Nossa Opinião

9.0
A força de sua poderosa figura de linguagem é suficiente para sustentar este grande filme intimista, com poucos personagens e cenários.
Nota 9.0

Desfigurada, saída dos escombros e ainda tentando se reerguer. O sentimento que domina ‘Phoenix’, do alemão Christian Petzold, vale para sua personagem principal (Nelly, interpretada por Nina Hoss), para o ambiente onde a ação se passa (Berlim pós-nazismo) e para a comunidade retratada (judeus sobreviventes do holocausto).

A força dessa poderosa figura de linguagem é suficiente para sustentar este grande filme intimista, com poucos personagens e cenários. Petzold, também roteirista, já tem no currículo outras obras importantes, como ‘Barbara’, ‘Jerichow’ e ‘Yella’, todas com passagens destacadas em alguns dos principais festivais internacionais. Agora faz um trabalho ainda melhor.

Logo no começo, ajudada pela amiga Lene (Nina Kunzendorf), Nelly passa por uma cirurgia de reconstrução da face. Sua solicitação ao médico é clara: quer ficar o mais parecida possível com seu rosto original, mesmo que o procedimento, como sugere o doutor, lhe dê a oportunidade de assumir outra identidade.

Ela quer retornar de algum jeito aos dias felizes que antecederam o campo de concentração, quando era cantora de cabaré ao lado do marido Johnny (Ronald Zehrfeld), pianista. Por isso, sua obstinação em encontrá-lo, mesmo com a suspeita de que tenha sido ele quem a entregou aos nazistas, algo que prefere não acreditar.

Quando o reencontro acontece, no final do primeiro ato, começa o jogo mais complexo e cruel de ‘Phoenix’. Johhny não a reconhece, mas acha-a parecida o suficiente com a mulher – que julga morta – para ajudá-la num golpe que pode render a ele um bom dinheiro de indenização. Nelly é então condenada a interpretar ela mesma. Ou melhor, uma versão levemente distorcida, a Nelly que Johnny tem na memória.

É deste clima de suspense e da relação entre identidades embaralhadas que surgiram as comparações da crítica internacional com Hitchcok, especialmente ‘Vertigo – Um Corpo Que Cai’. Vem à cabeça também ‘A Pele que Habito’, de Pedro Almodóvar.

Trafegando entre o trauma e a gradativa perda de qualquer traço de inocência que lhe restava, Nelly é a própria figura do mundo depois do terror da Segunda Guerra. Nada mais seria como antes, e quando ela se dá conta disso vem uma belíssima cena final, das melhores do cinema nos últimos anos.

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