CinemaFestival de Cannes 2017

“Se é feminista ou não, o público decide”, diz Sofia Coppola sobre seu novo filme

Era inevitável. Depois da exibição de O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled), novo longa de Sofia Coppola, uma das três diretoras que concorrem à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, a pergunta viria: “Seu filme é feminista porque o inimigo é um homem ou é machista porque as mulheres não fazem mais nada além de orbitar em torno deste homem?”

De fato, ótima questão para se gerar discussões a respeito da leitura contemporânea que a diretora fez do livro de Thomas Cullinan (publicado em 1966 e já adaptado para o cinema em 1971 por Don Siegel, com Clint Eastwood no papel que agora é de Colin Farrell).

Afinal, se no primeiro longa a história era narrada prioritariamente do ponto de vista masculino, na versão de Sofia o olhar é feminino. Mas não necessariamente feminista. “O espectador é quem deve fazer sua interpretação. Este filme fala mais sobre a natureza humana. E eu quis desta vez contar esta história do ponto de vista feminino”, respondeu, desconversando, a pergunta acima.

Talvez o fato de ser feminista, feminino, de trazer a dinâmica entre mulheres (e atrizes) para o centro da questão da trama não seja o ponto crucial do filme de Sofia. Mas sim o fato de que ela quis explorar (assim como vários outros diretores em competição nesta edição) as contradições, ambiguidades e sombras da natureza humana.

Sendo que tudo isso se acentua quando, numa espécie de confinamento de reality show, um grupo de mulheres, trancadas em uma grande escola-casa de campo no sul dos Estados Unidos em plena Guerra de Secessão, acolhem um soldado inimigo ferido. Ele se torna, obviamente, um elemento que perturba a aparente paz que reinava na vida das garotas que têm como tutora a austera, mas maternal, Miss Martha (Nicole Kidman) e como professora de francês a inquieta Edwina (Kirsten Dunst).

Quando McBurney (Colin Farrell) chega, a disputa pela atenção do forasteiro é inevitável. Ao mesmo tempo, a luta dele para ter todas seduzidas por ele (mesmo que esta sedução não envolva a energia sexual) também é inevitável. Ele precisa, afinal, yankee e inimigo, ter a garantia de que elas não vão entregá-lo para as tropas do sul assim que seu ferimento na perna sarar.

Para a diretora e suas atrizes, o que está em jogo, é muito mais que a tão clichê briga pela admiração masculina. “Acho que o filme lida com a questão de se ter pessoas fechadas em um ambiente. Toda vez que isso acontece, coisas sombrias vão aparecer. Algo vai surgir. E isso é humano e não necessariamente feminino”, comentou Kirsten, parceira de Sofia desde o primeiro filme da diretora, As Virgens Suicidas, e estrela de Maria Antonietta, que, a propósito, foi vaiado em Cannes em 2006.

Desta vez, a cineasta não foi vaiada pela imprensa, mas tampouco arrancou aplausos muito entusiasmados. Parte disso é por conta do fato de que, ao contrário de filmes como Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer, o talento de explorar os tempos mortos, os momentos em que não muito acontece, mas tudo se revela, não encontra espaço em O Estranho que Nós Amamos. É, diferentemente de outros de sua carreira, um roteiro guiado pelo plot, pela trama e os acontecimentos. Diante de tanto o que é preciso ser contado, o não falado, as trocas de olhares, o não dito e o sub-entendido perdem espaço.

Há, claro, a mão sutil de Sofia neste novo longa. Mas quem é fã de seus filmes mais silenciosos vai sentir falta disso. Já quem aprecia uma direção de arte bem cuidada, uma fotografia que trabalha muito os claros e escuros (muitos escuros, aliás) e o trabalho do elenco, pode gostar de O Estranho que Nós Amamos.

A propósito, a cineasta também disse que nunca quis fazer um remake do clássico de 1971. “Tentei criar a história do meu ponto de vista, como eu contaria esta história. A gente vai ter uma sessão dupla em Los Angeles com o Clint Eastwood presente. E poderemos ver que são dois lados de uma mesma história. E isso que é bom.”

Foco no trabalho com os atores

Sofia e o elenco feminino de seu novo longa

Sofia disse na conversa com a imprensa que gosta de projetos modestos, pois pode focar bastante no trabalho dos atores. E tem razão. No novo longa, é o elenco, quase todo feminino e pontuado pelo agente provocador de Farrell, quem conduz a narrativa. Nicole, que compete à Palma de Melhor Atriz também com o grego The Killing of a Sacred Deer está ótima como a ambígua Miss Martha. Farrell, que vive o marido de Nicole em The Killing…, entrega um bom trabalho como o mercenário/oficial que joga e seduz para garantir sua sobrevivência. Dunst e Elle Fanning (uma sedutora adolescente) fazem o contraponto de forças na briga pelo desejo do ‘inimigo’ que elas amam odiar. Ou vice-versa.

Farrell, o único homem do filme, comentou que foi uma experiência incrível fazer o filme. “Eu cresci entre mulheres incríveis, minha mãe e minhas duas irmãs. Então, trabalhar com estas mulheres foi maravilhoso. Sofia me deu um papel que me deixou muito feliz em viver e explorar. E a gente nunca sabe no que o filme vai resultar, se vai ser bom ou ruim. Mas foi uma experiência criativa maravilhosa”, declarou o ator irlandês.

“E e eu adorava apenas sentar e observar Sofia trabalhar com estas mulheres incríveis. Aliás, eu trabalhei com poucas mulheres. Sofia e Liv Ullmann [que dirigiu-o em Miss Julie, de 2014]. Se esqueci de alguma outra, mereço um tiro”, brincou Farrell. “O filme é todo contado da perspectiva feminina e, por isso, fazia muito sentido ser dirigido por uma mulher. Sofia tem uma fera dentro e ela tem muita elegância”, completou ele.

Mulheres no Cinema

Por falar em diretoras e mulheres no cinema, em se tratando de um festival que em 70 edições só concedeu uma Palma de Ouro a um longa dirigido por uma mulher (O Piano, de Jane Campion, em 1993, prêmio dividido com Adeus Minha Concubina), outra questão que não pode faltar é justamente a ainda majoritária presença de homens na função de direção.

Quando Nicole foi questionada se este era um meio ainda muito “dominado por homens” e se o cenário era mais plural na TV, a atriz, que é atuante em diversas frentes de luta por paridade entre homens e mulheres, foi precisa: “Dos filmes dirigidos em 2016, segundo o Women in Filmming, 1,2% foram dirigidos por mulheres. Só 193, das 4 mil séries para a TV, foram dirigidas por mulheres. Estes números dizem tudo. Estas estatísticas falam de algo muito importante hoje.”

“Ainda bem que temos Sofia e a Jane Campion (que dirige a série Top of the Lake, em que Nicole atua e que foi exibida em Cannes na terça). Como atrizes, a gente tem que apoiar as diretoras mulheres. Tenho esperança que este cenário mude ao longo do tempo. E quando alguém disser que é tão difícil vamos poder dizer que não é!”, concluiu Nicole.

A atriz, que em junho completa 50 anos, comentou que, uma das boas saídas que encontrou foi trabalhar em todas as mídias. “Trabalho tanto na TV quanto no cinema. Em Big Little Lies, David (E.Kelley, criador da série) sabia que ele estava escrevendo para a tela pequena. Já Sofia fez para o cinema. Saber para onde se dirige faz a diferença”, comentou a atriz australiana, que além dos dois filmes postulantes à Palma ainda está no festival com a série Top of The Lake, de Jane Campion, e o longa independente How to Talk to Girl at Parties, de John Cameron Mitchell.

“A gente precisa que as histórias sejam contadas. O mundo está mudando. Eu só tenho o que agradecer. Faço 50 anos este ano. E nunca tive tanto trabalho. E parte disso é porque posso trabalhar tanto na TV, no cinema, enfim. Quando questionada sobre o fato de ser apontada como uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz, Nicole desconversou. “Importante é estar aqui, mostrar os filmes, apoiar o cinema. Muitos filmes não ganham atenção se não têm um grande estúdio produzindo.”

Sobre a polêmica do momento, a disputa streaming / VOD X Tela Grande/ Cinema, Sofia contou que não só filmou seu longa em película 35mm como também espera que as pessoas o vejam no cinema. “A gente rodou para ser visto na tela grande. É bom nos deixar se perder no filme, disse a cineasta.

Para terminar, ninguém questionou se Sofia espera levar a Palma de direção, o que é improvável mas não impossível. Ainda que, a diretora não tenha nem respondido a questao sobre o caráter feminista de seu filme, só o fato de, diferentemente do longa de Siegel, a história seja contada a partir do ponto de vista das mulheres, que fazem muito mais do que se sabotar na disputa pelo ‘estranho que amam’, já acrescenta um capítulo novo e arejado à história das historias sobre mulheres no cinema. Sofia, sempre discreta, foge da discussão, diz que é um filme para entreter e que “é um filme sobre a natureza da paixão.” Por isso, “há um preço alto a se pagar.”

No entanto, ao também querer apenas contar sua história, “que também fala de mulheres, em plena guerra, que não vão a nenhum lugar e estão presas em uma armadilha”, ela toma para si o direito de, como qualquer cineasta, seja homem ou mulher, querer apenas contar sua história. Sem obrigações, mas com a liberdade criativa pretendida. E nessa busca pela liberdade, já há, nas entrelinhas, muito da igualdade defendida por Nicole.

Se Sofia conseguiu, ou não, chegar ao ponto de excelência narrativa pretendido com O Estranho Que Nós Amamos, é discussão que vai ganhar força com a estreia do filme em circuito, dia 24 de agosto no Brasil. Mas sua presença, ao lado de Naomi Kawasaki e Lynne Ramsey, que concorrem também à Palma este ano com Hikari e You Were Never Really Here, é mais que necessária no maior festival de cinema do mundo.

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