No tempo do Velho Oeste, a população indígena foi dizimada para dar lugar à suposta soberania do homem branco. Um século e meio depois, com os índios praticamente já erradicados, é hora da população mais pobre dos Estados Unidos abrir espaço para que bancos e grandes corporações continuem lucrando, mesmo em tempos de crise.

Esta é apenas uma das leituras possíveis do surpreendente A Qualquer Custo. Muito mais do que uma atualização do gênero faroeste, o filme dirigido por David Mackenzie é uma polaroide de uma verdadeira nova terra de ninguém, representada pela paisagem árida e desértica do coração do Texas.

A corda no pescoço que enforca os “inimigos” do Estado, antes literal, agora é representada por dívidas bancárias, juros e prazos de vencimento. São estas as ameaças que os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) enfrentam.

O rancho que abriga a família está sob risco de ser tomado pelo banco. Sem dinheiro para evitar que isto aconteça, a dupla resolve dar o troco com uma série de assaltos. Detalhe: só roubam agências da instituição que está lhe cobrando, e só querem o suficiente para poder pagar a conta.

Indicações ao Oscar

Filme, ator coadjuvante (Jeff Bridges), roteiro original e edição.

É uma resposta discutível, mas compreensível. Assim como muitos acreditam que parte dos votos em Donald Trump indicam um dedo do meio apontado para a cara das instituições tradicionais, principalmente as financeiras (parceiras tradicionais dos Clinton), Toby e Tanner também estão no ponto de ruptura de um sistema que finge lhes dar a mão, apenas para apunhalar pelas costas em seguida.

Para acrescentar tensão ao roteiro brilhante escrito por Taylor Sheridan, aparecem os policiais vividos por Jeff Bridges e Gil Birmingham. O primeiro, prestes a se aposentar, é a personificação da “ordem, moral e dos bons costumes”, ainda que não dê refresco ao parceiro, obrigado a ouvir seus comentários preconceituosos.

Jogando com as noções pré-concebidas de “mocinhos e bandidos” tão marteladas pelos faroestes tradicionais, o longa subverte o gênero, ao mesmo tempo em que presta tributo às características do estilo, como a paisagem onde acontece o clímax e a trilha sonora ao mesmo tempo country e climática, composta por Nick Cave e Warren Ellis.

As perseguições e explosões que transformam A Qualquer Custo em uma obra vigorosa estão longe de serem gratuitas. Pelo contrário, simbolizam um barril de pólvora que os Estados Unidos se transformaram e do qual a saída pode passar por caminhos tão ambíguos quanto o desfecho do filme.

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