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“O que eu mais amo no cinema é quando eu entro, sento, apaga a luz e tudo vai começar. É uma sensação que desde criança e até hoje se mantém”, revelou a cineasta que nasceu no Rio, onde estudou  filosofia e comunicações na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC).

Sandra também contou que sua  formação se deu muito nos cineclubes que frequentou na adolescência, quando assistiu a muitas produções europeias, aos filmes do italiano Pier Paolo Pasolini. “Minha maior lembrança eram os filmes dele, que na época foram revolucionários. Eles tinham uma dualidade, como por exemplo Decameron, Os Contos de Canterbury, As Mil e Uma Noites. Tinham fábula, mas ao mesmo tempo algo iconoclasta, irônico, sarcástico. Havia muita descoberta, foi muito importante para minha formação cinematográfica”, relata a diretora, que nesta edição da Mostra apresenta seu novo longa, Campo Grande.

“Esta fase foi nos anos 80, quando o teatro estava mais em voga e o cinema muito enfraquecido. Mas eu gostava era de cinema e a tecnologia era mais de difícil acesso. Era muito difícil entrar no mundo do cinema”, relembra Sandra, que mesmo assim mantinha seu interesse na sétima arte, não só como espectadora mas também como leitora, pois era leitora fiel do crítico e teórico José Carlos Avellar, que escrevia para o Jornal do Brasil.

Cena de 'Contos de Canterbury', de Pier Paolo Pasolini
Cena de ‘Contos de Canterbury’, de Pier Paolo Pasolini

Antes do cinema, a videoarte – Para a diretora, “ainda que seja uma sala cheia de gente,  cinema é  uma experiência solitária.” Quando viaja, a primeira coisa que gosta de fazer é visitar o cinema da cidade. “É de novo algo solitário, que gosto de fazer em horários que não vai ninguém”, comenta a diretora do documentário  Um Passaporte Húngaro, seu primeiro longa, de 2001.

Antes de enveredar pelo cinema, Sandra trabalhou muito com videoarte e seu trabalho foi reconhecido em diversos festivais de vários países. “Voltando à experiência solitária do cinema, lembro que criei um projeto que se chamava vídeo-cabines, que eram umas caixas pretas em que as pessoas entravam e assistiam a vídeos. Na época eu achava que tinha a ver com o vídeo, mas hoje entendo que era cinema, em uma escala mais mambembe, mas traduzia a sensação que tenho quando vou ao cinema”, relembra. “Cinema é intimidade. Cinema é uma bolha, um lugar protegido, que fala do mundo, mas ao mesmo tempo está separado dele”, completa a diretora que estreou na ficção com Mutum (2007).

Entre os filmes que mais marcaram a cineasta, estão os que ela assistiu quando morou em Paris, onde foi cursar especialização em videoarte. “Lá, uma cidade muito cinéfila, em que sessões no domingo de manhã estão lotadas, vi muitos filmes. E vi trabalhos de cineastas que faziam coisas parecidas com o que eu sentia pelo cinema, com o fato de que a linguagem pode ser livre, que o ser humano, o rosto, é a grande paisagem de um filme”, explica a cineasta.

Vi muitos filmes de Jean Eustache, como Une Sale Histoire (Uma História Suja), Mes Petites Amoureuses (‘Minhas Namoradinhas’). “Ele mistura mistura muito ficção com sua própria história. E isso me faz pensar muito no cinema. A gente não faz um filme porque é legal, mas por necessidade, porque há uma urgência em contá-lo”, diz Sandra. “O Eustache era um cara que não se encaixava em nada, nem na  Nouvelle Vague. Era muito livre.”

Cena de 'Mes Petites Amoureuses', de Jean Eustache
Cena de ‘Mes Petites Amoureuses’, de Jean Eustache

O set como espaço de intimidade – Outro longa que marcou muito a diretora foi Nós Não Vamos Envelhecer Juntos (1972)  do Maurice Pialat, que trata  de uma separação. Ela citou também o  À nos amours (Aos nossos amores, de 1983). Robert Bresson também foi decisivo para a formação da cineasta.. “Ele trabalhou com não atores, com o essencial e alcançava a transcendência. Um filme crucial dele é Um Condenado à Morte Escapou, que em um trabalho de som genial, que diz muito, sugere e revela.”

Como diretora, Sandra conta que seus sets são sempre espaços de intimidades. “Sempre se diz que os atores tiram a roupa em um set, em um papel. Mas o diretor fica sem pele. Para você poder dirigir e levar os atores aonde quer levar, é preciso sentir e entrar no lugar de cada um deles. E estes diretores que formaram, que trabalharam muito assim, iam às últimas consequências com isso. Se olho seus personagens, eles não causam exatamente empatia, mas em nenhum minuto a gente sente que é texto, mas sim que tudo é natural e essencial”, analisa Sandra.

“O cinema é o lugar onde gosto de sugerir e não de mostrar. E sempre me interesso muito mais pelos personagens do que pela história em si. A história é uma consequência deles serem quem são. Eu não gosto de improviso, acho que dilui a tensão dramática de uma cena, mas também trabalho muito para que o texto que vai ser falado venha de uma necessidade, que sintam o que falam. E estes filmes que vi têm esta força, que tem a ver comigo.”

Para Sandra, os filmes que a formaram e os filmes que ela realiza são os que buscam a sensação de se procurar e encontrar no mundo. “Cinema é isso. Cinema é estar no mundo.”

'Mutum', primeiro longa de ficção de Sandra Kogut
‘Mutum’, primeiro longa de ficção de Sandra Kogut

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