Bento Gonçalves – RS

Antonio Skármeta é um dos mais cinematográficos autores contemporâneos. Seus livros já renderam diversos filmes que não só levaram milhões de pessoas aos cinemas como receberam centenas de prêmios.

Entre os mais nobres, estão três indicações e um Oscar de melhor trilha sonora para O Carteiro e o Poeta, que o inglês Michael Radford dirigiu inspirado no romance Ardente Paciência. Entre outros sucessos, estão os menos famosos, mas não menos engenhosos O Ladrão e a Bailarina, de Fernando Trueba, baseado em O Baile da Vitória, e No, de Pablo Larraín, que deu ao Chile sua primeira indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 2014 ao levar para a telona a peça O Plebiscito.

Quem entra agora para este seleto time de diretores parceiros de Skármeta é o ator e diretor Selton Mello, que encerrou há uma semana as filmagens de seu terceiro longa-metragem: O Filme da Minha Vida.

Baseado no livro Um Pai de Cinema, de Skármeta, o filme conta a história de Tony (vivido por Johnny Massaro), um jovem professor que, ao voltar pra sua cidade natal, no sul do Brasil, descobre que o pai (interpretado pelo francês Vincent Cassel) deixou sua mãe e partiu de volta à França.

É a saga de Tony em busca deste pai, que está mais perto do que ele pensa, do amor e de seus sonhos que Selton leva às telas com cuidado milimétrico.

Durante um dos últimos dias de filmagens do longa, no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, o diretor cuidava da cena em que Tony tem sua primeira noite de amor com a cortesã Camélia (Martha Nowill) com o mesmo apuro que o autor fala de seus personagens.

Observar Selton dirigir e Skármeta falar de O Filme da Minha Vida é a certeza de que uma história boa se tem pela frente. Para a produtora Vânia Catani, da Bananeira Filmes, o longa mantém o estilo de  Selton, que com seu trabalho anterior, O Palhaço, levou 1,5 milhão de pessoas aos cinemas, equilibrando cinema de autor e diálogo forte com o público.

“Quando Skármeta nos procurou, por meio de um amigo brasileiro, oferecendo o livro para que o Selton filmasse, ele  estava buscando a história de seu terceiro longa. A ideia era fazer um filme que tivesse a mesma pegada que O Palhaço. Quando li o livro, achei que tinha tudo a ver”, conta Vania. “É um filme que desde a avó até o neto podem assistir, mas não é para um espectador comum, que vê e logo esquece, e sim para quem tem uma relação mais profunda com o filme”, completa a produtora.

Sobre o convite que fez a Selton para que o ator levasse seu livro aos cinemas, a ponta que fez no filme como o dono de bordel Eseban Copetta, e sobre seu amor pelo Brasil, Skármeta falou ao TelaTela:

TelaTela – Você vem sempre ao Brasil, como é sua relação com a cultura brasileira?

Skármeta – Eu gosto muito do Brasil, compus canções que são cantadas no Brasil, como uma de Toquinho, escrevi sobre o cinema brasileiro, sobre Central do Brasil de Walter Salles, li muitos livros brasileiros, conheci Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão, Lia Luft.

A literatura brasileira é pouco traduzida para o espanhol. As vezes de alguns autores eu conheço apenas um livro. E quando leio em português, prefiro ler os livros mais curtos. Senão dá muito trabalho. Por isso leio muito Clarisse Lispector, que escreve histórias curtas, mas incríveis.

Como nasceu a ideia de que Selton Mello dirigisse seu livro ‘Um Pai de Cinema’?

Meus livros sempre atraíram aos diretores e produtores de cinema. Michael Radford, Fernando Trueba, Pablo Larrain, entre outros, já levaram histórias minhas ao cinema. Havia interesse de cineastas europeus de filmar Um Pai de Cinema, mas eu queria que fosse um diretor brasileiro a filmá-la. Isso porque eu gosto da gente do Brasil, sua música, sua paisagem, sua pintura, tenho uma coleção de discos de Bossa Nova imensa.

Há algum tempo, estava em uma feira de livros no Sul do Brasil e li um trecho de Um Pai de Cinema. E o público estava muito emocionado, e, estimulado por este público eu confessei que  gostaria que um diretor brasileiro como o Selton o transformasse em um filme. Um amigo, escritor e agitador cultural gaúcho, disse, então que ligaria para o Selton e iria sugerir. E o fez. E deu certo!

Me pareceu formidável unir as energias e uma literatura feita por escritor chileno fosse reinterpretada por um diretor brasileiro que admiro, como o Selton, que está em uma boa carreira como cineasta. É um momento muito feliz.

A que você acha que se deve este interesse do cinema por seus livros?

Eu cuido muito da estrutura dramática de meus romances. Não sou um novelista que se perde em situações em que se desarma a estrutura dramática. Sempre me preocupo para que se mantenha a tensão, o interesse do leitor. Isso também porque eu sou um escritor que leu muito teatro, viu muitos filmes e que ama a poesia. Sou um escritor que vem muito mais desta zona do que do romance.

Por isso, meus romances têm um gesto histriônico, mostram algo com claridade, mas ao mesmo tempo com ironia, revelam a linguagem que estão mostrando. Claro que muitas vezes jornalistas notaram esta relação tão forte que há entre minha narrativa e o cinema. E me perguntaram o que há que há de especial na minha literatura que causa este efeito.

Eu elaborei muitas teorias muito intelectuais, mas cheguei à conclusão de que a mais sensata era a de que a fórmula foi a que disse o primeiro produtor que se dispôs a fazer um filme meu, dirigida por mim, sobre uma história minha, que se chamava Ardente Paciência (que, refilmada por Redford, virou O Carteiro e o Poeta). Ele disse: “Tua literatura é uma mescla de política, humor e poesia, em uma proporção insólita.” Acho que ele tinha razão.

É interessante porque é muito forte

O Carteiro e o Poeta é uma história de uma amizade baseada na poesia. Mas, como pano de fundo, está o crescimento de um país que quer ser mais democrático. Esta proporção que há entre a história privada e a grande história épica, é o que seduz as pessoas. Há proximidade entre o público e os personagens, em uma história crível, e palpável.

Em Um Pai de Cinema, que virou O Filme da Minha Vida, que proporção entre humor, poesia e política ela tem?

Um Pai de Cinema é o que eu chamo de novela unplugged, que se passa em um tempo indeterminado, onde não existiam todos os barulhos estridentes da modernidade, tudo que distrai a vida íntima das pessoas, como a televisão, as viagens interestelares, a internet. É um tempo em que se poderia ouvir a batida dos corações do personagens.

E também existe a cidade grande. Busquei a América Latina essencial, que só há nos povoados. Busquei esta América Latina que existe nas pequenas cidades, onde os personagens têm desejos, ambições, grandes frustrações, onde um gesto pode ser para toda a vida, onde um fracasso pode ser uma tragédia, onde há uma distância muito grande entre a realidade e os sonhos.

Esta distância tão grande entre a realidade e os sonhos, em geral, nos pequenos povoados, é preenchida pelo cinema. Os filmes que chegam em toda parte são o único entretenimento. E por isso  os filmes são tão importantes, como é importante a música. Eles alimentam os sonhos dos personagens, mas também as vezes alimentam a possibilidade de realiza-los, pois são esses personagens secundários da vida e não protagonistas.

Como foi ver os personagens ganharem vida no filme, ver Vincent Cassel, Johnny Massaro, darem vida à sua criação?

No momento em que estamos tendo esta conversa, o filme já está praticamente pronto. Eu vi trechos do filme, vi várias sequências do já foi rodado até agora e posso te garantir que se trata de um caso de quase milagre de casting, pois o que vi do elenco, do Johnny Massaro, está muito próximo do que imaginei para meu livro. Senti uma grande afinidade e simpatia por estes atores personagens. Posso dizer mesmo que Selton fez o filme da minha vida.

Quem é Tony?

É um cara que vive em certa melancolia, cuja vida consiste em ensinar história, literatura, geografia a jovens que são um pouco mais jovens que ele, que têm quase tão pouca experiência de vida quanto o professor. É um cara sensível, que ama poesia, traduz contos e poemas para o jornal local, gostaria que algum de seus poemas fosse publicado nesse jornal.

Tem de levar sua vida cotidiana, dar as aulas, ajudar a sua mãe que foi abandonada por esse pai que não se sabe onde está e tentar conquistar a moça que ama. Esta é uma história de amor. Todos os elementos vão se misturando. É uma história que tem surpresas. Tudo que parece que vai ser de uma maneira termina sendo de outra.

Como você vê a questão da paternidade na história, pois Tony busca este pai desaparecido. É uma questão simbólica na América Latina a busca pela figura do pai.

Este é um tema essencialmente racional, uma interpretação sociológica de uma questão ficcional. Também no Chile temos esta questão dos filhos sem pai, que são chamados de huachos. Mas esta é já uma interpretação que eu deixo aos ensaístas, os críticos, os jornalistas.

O toque intelectual das histórias que escrevo vem depois, eu trabalho com sentimentos, emoção, com imaginação. E faço questão de que a intelectualidade não me perturbe. Eu como artista não me movo por isso. Eu escrivo para saber o que escrevo e não para provar algo. Então, é difícil responder uma pergunta como esta.

Conte um pouco de seu personagem Eseban Coppeta.

Coppeta é um sobrenome que eu sempre uso nos meus livros, desde As Bodas do Poeta, A Garota do Trombone. Esse é o nome de uma família de personagens que criei. E toda vez que faço um papel em um filme baseado em um livro meu, sou um Copetta. Foi assim em O Ladrão e a Bailarina, em que vivo um crítico de cinema, e é assim agora, como o dono de um bordel.

O Eseban é o cara que vive uma história, que ele conta ao personagem vivido por Selton, o Paco. É uma história estranha, de uma corrida de bicicletas que Copetta disputou quando era jovem e que percebeu que, quando a corrida chegava ao fim, que a morte o seguia. E  ele consegue vencê-la. O mais interessante não é o que eu conto, mas como o Selton a escuta. Mas tenho certeza que o Selton quando a vir vai cortar a cena.

Sua relação com o cinema é muito forte, não só como autor mas também como espectador. Este caso de amor começou muito cedo na sua vida?

É verdade. Eu tenho uma relação muito especial com o cinema. E isso começou no primeiro dia em que fui a um cinema na vida, na minha cidade

O filme era King Kong. Em um determinado momento do filme, em que o King Kong parece vir em direção da plateia, a cena era tão forte, tamanha a capacidade do cinema de criar realidades, imagens de fantasia que parecem tão verdadeiras, que eu, menino, saí correndo do cinema. Mas o impacto foi tão grande que eu voltei no dia seguinte, pois tinha de terminar de assistir ao filme e enfrentar aquele pavor. Esta é a magia do cinema. É incrível. Nunca mais o deixei.

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