Mais do que um reconhecimento à indústria cinematográfica, o Oscar sempre foi marcado pelo teor político. Não foram poucas as vezes em que filmes, diretores ou atores tidos por toda a crítica como merecedores em quesito artístico saíram da festa de mãos abanando, enquanto outros levaram a cobiçada estatueta para casa favorecidos pela mensagem que sua produção propunha (caso recente de 12 Anos de Escravidão), ou como justiça ao trabalho de uma carreira, mesmo que aquele momento específico não seja notadamente seu mais brilhante (Scorsese cansou de ser ignorado até ter um troféu para chamar de seu, que veio com Os Infiltrados).

Faz parte do jogo e todo mundo que analisa o Oscar sabe que funciona assim. Diante de tal cenário, é possível fazer uma previsão não tão arriscada para a próxima edição, marcada para 28 de fevereiro, mesmo faltando ainda seis meses para as indicações serem reveladas: o Oscar 2016 será marcado por uma forte presença de filmes protagonizados por ou sobre mulheres.

O timing para que o discurso feminista dê o tom no Teatro Dolby é bastante apropriado. O fato de a Academia não ter indicado uma mulher sequer entre as quinze vagas para indicados a roteiro e direção em 2015 pegou mal.

Além disso, uma legião de atrizes do primeiro time levantou a bandeira da causa no tapete vermelho, se recusando a falar sobre vestidos e estilistas para focarem no trabalho em seus filmes, que é afinal o motivo de estarem ali. Reese Witherspoon, Cate Blanchett e Julianne Moore foram algumas das que aderiram a campanha #AskHerMore (pergunte mais a ela).

Patricia Arquette, vencedora da categoria de atriz coadjuvante por Boyhood, fez um discurso de agradecimento inflamado. Ao dizer, em pleno palco e para uma audiência de milhões de pessoas, que “é o nosso momento de ter igualdade de direitos de uma vez por todas para as mulheres nos Estados Unidos”, foi fortemente aplaudida.

A tendência que tudo isso ainda ecoe no ano que vem é inevitável, e a Academia tem uma grande chance de mostrar que ouviu o recado. Basta olhar para a lista das estreias previstas para o final do ano nos EUA, chamada de “temporada de ouro”, quando os filmes entram em cartaz, muitas vezes primeiramente em circuito restrito, para se qualificar a tempo de entrar na lista, além de se manterem frescos na lembrança dos votantes e do público.

Pelo menos três produções já apontadas como grandes favoritas, mesmo antes de estrearem, caem como uma luva neste momento de debate sobre o papel das mulheres não apenas em Hollywood, mas no mundo todo.

Carol, de Todd Haynes (Longe do Paraíso) é uma delas. O longa foi elogiadíssimo em Cannes, onde levou o prêmio de melhor atriz para Rooney Mara e a Queer Palm, reconhecimento da comunidade LGBT local, que considerou esta “a primeira vez que uma história de amor entre duas mulheres foi tratada com respeito e o mesmo significado que qualquer outro grande romance do cinema ‘mainstream’”.

A presença de Cate Blanchett, que recentemente venceu o Oscar por Blue Jasmine e também fez um discurso politizado, pedindo mais bons papéis femininos, ajuda a impor respeito.

Outro que promete concorrer nas categorias principais é Joy: O Nome do Sucesso, de David O. Russell, que emplacou indicações em seus últimos três trabalhos, O Vencedor, O Lado Bom da Vida e Trapaça.

Famoso por sua falta de modéstia, o cineasta declarou à revista Empire que seu novo filme está “em algum lugar entre Cidadão Kane, O Poderoso Chefão e A Felicidade Não Se Compra”, simplesmente três dos maiores clássicos do cinema norte-americano. Só que agora há uma mulher como protagonista.

A escolhida foi uma parceira habitual de Russel e da Academia, Jennifer Lawrence. Ela vive a personagem título, peça-chave numa família matriarcal que quer formar uma dinastia no mundo dos negócios.

E quando o assunto é queridinha da Academia, ninguém bate Meryl Streep. A vencedora de três Oscars tem tudo para chegar a impressionante marca de vinte indicações, por Suffragette, longa britânico que retrata os primeiros anos do movimento feminista.

Streep vive a ativista Emmeline Pankhurst, ativista emblemática e fundamental para a conquista de diretos como o voto, na Londres pré-Primeira Guerra. Carrey Mulligan e Helena Bonham Carter também estão no elenco, e a assinatura é da até então pouco conhecida Sarah Gavron, aparentemente único nome não masculino com potencial no momento para estar no páreo de direção em 2016.

Freeheld, de Peter Sollet é outro título que pode aproveitar o ambiente sócio-político para cavar seu lugar. A trama foca na história real de um casal de mulheres (vividas por Julianne Moore e Ellen Page) lutando contra o preconceito, para que uma delas, sofrendo de câncer terminal, consiga passar os direitos de pensão à parceira.

Ainda não está tão cotado quanto as produções anteriores, mas com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos ainda fresco na memória, o filme, que estará no Festival de Toronto, tem tudo para fazer barulho.

Se a questão dos papéis fortes para mulheres parece ter sido de fato atendida entre estes prováveis concorrentes, atrás das câmeras o cenário não deve sofrer grandes alterações. Além dos já citados Todd Haynes e David O. Russell, surgem candidatos peso-pesado como Steven Spielberg, Quentin Tarantino, Oliver Stone, Danny Boyle e o atual campeão Alejandro González Iñarritú para disputar as cinco indicações a melhor diretor.

Mais abertas estão as vagas para roteiro original e adaptado, que podem ter como concorrentes Phyllis Nagy (que se baseou em romance de Patricia Highsmith para escrever Carol), Abi Morgan (Suffragete) e Annie Mumolo (que fez o argumento de Joy junto com Russell). Considerando que nenhuma roteirista esteve indicada nas categorias em 2015, seria uma bem-vinda mudança.

Aliás, já que estamos no assunto, não seria nada mal ver Ellen Degeneres voltando ao posto de mestre de cerimônias, depois da fria performance de Neil Patrick Harris. Fica a sugestão.

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