selomostra39Mesmo tendo vencido sete Candangos em Brasília, em setembro, ficou o gosto amargo de que Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba poderia ter levado também o principal, que acabou nas mãos de Big Jato, de Cláudio Assis.

Ficou “apenas” com os troféus de diretor (Aly Muritiba), ator coadjuvante (Lourinelson Vladmir), atriz coadjuvante (Giuly Biancato), fotografia (Pablo Baião), direção de arte (Monica Palazzo) e montagem (João Menna Barreto), além do prêmio ABRACCINE, dado pela crítica.

Uma coisa é certa: trata-se de um suspense que vai surpreender muita gente. Estrelado por Fernando Alves Pinto, que divide o primeiro nome também com seu personagem, o filme conta a história de um homem que acaba de ficar viúvo e, enquanto cuida do filho pequeno, se ocupa também de cuidar das coisas da mulher. Está ainda perdido, sem saber muito o que fazer com elas.

Enquanto mexe nos objetos, encontra uma coleção de fitas em VHS. No meio destas, descobre gravações de uma aventura sexual com um sujeito que ele desconhece. Quando aquilo aconteceu? Não sabe.

Transtornado, ele vai atrás do cidadão e chega a alugar um quarto nos fundos de sua casa, sem nunca revelar suas verdadeiras intenções. O público nunca tem certeza de quais são elas, talvez até porque nem o personagem tenha esta clareza, diante dos sucessivos traumas. O filme joga com isso, deixando abertas uma série de lacunas e sugestões.

Movido pela obsessão, Fernando estuda o ambiente e todas as alternativas: vai cobrar explicações? Vai se vingar? Se for, de que forma: matando aquele “inimigo”, seduzindo sua esposa e/ou a filha adolescente ou contando a verdade e destruindo a família? O roteiro de Muritiba (consagrado curta-metragista, que agora faz seu primeiro longa de ficção) coloca as possibilidades na mesa e na cabeça do espectador.

Com todas essas ameaças pairando no ar, cada plano é um teste psicológico de alta tensão – não pelo caminho fácil de uma cena de perseguição ao som de uma trilha bate-estaca, mas como uma partida de xadrez. São vários os momentos em que Fernando parece prestes a tomar uma atitude mais drástica, como quando pega uma pá e encara seu antagonista, ou quando parece cogitar jogá-lo do telhado, por exemplo.

A beleza de Para Minha Amada Morta é acompanhar este estudo de personagem, e ver como o filme está sempre disposto a quebrar a expectativa do olhar viciado de quem acompanha filmes do gênero.

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Nossa Opinião

9.0
Cada plano é um teste psicológico de alta tensão – não pelo caminho fácil de uma cena de perseguição ao som de uma trilha bate-estaca, mas como uma partida no tabuleiro
Nota 9.0