Prometido desde a abertura da Spcine, há catorze meses, o circuito popular de cinema proposto pelo órgão responsável por fomentar a cadeia audiovisual na capital paulista começa a tomar forma. Na última quarta 30 foram inauguradas as duas primeiras salas, nos CEUs Meninos e Butantã, ambas com sessões lotadas por um público que ia desde realizadores a moradores da região, predominantemente jovens e crianças.

O evento no CEU Butantã contou com a presença do prefeito Fernando Haddad, do ministro da cultura Juca Ferreira, dos secretários municipais Nabil Bonduki e Gabriel Chalita, além do diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel. Todos fizeram discursos inflamados, seguindo o mesmo tom: reforçar a importância da cultura cinematográfica e sua diversidade numa sociedade democrática.

 

Arte pela Democracia

A solenidade aconteceu poucas horas depois de um ato organizado pelos profissionais de teatro e cinema e de diversas artes de São Paulo na Avenida Paulista, em defesa da democracia, cada vez mais ameaçada pelo cenário político formado no País.

Entre os presentes estavam Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine, cineastas como Anna Muylaert, Tata Amaral, Daniel Ribeiro, Toni Venturi, os produtores Diana Almeida e André Montenegro, e o ator Francisco Gaspar.

“A gente tem que botar a cara e dizer: A gente votou. E mesmo quem votou, pela Dilma ou mesmo contra a Dilma, precisa ter o nosso voto respeitado. Se um grupo econômico e político tem interesse em tirá-la, eles vão ter que esperar dois anos e eleger outro candidato. Sem começar do meio criando ficção, mentira, fazendo ações inconstitucionais”, declarou Anna Muylaert, em discurso no Vão do Masp.

“Na época do Collor, o mesmo grupo que colocou o presidente tirou o presidente. Agora não. Quem colocou a presidente não é o grupo que está querendo tirar. A gente tem que mostrar a cara para que isso não aconteça. Eu tenho certeza que isso não vai acontecer. Porque se for assim, sem legitimidade, ninguém que suba vai ter legitimidade. Para todo mundo, quem é contra ou a favor do governo que está aí, a melhor coisa é que a gente mantenha o respeito à legitimidade do voto.”

O ato terminou com a bandeira no vão do Masp, dobrada por todos os coletivos culturais e grupos de teatro e do cinema.

A cineasta Anna Muylaert e o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, em ato na Paulista, realizado no mesmo dia
Anna Muylaert, Manoel Rangel (ao microfone) e os produtores Diana Almeida e André Montenegro, em ato na Paulista.

O clima de euforia também marcou a apresentação de Alfredo Manevy, diretor-presidente da Spcine, que declarou que nos próximos meses mais 18 salas como estas virão por aí. Todas estarão em bairros da periferia, predominantemente nos CEUs (Centro Educacional Unificado), e contarão com programação variada, que trará filmes nacionais, produções infantis e blockbusters internacionais, a preços populares ou gratuitos.

Importante dizer também que estas 20 novas salas farão parte do circuito oficial da Ancine. Ou seja, seus números de público entrarão na conta e ajudarão a impulsionar a bilheteria das produções nacionais.

Sala cheia para exibição de 'Mundo Cão'
Sala cheia para exibição de ‘Mundo Cão’

Segundo dados oficiais, 30% dos paulistanos nunca estiveram num cinema. O número é surpreendente para quem está habituado a frequentar as mais de 300 salas existentes na cidade, mas expõe um problema que a Spcine quer sanar. Se muita gente deixava de ir ver um filme na tela grande porque o cinema é longe ou o ingresso é caro demais, está aparecendo uma alternativa, e com equipamentos de áudio e imagem de última geração, que não devem nada aos shopping centers.

“A experiência de assistir a um filme na companhia de outras pessoas, em uma sala lotada, é socialmente enriquecedora”, disse o ministro Juca Ferreira. A frase foi comprovada na sequência, com a exibição de Mundo Cão, longa de Marcos Jorge estrelado por Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Babu Santana e pelo garoto Vini Carvalho – os dois últimos também presentes na sessão, assim como o diretor.

Durante toda a projeção do filme, em parte rodado ali mesmo na região, a plateia respondeu com entusiasmo. Cada reviravolta do thriller era saudada com risos, interjeições de espanto ou aplausos.

Só a título de comparação, uma nota pessoal: havia assistido originalmente Mundo Cão numa sala de cinema onde estavam apenas cinco outras pessoas, num domingo à tarde, todas em silêncio absoluto. Dá para dizer que, no caso deste filme em particular, a reação do público deu outro sabor. Foi como se o longa ganhasse mais vida. É este tipo de experiência que, a partir de agora, mais gente vai poder vivenciar.

Comentários

comentários