Nossa Opinião

7.0
Apesar de incomodar quem possa ter interesse no contexto, não dá para negar que o longa funciona de forma eficiente, e suas quase duas horas correm em ritmo seguro.
Nota 7.0

O sucesso mundial de ‘Intocáveis‘ (que virou até peça em cartaz na cidade de São Paulo, com Aílton Graça e Marcello Airoldi) deu mais confiança aos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Isso têm consequências boas e más para seu novo filme, ‘Samba‘.

O ponto positivo é que a direção de cena dá um passo para frente, ainda que tímido, chegando por vezes a flertar com o cinema independente, dito “de arte”, principalmente nas cenas ambientadas na ONG. Lá, os imigrantes ilegais tentam regularizar sua situação e é feito um registro que busca se aproximar ao documental, de câmera na mão e constante movimento, refletindo o caos burocrático daquela pequena Babel de línguas, raças e sonhos. O recurso não chega a ser inovador, mas é sempre vê-lo bem usado também em obras feitas abertamente para o grande público.

Por outro lado, os elogios deixaram os autores à vontade para escolher o tema que quisessem para o próximo trabalho. Resolveram se apropriar de uma questão social relevante e amplamente discutida na Europa atual. A imigração clandestina é um problema conhecido no continente, mas o filme não faz questão nenhuma de discuti-lo mais profundamente. O roteiro, baseado em livro de Delphine Coulin, parece feito por alguém que leu por cima algo sobre o assunto e achou que seria uma boa forma de gerar empatia fácil colocar um personagem nessa situação.

Concebido como um palatável misto de drama e comédia, ‘Samba‘ toma a liberdade de ir se esquivando de qualquer conflito que seja mais espinhoso. Assim, dilemas éticos são sugeridos, mas tratados como se não tivessem lá muita importância: isso vale para a aproximação pessoal das funcionárias da ONG com os refugiados, a traição do protagonista a um amigo e, principalmente, a decisão que encaminha o desfecho do filme.

Apesar disso incomodar quem possa ter interesse no contexto, não dá para negar que o longa funciona de forma eficiente, e suas quase duas horas correm em ritmo seguro. A trinca de atores principais está muito bem encaixada, com um Omar Sy um pouco menos fanfarrão do que em ‘Intocáveis‘ e Tahar Rahim (‘O Profeta‘) como um adorável vigarista.

Ainda um degrau acima está a ótima Charlotte Gainsbourg (conhecida pelas parcerias recentes com Lars Von Trier). Sua Alice é essencialmente a estrangeira do filme, uma mulher que precisa aprender a viver outra realidade após uma crise nervosa. Indo de um extremo a outro com muita classe, a performance mostra porque ela está entre as grandes atrizes do momento no cinema mundial.

Para o público brasileiro, ainda existem atrativos extras. Além do nome, há diversas citações ao País e duas das cenas mais divertidas são embaladas por canções de Jorge Ben e Gilbeto Gil.

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