Nossa Opinião

7.0
Os Satyros não procuram se enquadrar nas convenções do cinema, mas sim o contrário. Querem dialogar com a tela, sem perder a essência inquieta
Nota 7.0

No início da sessão que marcou a estreia em cartaz de Hipóteses Para o Amor e a Verdade, no Cine Caixa Belas Artes, o diretor Rodolfo Garcia Vásquez foi ao microfone e, com extrema humildade, ressaltou que se trata da primeira experiência cinematográfica dos Satyros, e que eles “ainda estão tentando entender como tudo isso funciona”.

Ivam Cabral, roteirista do longa e autor da peça que o originou, falou algo parecido no debate após a exibição: “É estranho apresentar algo que já está pronto”. Eles também já preparam a adaptação de outro espetáculo, Pessoas Perfeitas.

Como primeiro passo em direção a essa transição de linguagens, ambos podem respirar aliviados, com a certeza do dever cumprido. O filme tem o mérito de ser fiel ao espírito ousado da companhia e usar uma série de poderosas construções imagéticas que impactam o espectador, ora trágicas, ora cômicas. Muitas vezes as duas coisas.

Para quem assistir a Hipóteses Para o Amor e a Verdade sem saber do contexto, provavelmente será uma experiência estranha. Os Satyros não procuram se enquadrar nas convenções do cinema, mas sim o contrário. Querem dialogar com a tela, sem perder a essência inquieta.

Assim, quebras da quarta parede são constantes, muitas vezes na forma de monólogos. As atuações são quase sempre caracterizadas por um tom teatral, coerente com a narrativa. Elipses temporais compõem a trama fragmentada, não tanto em busca de um sentido, mas de uma sensação. São escolhas autênticas dentro da proposta, mais do que devaneios estilísticos.

O texto é baseado em depoimentos de frequentadores da praça Roosevelt, berço do grupo. Destas entrevistas, formou-se o mosaico de 11 personagens e dramas pessoais, que, juntos, revelam um retrato de uma São Paulo solitária, angustiada, envolvente e com humor bem peculiar.

É uma metrópole fascinante, mas também cruel. Em seus arranha-céus, pessoas invisíveis aos outros buscam intimidade, das formas mais desajeitadas. Pode ser na procura de alguém com quem compartilhar férias, num pedido de ajuda a um disque pizza ou na tentativa de aprisionar o objeto do nosso desejo – esta uma das sequências mais perturbadoras.

No momento em que a SP Cine, em seu primeiro ano de atividade, chega para fomentar o audiovisual no estado paulista, é interessante ver como dois dos primeiros filmes que contam com seu apoio na distribuição, (este e Obra, de Gregorio Graziosi) refletem sentimentos parecidos sobre a capital, ainda que os representem de formas tão distintas.

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