selomostra39Para o diretor, produtor, roteirista e montador Paulo Sacramento, o maior cineasta vivo é o alemão Werner Herzog. “Não canso de ver seus filmes. Ele me balançou desde sempre. Teria ao mínimo dez filmes dele para citar, que são impecáveis. Nunca vi um filme ruim dele. E já vi uns 30 filmes dele. Ele vai fundo e se coloca pessoalmente em suas produções”, comentou o cineasta em sua participação no ciclo Memórias do Cinema, na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sacramento destacou um filme pouco conhecido de Herzog e ressaltou que a questão da metragem no cinema não é o que mais importa quando o assunto é a qualidade de uma produção. “Há filmes curtíssimos que são incríveis, são como os perfumes dos frascos pequenos, que dizem que são os melhores”, observou.

O média-metragem do diretor alemão escolhido pelo diretor brasileiro foi Lições da Escuridão (Lektionen in Finsternis, de 1992). “É um documentário poético absurdo. Sou incapaz de fazer uma sinopse. Mas é sobre uma situação em que há um incêndio em um campo de petróleo. Está tudo queimando, aquele fogo negro e um exército de pessoas tentando apagar aquilo com mangueiras”, relata Sacramento.

E o diretor acrescentou: “Há um texto estranho, uma música hipnótica… Até que as pessoas conseguem apagar o fogo. Só que aí alguém joga um coquetel molotov e a sensação é de que vai recomeçar tudo. E a luta, ou a mágica continua. É isso que me faz ainda pensar tanto neste filme.”

 

As lições de Werner Herzog

Sacramento conta que este foi o filme que mais contou e falou sobre na vida, mas um dos que menos viu, justamente porque foi exibido no Brasil apenas uma vez e, mais recentemente, durante o Festival É Tudo Verdade, em uma homenagem a Herzog, “Contei e falei tanto dele para as pessoas que mudei um pouco ele, fui recriando ao longo de 15 anos. E quando o revi no É Tudo Verdade, era diferente do filme que eu contava. E acho que o filme que conto para vocês é o que está na minha cabeça”, brincou o cineasta, que ganhou reconhecimento nacional quando dirigiu, em 2003, o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro.

“Este filme me impressionou tanto que meu próximo filme, que rodo em fevereiro, vai ser filmado em uma plataforma de petróleo. Estou há cinco anos tentando fazê-lo e com certeza o Herzog tem uma parcela de culpa enorme nisso”, revelou o diretor, que em 2014 lançou seu segundo longa, Riocorrente,

O contato com o cinema de Herzog e de outros mestres alemães se deu principalmente ao movimento dos cineclubes paulistanos, que, todo ano, recebiam do Instituto Goethe, levas de filmes contemporâneos do país. “Todo ano os cineclubes, que vivam sem dinheiro para adquirir cópias, recebiam este presente do Goethe e passavam tudo. Vi muitos filmes do Wim Wenders, Herzog, Rainer Werner Fassbinder.”

 

‘Ondas do Destino’, obra revolucionária de Lars Von Trier

O cineasta também ressaltou uma pequena, mas importante, lista dos filmes que marcaram sua formação com o cinéfilo e que provocaram nele a vontade de se tornar cineasta.

Ondas do Destino, de Lars Von Trier é outra obra que Sacramento considera obrigatória. “É de uma maestria, coragem única, uma colocação pessoal que ele tem em seus filmes que pouquíssimas pessoas têm. Foi um filme que mudou a linguagem de maneira radical. Ele não queria continuidade, nem de som, nem de planos, nem de som. Nunca vi um filme ‘tão porco e tão maravilhoso’. Fiquei abismado”, analisou ele.

“A gente não precisa de nada disso que a gente faz tecnicamente. Como montador, pois editos muitos filmes que não são dirigidos por mim, eu busco o ‘take exato’ da mão para dar o corte da cena seguinte, por exemplo. Mas isso pode ser puro fetiche. Lars provou que a gente melhora os filmes não por meio da continuidade, mas se a gente tem o ouro na mão, uma boa história, isso não é crucial”, declarou Sacramento, que montou longas como Amarelo Manga (2002), de Cláudio Assis, Encarnação do Demônio (2007), de José Mojica Marins, e É Proibido Fumar (2009), de Anna Muylaert.

Ao mesmo tempo, o diretor e montador considera o cuidado técnico necessário, “pois não é todo dia que surge um Von Trier, um gênio.”

 

A genialidade de Michael Haneke

O último filme escolhido por Sacramento foi de Michael Haneke. “Eu queria falar de Caché (2005), que é um longa dele que todos veem e adoram. Mas minha vontade era de falar de um filme menos conhecido, que vejo mais e tenho vontade de comentar: Código Desconhecido (2000)”

Sacramento considera que este seja um dos filmes mais fundamentais do cineasta austríaco. “É outro filme que eu não sei contar, não sei falar sobre o que é. Aqueles surdos-mudos, apresentando-se para outros surdos-mudos. E ninguém entende nada. Nem eles e nem a gente”, comentou o cineasta.

“E não adianta tentar entender também porque não é isso. O filme é sobre a incompreensão do mundo, a distância que temos sobre qualquer respostas. A nossa arrogância de entender de que não vamos chegar ao essencial, a alguma compreensão”, analisou o diretor, para quem Haneke é capaz de tocar em grandes temas, assim como Stanley Kubrick, temas que até hoje ocorrem no mundo, como guerras, migração, poder, relacionamentos.

“Por mais que a gente faça milhares de filmes, palestras, mostras, a gente gira eternamente em falso. Mas talvez este seja o prazer de ver cinema, de descobrir, pensar, de forma aberta, rica, sem preconceito.”

“Adoro os filmes que me provocam espanto diante da vida.”

Para Sacramento, todos os filmes que citou brevemente sobre sua formação falam do que ele encontrou em Código Desconhecido. “São filmes sobre o mistério, sobre o inatingível, todos fazem esta pergunta sem resposta que temos. Esta incapacidade humana de atingir esta compreensão e superar estas questões sobre a racionalidade”, revelou o cineasta.

“A gente não vai conhecer nossa essência. Estes filmes trazem para mim algo que é muito rico, e que eu busco, e que é cada vez mais raro, que está ao alcance das mãos e a gente encontra no cinema, nas artes, em lugares em que muitas vezes não espera, que é o espanto. Adoro filmes que me provocam o espanto em estado bruto diante da vida. A gente conta nos dedos de uma mão. Não o que fazem isso com a gente uma vez, mas que continuam provocando isso.”

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