Mais do que um filme, Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós é uma experiência sensorial e radical. No lugar de uma narrativa tradicional, entra um trabalho que aposta alto em simbolismos e no poder das imagens e sons, abertas às mais diversas interpretações, muitas delas difíceis até de serem racionalizadas e colocadas em palavras.

O longa do cineasta cearense Petrus Cariry chega ao circuito, estreando primeiro em Fortaleza, Recife, João Pessoa, São Luís, São José de Ribamar, Aracajú, Goiânia e Rio de Janeiro, depois de passagem importante por festivais no Brasil e no mundo (da América Latina à Índia, passando pelo Leste Europeu). É o encerramento de sua Trilogia da Morte, iniciada com O Grão (2007) e Mãe e Filha (2011).

Na trama, Clarisse (Sabrina Greve) vai ao casarão no interior, onde mora seu pai (Everaldo Ponte), já moribundo. Há um incômodo palpável na relação, colocado em palavras de forma pontual, a maioria das vezes como troca de farpas. O pai, representante de uma certa oligarquia nordestina já decadente, reprova o desapego da filha às questões materiais.

É neste cenário entre a morte iminente do pai e as belezas naturais da paisagem que Clarisse revisita as memórias da infância, marcada pela perda da mãe e do irmão. Cariry aproveita este pano de fundo para construir uma atmosfera tensa e sombria, ao mesmo tempo lindamente fotografada, aproveitando ao máximo os planos abertos que compõem sua linguagem.

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós termina com uma explosão de sangue, uma cena impactante e que certamente não sairá da memória de quem assistir. O sangue jorrado na tela, porém, não significa apenas a morte, mas uma catarse, um renascimento. Ou qualquer coisa que o espectador sentir e interpretar. “Cinema se completa também no outro”, define o diretor.

Na semana de estreia do filme, Petrus Cariry conversou por e-mail com o TelaTela:

TelaTela – Em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois) tudo é muito controlado, dos enquadramentos às interações entre os atores, e ao mesmo tempo tudo é muito intenso. Como foi o processo para atingir este equilíbrio?

Petrus Cariry – Eu sempre fiz questão de manter um certo controle sobre a construção estética e narrativa dos filmes que realizo. Desde o meu primeiro longa, O Grão (2007), tenho dado uma atenção especial ao poder do plano e suas implicações no sentido fílmico. O que aconteceu durante esses anos foi uma espécie de depuramento da sensorialidade dos filmes. Em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, além de fazer um estudo sobre a fotografia do filme e qual seria o seu peso na narrativa proposta, eu estudei intensamente a questão da banda sonora do filme.

Fiz várias experiências sensoriais em conjunto com Érico Paiva (Sapão), na mixagem e desenho sonoro, em busca de contar uma história através dos sons e ruídos. A questão do silêncio do filme foi uma descoberta do próprio processo de roteirização e filmagem. O trabalho com elenco (Sabrina Greve, Everaldo Pontes e Veronica Cavalcanti) durou cerca de um mês, fizemos estudos de mesa para alcançarmos juntos a intensidade de cada gesto e potencializarmos para o filme, foi um processo intenso e realmente eu agradeço a entrega da Sabrina Greve (Clarisse), que fez cenas bem complicadas emocionalmente e com muita vontade.

O filme guarda algumas semelhanças com o gênero terror, principalmente pela quantidade de sangue em cena. Porém, a maneira com que este sangue é utilizada não significa apenas a morte, mas também uma espécie de renascimento. Como foi ressignificar símbolos tão fortes como este?

Eu sabia, desde o início do processo da feitura do roteiro, que o filme flertaria com cinema de gênero, que eu gosto bastante. Tenho um interesse pela linguagem e pelos códigos desse cinema. O filme A Mosca (1986), do genial David Cronenberg, por exemplo, eu acho um dos mais belos filme de amor já produzidos. Eu creio ser interessante trabalhar a questão do filme de gênero, para usar e subverter quando preciso alguns códigos. Existe uma parcela da crítica que ignora esse tipo de cinema, o que eu acho um baita equívoco.

No caso da última sequência de Clarisse…, onde existe uma quantidade muito grande de sangue, eu realmente acho uma das cenas mais belas e oníricas. O sangue representa a renovação, o expurgo do mal, o início de um novo começo, é preciso encerrar um ciclo para seguir em frente.

Por ser uma experiência extremamente sensorial e fora dos padrões tradicionais, o filme está aberto às mais diversas interpretações e reações. Algumas das respostas do público durante as exibições ou nos debates posteriores te surpreenderam?

Clarisse… trabalha muito com a suspensão do tempo e com o acúmulo de tensões, gerando um filme do qual o público sai, no final da sessão, em forte estado de tensão. A resposta do público é de assombro e encantamento. No último debate pós-filme, o público começou a criar uma narrativa própria com o que foi visto na tela e criou suas próprias conexões. Isso me deixou muito feliz, porque cinema se completa também no outro.

Depois de uma carreira longa e com prêmios importantes em diversos festivais pelo mundo, o filme chega agora ao circuito comercial, lutando pelo espaço minúsculo dedicado ao cinema de autor. Existe alguma angústia ou frustração neste processo de lançamento?

Para o circuito de cinema independente, com um conteúdo mais complexo e experimentação de linguagem, é muito difícil entrar no circuito comercial e se manter na próxima semana em cartaz. Esse tipo de cinema é tido como muito difícil pelas distribuidoras maiores. As distribuidoras que se interessam por filmes de arte são pequenas e não têm os recursos necessários.

É uma pena, pois estes filmes têm muito o que dizer, mesmo para um público mais amplo, que não seja apenas cinéfilos. Tenho certeza que as pessoas que forem no cinema e se dispuserem a embarcar na experiência sensorial e visual de Clarisse… vão ter uma verdadeira experiência de cinema, levando o filme consigo. Na verdade, eu penso muito mais na longevidade dos filmes e como ele toca as pessoas.

O filme toca num declínio moral dos valores capitalistas, representado pela figura do pai. Diante do momento político e social em que o mundo se encontra hoje, e especialmente o Brasil, qual é o papel do cinema?

Hoje percebo claramente um clima de grande insatisfação, de desesperança, no meio da crise moral e política que se abate sobre o Brasil. Neste momento de sombras e desencanto, com certeza novas luzes serão acesas e a esperança no futuro será restabelecida. Acredito que não podemos viver sem esperança. Atualmente, o cinema autoral brasileiro vive uma boa fase, o cineasta precisa se arriscar mais para buscar uma verdade pessoal e que possa ser compartilhada, que leve o público a uma reflexão.

Encerrada a Trilogia da Morte, quais são seus próximos projetos? Quais elementos destes filmes você pretende continuar trazendo nos seguintes?

Estou em processo de montagem de um filme chamado O Barco, filmado na Praia das fontes, Ceará. O filme conta a estória de uma pequena família de pescadores lideradas por Esmerina e Pedro. Esmerina tem 26 filhos, o nome de cada um dos filhos correspondem a uma letra do alfabeto. O filho mais velho “Letra A” (Rômulo Braga) deseja conhecer o mundo e fugir daquela comunidade. A mãe Esmerina decifra o futuro lendo os filhos, a partir da chegada de um misterioso barco e de uma mulher (Ana) que sobrevive a um naufrágio e chega pelo mar. O destino dessa família será drasticamente alterado.

O filme será um drama com tintas do cinema fantástico, acho que deve manter alguns elementos de Clarisse…, porém será um filme mais solar. O elenco principal é composto por Everaldo Pontes, Rômulo Braga, Veronica Cavalcanti, Nanego Lira e Samia de Lavor.

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