Cinema Falado é um projeto do Sesc que propõe exercícios cênicos, cursos, oficinas e debates, com o objetivo de se debruçar especificamente sobre a função da palavra na dramaturgia. O carro-chefe é um experimento que funde as linguagens do cinema e do teatro, com um filme projetado atrás do palco onde atores estão em cena. A primeira experiência, em julho, teve Letícia Sabatella numa releitura dirigida por Luiz Fernando Marques do clássico filme Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais.

Para a segunda incursão, que acontece nos dias 11, 12 e 13 de novembro no Sesc Pompéia, a direção ficou a cargo dos cineastas Caetano Gotardo (de curtas como Areia e do longa O que Se Move) e Marco Dutra (do recente O Silêncio do Céu e o ainda inédito As Boas Maneiras), dupla entrosada por anos de colaboração e que assumiu o desafio com gosto.

Aceito o convite, ambos começaram a levantar qual seria o material a ser explorado no projeto. Pensaram em comédias da Hollywood dos anos 30, musicais europeus, até que bateram o martelo que o condutor narrativo seria Bodas de Sangue (1981), obra do espanhol Carlos Saura baseada na peça homônima de Federico García Lorca, escrita em 1932.

O detalhe é que o filme de Saura é quase em sua totalidade o ensaio de um grupo de bailarinos flamencos, e não conta com diálogos. “A gente queria algo que na própria proposição já tivesse um jogo em que a questão da palavra fosse bem central”, explica Gotardo. “E acabamos pegando um filme que suprime a palavra e, de certa maneira, devolvemos a palavra ao filme”.

Ele e o parceiro são dois autores extremamente minuciosos em seu cinema, onde cada detalhe, da direção de arte aos enquadramentos e trilha sonora, funciona como uma engrenagem, assim como tudo aquilo que é dito em cena. A natureza da experiência, por outro lado, proporciona uma abordagem diferente, na qual as marcações são um pouco mais soltas. “É muito interessante a ideia de que o filme projetado ao fundo vai ser o mesmo, nas três apresentações, mas a experiência cênica certamente vai mudar em cada uma delas”, aponta Dutra.

Para encenar a trama, que, em linhas gerais, gira em torno de um casal cuja cerimônia matrimonial é interrompida pelo aparecimento de ex-amante da noiva, os diretores chamaram atores com quem costumam trabalhar: Andrea Marquee, Antonio Salvador, Clarissa Kiste, Malu Galli e Marat Descartes.

O processo foi de descoberta conjunta, com o texto de Lorca, na tradução de Cecília Meireles, servindo como guia. “A gente ficou muito impressionado quando colocou a mão na massa, à medida que íamos escolhendo trechos da peça original, e viu que a coisa funcionava de uma maneira fluida”, relata Clarissa, que interpreta a Noiva.

Além do recorte de fragmentos selecionados da obra original, o exercício cênico ainda conta com poemas de Lorca, um deles em versão que foi musicada por Paco Ibañez e é cantada por Andrea, em performance arrebatadora.

“O que eu acho legal é que o projeto não virou uma terceira coisa, mas sim duas que se complementam: a peça do Lorca e o filme”, diz Clarissa. Quem estiver presente no evento verá certamente algo único, e extremamente interessante.

Veja a programação completa do projeto Cinema Falado, que acontece durante o mês de novembro no Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93 – São Paulo)

Experimento cênico | Bodas de Sangue falado ao vivo
11, 12 e 13 de novembro, sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h
R$ 9,00 (trabalhador do comércio, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes); R$ 15,00 (estudante, servidor da escola pública, aposentado, pessoa com 60 anos ou mais, pessoa com deficiência); e R$ 30,00 (inteira).

Curso | “Literatura e Cinema – Um Diálogo Fecundo” com José Geraldo Couto
16 a 17 de novembro, quarta e quinta-feira das 19h às 21h30
Espaço Cênico
R$ 25,00 | R$ 12,50 | R$ 7,50

Oficina | “Roteiro de Adaptação Cinematográfica” – Com Sabina Anzuategui
18 a 19 de novembro, sexta-feira das 19h às 22h e sábado das 14h às 17h
Espaço Cênico
R$ 25,00 | R$ 12,50 | R$ 7,50

Sessão comentada | “Roteiro Adaptado no filme Hoje” – Com Denise Fraga, Fernando Bonassi e Tata Amaral e mediação de Marina Person
24 de novembro, quinta-feira às 20h30
Teatro
Grátis. Retirada de ingresso com uma hora de antecedência.

Comentários

comentários