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‘Santo Forte’ mostra que série nacional pode ser original

Nossa Opinião

7.0
É uma grata surpresa que alguém tenha percebido que série para brasileiro não precisa ter fórmula de novela, com tudo mastigadinho
Nota 7.0

Para quem não se deslumbra com séries superestimadas feitas por brasileiros preocupados em repetir uma mesma fórmula americana, é reconfortante encontrar produções nacionais com premissas audaciosas, que sabem se apropriar do padrão exigido hoje no mercado e misturá-lo a elementos que as tornam inquestionavelmente brasileiras.

É o caso de Santo Forte, que tem como personagem central um taxista atormentado por uma interessante condição: quando seus passageiros vão lhe pagar a corrida, ele consegue, ao tocar o dinheiro, detectar seus dramas pessoais e tem a obrigação de ajudá-los a sair de qualquer perigo ou contratempo em que estejam metidos. Por quê? O tempo dirá. (Assista a um teaser do episódio 7, que aborda este assunto.)

Uma das histórias mais interessantes por trás de 'Santo Forte', da AXN Brasil, é da misteriosa relação entre João e…

Posted by TelaTela on Friday, October 9, 2015

No momento em que seus dedos tocam as cédulas que lhe são entregues, João tem uma visão sobre a pessoa no banco de trás. E aqui cabem muitas interpretações interessantes sobre o fato de ser pelo dinheiro que o sobrenatural se manifesta, revelando por via tão mundana tão elevado misticismo.
A primeira temporada de Santo Forte, com 13 episódios, é exibida aos domingos, às 21h, no canal AXN

Quando isso acontece, o taxista ruma para encontrar Celso (Thiago Justino), misto de médium e pai de santo que, em contato com entidades superiores, dá a eles as chaves para interpretar o que viu e conseguir concluir sua missão com aquela pessoa. João é o único que pode fazê-lo porque tem o corpo fechado: balas, facadas e socos não são capazes de feri-lo.

O que poderia ser apenas um dom sobrenatural genérico tem a ousadia de flertar com questões tão marcantes da vida, da religiosidade e do imaginário brasileiro. Alguns dirão que trata-se de uma forma de realismo fantástico. Não é para tanto.

Curiosamente, a concepção da série não é de um brasileiro, mas de Marc Bechar. “Desde o início percebi, como estrangeiro, a força desses elementos bem brasileiros. E trata-se de um País que não tem muita experiência em dramaturgia serial com procedimentos, o que pareceu interessante”, afirmou em encontro com jornalistas.

Eu sou do candomblé, mas a série não tem uma coisa fixa com nenhuma religião afrobrasileira justmente para manter uma certa liberdade. O João precisa representar cada um de nós brasileiros.
— Vinicius de Oliveira, ator
Em tempos de intolerância e preconceito, utilizar características de religiões afrobrasileiras para criar um super-herói suburbano e carioca ao menos parece apontar numa direção mais saudável da dramaturgia brasileira. É o tipo de risco que se precisa tomar com mais valentia em tudo que se coloca no ar.

É interessante notar que, do princípio, o conflito do taxista João com sua condição passa por um viés quase mundano, não fosse tão poderoso. Nesse sentido, é capaz de provocar empatia e evita a construção de um protagonista caricato ou bizarro — como foi, por exemplo, a sofrível Animal com Edson Celulari.

O mérito aqui é em grande parte do ator Vinicius de Oliveira, que consegue com desenvoltura segurar o tal “homem encurralado”. É verdade, porém, que, por mais que reclame de sua sina, João sempre persiste, resiliente, até solucionar o caso de cada episódio.

Dá até para pensar que se poderia prescindir de seu “corpo fechado” como elemento determinante de sua personalidade. Por outro lado, é justamente sua dinâmica com o pai de santo que faz com que Santo Forte não seja só mais um drama policial em episódios. “Muito do que move este personagem é o conflito entre a luta pela sobrevivência e a luta pela morte. O contraste, o medo. Receber esses poderes foi uma benção ou uma maldição?”, justifica Marc.

Desde o piloto, por outro lado, se estabelece um antagonismo entre João e o jornalista Fábio, que consegue surpreendentemente abandonar todas as suas pautas para se dedicar apenas à tentativa de desmascarar o segredo do protagonista. Guilherme Dellorto tem seu charme, mas em vários momentos parece que sua trama foi artificialmente incluída. Como se alguém quisesse ter certeza de que o público iria ter que torcer pelo “mocinho”, algo que poderia muito bem ser construído de outra forma.

Ao lado de Vinicius está também a atriz Laila Garin (a Elis do musical). É uma pena que seu talento se esconda num papel subdesenvolvido, que é “apenas” a mulher do protagonista e, como qualquer dona de casa de classe C de quase toda produção brasileira, vende cosméticos por catálogo.

Apesar de estar dentro de um gênero e ter uma certa narrativa procedural, dentro do perfil do canal, somos fãs de séries de personagens fortes, que precisam do desenvolvimento do protagonista. É uma série muito rica do ponto de vista do universo dele, e de como se apropria disso
— Roberto D’Ávila, produtor
O começo do arco da temporada agrada porque acerta a medida entre velar e revelar. Sem a preocupação rasa de que é preciso se apegar ao didatismo como única forma de formar público, a série confia na inteligência de quem está do outro lado da tela e vai solidamente construindo a base desses personagens.

Se é verdade que alguns episódios deixam a desejar com tramas irregulares, o conceito inovador como um todo precisa ser reconhecido. É uma grata surpresa que os roteiristas compreendam que fazer uma série para o público brasileiro não precisa depender necessariamente do esquema da novela, que traz tudo mastigadinho para que a audiência “não se perca”.

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