Hungria, Chile, França, uma coprodução Alemanha-Estônia-Finlândia, outra coprodução Bélgica-França-Luxemburgo. Estes são respectivamente, os países representados por O Filho de Saul, O Clube, Mustang, The Fencer e The Brand New Testament, os cinco indicados ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro 2016.

Quando o dia começou na quinta-feira 10 de dezembro, dia do anúncio oficial dos finalistas do prêmio concedido pela associação dos correspondentes estrangeiros de Hollywood, a expectativa era de que um brasileiro estivesse na lista acima.

Afinal, as críticas e os prêmios internacionais que Que Horas ela Volta? têm recebido levaram a se concluir que era  perfeitamente possível que o longa dirigido por Anna Muylaert estivesse entre os finalistas. Como bem disse a diretora ao TelaTela, e também publicou em sua página do Facebook, não entrou, mas “não estar na lista do Globo de Ouro não muda em nada a beleza do caminho que este filme já traçou.”

De fato. Que Horas Ela Volta? já recebeu diversos prêmios pelo mundo, incluindo os importantes de melhor atuação em Sundance para Regina Casé e Camila Márdila e o prêmio Panorama de melhor longa de ficção, concedido pelo público do Festival de Berlim.

Na fila – Mas também é fato que desde 2002 uma produção totalmente brasileira não entra na lista final de indicados da categoria no Globo de Ouro. E ainda que não se deva fazer filmes para ganhar prêmios e muito menos que prêmios signifiquem que tal ou tal filme seja melhor que outro, resta entre os que seguem as grandes premiações da indústria cinematográfica internacional um desejo de ver uma produção brasileira recente reconhecida.

Vale lembrar que em 2005, o representante brasileiro era Cidade de Deus que perdeu o prêmio para Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Em 2005, aliás, Diários de Motocicleta, de Walter Salles, concorreu a melhor filme estrangeiro, mas o longa é falado em espanhol e uma coprodução entre diversos países: Brasil, Argentina, Chile, Reino Unido, Alemanha, Peru, Estados Unidos e França.

Falar necessariamente a língua oficial do país em questão não é condição obrigatória para estar entre os finalistas do Globo de Ouro. O longa representante da França, aliás, Mustang, é falado em turco e fez sua première na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2015. É o único da lista dirigido por uma mulher, a turca Deniz Gamze Ergüven, e conta a história de cinco irmãs órfãs que vivem no norte da Turquia e tem de enfrentar o desafio de crescer em um universo religioso, conservador e machista. Não só pelo tema atualíssimo (lembrar de toda a batalha que começou com o discurso de Patricia Arquette no Oscar 2015 por direitos e salários iguais para as mulheres), mas pela forma leve e, ao mesmo tempo contundente, Mustang vem ganhando atenção internacional.

Crianças e adolescentes são protagonistas – Interessante observar como dos cinco finalistas, três trazem crianças e adolescentes entre seus protagonistas. O belga The Brand New Testament, de Jaco Van Dormael, que integrou a Semana dos Realizadores de Cannes, é uma fábula pós-moderna sobre Ea, uma menina de dez anos que vive em um apartamento em Bruxelas com seu pai e sua mãe. Acontece que seu pai é Deus. E Deus, na verdade é um sádico e sarcástico que manipula e maltrata a vida dos humanos. Ea se rebela contra o pai, envia mensagens de textos para todos da cidade com as datas de suas mortes e decide fugir de casa para criar um ‘Novíssimo Testamento’.

Mais denso que os dois concorrentes já citados, mas também com elenco infantil de peso é o representante da Estônia, The Fencer (O Esgrimista) narra a história de Endel Nelis, um jovem que chega à pequena cidade de Haapsalu, na Estônia, no início dos anos 1050, fugindo da polícia secreta de Leningrado (São Peterburgo), na Rússia. Ele começa a dar aula de esgrima na escolar local e se apaixona pelo ofício e pelas crianças, muitas órfãs da Segunda Guerra. Quando os alunos têm a chance de participar de um torneio em Leningrado, ele tem de escolher entre por sua segurança em risco ou levar o grupo adiante.

São três histórias humanistas, no sentido de que o fator humano e seus pequenos-grandes dramas ganham o centro da tela. Exatamente o que também é Que Horas Ela Volta? Anna, fez um filme para dialogar com o grande público brasileiro e tem consciência e muito orgulho disso. Dentro desta lógica de indicações da crítica estrangeira de Hollywood, o longa brasileiro não ter entrado parece mera contingência.

 Fazer-se notar em Hollywood – No entanto, há que se relembrar que na corrida pelas vagas de finalistas dos dois maiores prêmios da indústria cinematográfica americana, o Globo de Ouro e o Oscar, além de um filme de qualidade, é preciso uma campanha de ‘fazer o filme ser notado’ e , mais que isso, visto. Não por acaso filmes como O Filho de Saul, que já chega a Hollywood com o selo de Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, ter sessões constantes na ‘meca do cinemão’.

A Sony Classics, distribuidora do longa nos Estados Unidos, sabe que, além de ter um grande filme nas mãos, tem também um tema sensível aos membros da Academia. A propósito, ao lado do chileno O Clube, o longa húngaro forma a ala densa do hall dos estrangeiros do Globo de Ouro 2016.

Dirigido por Laslo Nemes, O Filho de Saul retrata a agonizante saga do judeu húngaro Saul. Ele é membro de um sonderkommando (grupos de trabalho formados por prisioneiros dos campos de concentração nazistas que eram obrigados a trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios, entre outras tarefas) e quer enterrar seu filho. Focado majoritariamente no rosto e nas ações do ator Géza Röhrig (Saul), o longa transmite com maestria a claustrofobia de se estar preso em um inferno real, em que a única saída é a morte e a dignidade de ser enterrado, um último alento.

Não por acaso, o filme vem sendo apontado como o ‘já ganhou’ do ano, tanto no Globo de Ouro, cuja cerimônia de entrega dos prêmios ocorre em 10 de janeiro, quanto no Oscar, que ocorre em 28 de fevereiro de 2016. O Clube, que fecha a lista, é dirigido por Pablo Larraín (indicado em 2013 por No. Não confundir com Pablo Trapero, diretor de O Clã, candidato da Argentina a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro) e retrata a vida de um grupo de religiosos católicos que vivem isolados, e exilados, em um vilarejo à beira-mar, afastados da Igreja por mau comportamento, que inclui pedofilia, tráfico de bebês, conivência com crimes cometidos pela Ditadura Militar… A direção crua e afiada de Larrain lhe rendeu o grande prêmio do júri no Festival de Berlim 2015.

Oscar 2015 – De volta à corrida ao Oscar, vale observar que, como também pontuou Anna Muylaert, nem sempre os indicados, e muito menos premiados, das duas competições coincidem. Mas mesmo as chances do longa brasileiro não sendo pequenas,  o filme também ficou de fora da lista dos nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro, cujos nomes foi divulgados em 17 dezembro (Leia box abaixo).

No entanto, como bem afirmou a diretora, o que já fica de legado é ela que ela fez “um filme brasileiro para o público brasileiro com a ideia de gerar reflexões importantes na nossa sociedade e acho que conseguimos.”

A corrida pelo Oscar

Apesar das expectativas, muito baseadas em função da ótima acolhida que Que Horas Ela Volta? tem recebido em festivais e pela crítica internacional, o filme de Anna Muylaert ficou de fora da lista dos nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2016. “É claro que teria sido ótimo colocar um filme brasileiro depois de tanto tempo. Mas, não fizemos “Que horas ela volta?” com esse objetivo e sim o fizemos para fomentar discussões dentro da sociedade brasileira (e acho que conseguimos). Além disso tivemos uma carreira internacional vitoriosa: estreamos em quase toda a Europa e América do Norte e agora rumamos para as estreias na Ásia”, declarou ao TelaTela a diretora, que receberá em 5 de janeiro o prêmio de um dos cinco melhores filmes estrangeiros do ano pelo National Board of Review e também concorre ao Prêmio Satellite, entidade formada por jornalistas americanos e estrangeiros. Quem entrou para a reta final da corrida foram o húngaro Filho de Saul (Hungria), O novíssimo testamento (Bélgica), O abraço da serpente (Colômbia), Labirinto de mentiras (Alemanha), Krigen (Guerra, Dinamarca), Mustang (ou Cinco Graças, da França), The Fencer (O esgrimista, da Finlândia), Viva (Irlanda) e Theeb (Jordânia). “Sei que entre os concorrentes há pelo menos 20 grandes filmes e apenas 5 vagas. Muitos ficaram e ficarão de fora e nós ficamos. Obrigada a todos pela torcida e sigamos em frente. E que nosso cinema brasileiro possa cada vez mais saber divertir o seu público com qualidade sem esquecer de trazer à tona discussões de ideias necessárias”, concluiu Anna, que já prepara novo longa, em fase de montagem.

Confira a lista completa dos indicados em cinema ao Globo de Ouro 2016:

Melhor Filme de Drama
Carol
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
O Quarto de Jack
Spotlight: Segredos Revelados

Melhor Filme de Comédia ou Musical
A Grande Aposta
Joy: O Nome do Sucesso
Perdido em Marte
A Espiã Que Sabia de Menos
Descompensada

Ator de Drama
Bryan Cranston – Trumbo
Leonardo DiCaprio – O Regresso
Michael Fassbender – Steve Jobs
Edide Redmayne – A Garota Dinamarquesa
Will Smith – Concussion

Atriz de Drama
Cate Blanchett – Carol
Brie Larson – O Quarto de Jack
Rooney Mara – Carol
Saoirse Ronan – Brooklyn
Alicia Vikander – A Garota Dinamarquesa

Atriz de Comédia ou Musical
Jennifer Lawrence – Joy
Melissa McCarthy – A Espiã Que Sabia de Menos
Amy Schumer – Descompensada
Maggie Smith – The Lady in the Van
Lily Tomlin – Grandma

Ator de Comédia ou Musical
Christian Bale – A Grande Aposta
Steve Carell – A Grande Aposta
Matt Damon – Perdido em Marte
Al Pacino – Danny Collins
Mark Ruffalo – Sentimentos Que Curam

Ator Coadjuvante
Paul Dano – Love & Mercy
Idris Elba – Beast of No Nation
Mark Rylance – Bridge of Spies
Michael Shannon – 99 Homes
Sylvester Stallone – Creed

Atriz Coadjuvante
Jane Fonda – Youth
Jennifer Jason Leigh – Os 8 Odiados
Helen Mirren – Trumbo
Alicia Vikander – Ex-Machina
Kate Winslet – Steve Jobs

Melhor Diretor
Todd Haines – Carol
Alejandro González Iñárritu – O Regresso
Tom McCarthy – Spotlight
George Miller – Mad Max: Estrada da Fúria
Ridley Scott – Perdido em Marte

Animação
Anomalisa
O Bom Dinossauro
Divertida Mente
Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme
Shaun, o Carneiro

Melhor Filme em Língua Estrangeira
The Brand New Testament
The Club
The Fencer
Mustang
Son of Saul

Melhor roteiro
Emma Donoghue – O Quarto de Jack
Tom McCarthy e Josh Singer – Spotlight: Segredos Revelados
Charles Randolph e Adam McKay – A Grande Aposta
Aaron Sorkin – Steve Jobs
Quentin Tarantino – Os 8 Odiados

Trilha Sonora
Carol
A Garota Dinamarquesa
Os 8 Odiados
Steve Jobs
O Regresso

Canção Original
Love Me Like You Do – Cinquenta Tons de Cinza (cantada por Ellie Goulding)
One Kind of Love – Love & Mercy (cantada por Brian Wilson)
See You Again  – Velozes e Furiosos 7 (cantada por Wiz Khalifa e Charlie Puth)
Simple Sound #3 – Youth (David Lang)
Writing’s On The Wall – 007 contra Spectre (cantada por Sam Smith)

 

 

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