos, ou por alguns segundos, sob a proteção de entusiastas. Eu fui e fiquei”, disse Godard no comunicado em que justificou sua ausência do Festival de Cannes (de onde o filme saiu com dois prêmios do Júri, um deles ao cachorro Roxy).

Falta saber quantas pessoas ainda têm a disposição ou aptidão para seguir suas pegadas. A nós, resta olhar de longe, ora estupefatos, ora simplesmente confusos.

 

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