Prólogo: Não é exagero afirmar que um dos meus festivais preferidos do chamado ‘Circuito Classe A de Festivais’ é o Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. Todos os anos, no mês de agosto, a cidade do sul do país recebe os cineastas mais ousados do mundo todo para exibir o melhor do cinema de autor, e também nomes consagrados, como Mia Farrow, Melanie Griffith, Agnès Varda e Alexander Sokurov, que, diferentemente de festivais mais badalados, dificilmente teriam tempo e disposição para conversar com a imprensa.

Mas em Locarno, onde o tempo parece parar para o cinema passar, eles têm tempo para tomar um vinho branco na beira do lago e conversar sobre filmes e sobre a vida. É esse tempo e sua diversidade que fazem do cinema suíço, cuja produção anual chega a impressionantes 250 filmes, digno de merecer mais atenção do público brasileiro.

Por falar em espectador, até ele na Suíça surpreende. O documentário, por exemplo, é um gênero tão consagrado do espectador suíço, que os filmes do gênero chegam a levar tantos ou mais espectadores às salas quanto as ficções.

Tapete Vermelho
Tapete Vermelho

O Panorama 2015 traz uma ótima amostra, com longas como ‘Guerreiro Tibetano‘, ‘Eu sou Femen’, ‘Eletroboy‘ e ‘Pepe Mujica – Lições do Canteiro de Flores‘.

Até mesmo ‘Tapete Vermelho‘, o filme que abriu a mostra (na quarta, dia 17) e que tem sessão-debate na quinta, dia 18, às 18h no CCBB, com a presença dos diretores Fred Baillif e Kantarama Gahigiri, há muito de documental. O longa é uma ficção sobre jovens da periferia da cidade de Lausanne, que sonham em dirigir um filme e o apresentar no Festival de Cannes.

Ao revelar os sonhos e percalços destes jovens, todos ou descendentes de imigrantes africanos ou muçulmanos, com toda carga cultural e social que isso traz, ‘Tapete Vermelho‘ também diz muito sobre a Europa de hoje. E mais, sobre o mundo de hoje, em que a questão da globalização e da imigração é assunto de todos os países.

É esta pluralidade que caracteriza o cinema suíço. E é esta janela para o mundo que se abre até 29 de junho no CineSesc e no CCBB (Rua Augusta, 2075 e Rua Álvares Penteado, 11, respectivamente). Mais informações e programação completa no site do Sesc.

O Cinema Suíço – Breve História e Futuro Promissor

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Pepe Mujica – Lições do Canteiro de Flores

Quando o assunto é o cinema suíço contemporâneo, podemos pensar em quase tudo. Do perfil de um dos mais emblemáticos presidentes que a América Latina já teve, passando pelo drama dos imigrantes ilegais mexicanos na fronteira norte-americana, pela luta de uma ativista ucraniana pelos direitos das mulheres. Podemos ainda pensar em um grupo de adolescentes da periferia de Lausanne que sonham em fazer um filme e ir ao Festival de Cannes. Ou até mesmo em um músico tibetano que marcha em protesto pela liberdade de seu país. Há tudo isso e mais no cinema suíço. Só não há filmes que confirmam o antigo clichê do país bucólico, berço do chocolate e do fondue. Complexa e multifacetada, a realidade Suíça vai muito além; e sua safra mais recente de filmes é prova de um país que lida dia a dia com as principais questões da sociedade atual.

É esta produção diversa que aporta em São Paulo com a chegada do 5º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo 2015. A mostra traz, em seus 17 longas-metragens, tanto novíssimos temas, que são contemplados em diversas coproduções com países do mundo todo, quanto questões já clássicas da cinematografia helvética, como a busca de identidade e das raízes culturais e sociais.

Muito por sua história e sua localização geográfica, a Suíça, multicultural e multifacetada, revela em seu cinema não só um olhar que mira o mundo, mas também que abriga o mundo em seu território. Basta caminhar um pouco pela linha do tempo e lembrar que o hoje clássico ‘Matlosa‘(1981), de Villi Hermann, marcou época ao tratar da busca de um funcionário de uma grande empresa por suas raízes campesinas. Ao tentar reconstruir sua infância, o protagonista Alfredo procura por suas origens e pela figura do pai.

É a busca, e a perda, da identidade que também permeia o seminal ‘Siamo Italiani‘ (Somos Italianos), que Alexander J. Seller, June Kovach e Rob Gnant realizaram em 1964. Enquanto o mundo borbulhava com a Nouvelle Vague e o Brasil vivia o Cinema Novo, o longa consagrou uma escola de documentários prolífica, que bebe na fonte do Cinema Direto americano, em que a realidade é retratada por diretores atentos, que buscam interferir pouco ou quase nada no cenário retratado.

Ao tratar com franqueza da questão social que envolveu a imigração de mais de 500 mil operários italianos para as fábricas suíças, o cinema helvético fincou os pés nas questões de seu tempo e extrapolou suas fronteiras. Não é por acaso que o documentário é gênero de grande apelo popular entre o público suíço, que prestigia o cinema do real tanto quanto a ficção. E não é por acaso também que um dos maiores festivais dedicados ao gênero no mundo ocorre todo ano em Nyon (ao nordeste de Genebra): o Visions du Réel, que todo mês de abril leva à cidade o melhor da cinematografia do real internacional. O espírito revolucionário de seus criadores, que, em 1969, quiseram mudar o mundo com o cinema, prevalece até hoje e influencia cineastas em todos os continentes.

Por tudo isso, ir além dos confins demarcados é tradição no país. Ao abrigar tantas culturas distintas, exibindo em cada um de seus cantões traços próprios, a Suíça sempre produziu um cinema de portas e janelas abertas para o mundo. E este traço nunca foi tão forte. As coproduções atuais são numerosas e bem sucedidas. Prova disso é a presença suíça na seleção do Festival de Cannes 2015. O país levou à Croisette dois curtas-metragens e seis longas. Estes últimos, todos coproduções com países como Itália (‘Youth‘, de Paolo Sorrentino, em parceria com a C-Films de Anne Walser), França (‘Amnesia‘, de Barbet Schroeder, produzido por Ruth Waldburger, da Vega Film). Ainda com a França, o novo longa de Philippe Garrel, ‘In The Shadow of Women‘, coproduzido por Joëlle Bertossa (Close Up Films) abriu a Quinzena dos Realizadores.

Na mesma mostra paralela, a suíça foi representada pelo novo filme do premiado diretor português Miguel Gomes: ‘Arabian Nights‘, coproduzido por Elena Tatti e Elodie Brunner (Box Productions). Já com a Espanha, a atração foi ‘Pueblo‘, da diretora Elena López Riera, com coprodução de Consuelo Frauenfelder, da Garidi Films, de Genebra.

Na seleção alternativa ACID, organizada pela Associação dos Cineastas Franceses, Agnieszka Ramu (da Bande à part Films) representou a coprodução com a França ‘La Vanité‘, de Lionel Baier. A ACID ainda exibiu ‘(be)longing‘, longa de estreia do cineasta português João Pedro Plácido, outra produção de Joëlle Bertossa (Close Up Films), que também integrou a seleção do Visions du Réel 2015.

Para completar, Aline Schmid (da Intermezzo Films) foi escolhida como a representante suíça do encontro Producer on the Move 2015, que reuniu na Croisette os principais produtores europeus para trocar experiências. A presença de Schmid em um ano em que a figura da mulher no cinema ganhou grande destaque em Cannes revela também a força feminina no cinema suíço. Não só as produções que foram à Croisette mas tantas outras têm diretoras, produtoras, atrizes e diversas outras profissionais em posições importantes.

A seleção do 5º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo reflete esta conquista feminina também no mercado audiovisual do país.

É de Schimid, a propósito, um dos destaques do 5º Panorama: o documentário ‘Broken Land‘, que retrata a visão que os americanos que vivem próximos à fronteira com o México têm dos imigrantes ilegais que tentam romper as barreiras que os separam do idealizado ‘sonho americano’.
Broken Land‘ integrou os prestigiados festivais de Rotterdam (na Holanda) e Locarno, na Suíça, respectivamente um dos mais importantes festivais de documentário do mundo e um dos mais (se não o mais) prestigiado festival de cinema de autor do circuito internacional.

Locarno é um oásis para quem adora o cinema inventivo. Todo mês de agosto, o Ticino, na Suíça que fala italiano, se abre para o que há de mais ousado e instigante do cinema de arte. Em 2014, foi a vez do Brasil ganhar lugar de honra ao ser o país escolhido como tema da seção Carte Blanche, que exibe para programadores de festivais internacionais e profissionais da área, além de compradores, uma seleção de dez longas ainda em fase de finalização. Provando que tem olhar de lince (ou melhor, de leopardo, o ‘animal de honra’ de Locarno), o júri da Carte Blanche premiou o longa ‘Que Horas Ela Volta?‘, de Anna Muylaert. Meses mais tarde, em janeiro de 2015, o filme foi premiado nos festivais de Sundance e em Berlim.

Que Horas Ela Volta
‘Que Horas Ela Volta?’, premiado este ano em Locarno, estreia no segundo semestre

O mesmo olhar atento ao novo também move o Solothurn Film Fetival, que todo mês de janeiro reúne na pequena, e ensolarada, cidade do norte da Suíça, os principais profissionais do cinema suíço. Entre veteranos e jovens talentos, mais que exibir seus filmes, eles dialogam com espectadores interessados e participativos. É a prova de que a força do cinema de um país se completa quando ele é pensado junto com o público.

É este olhar atento dos profissionais de uma industrial audiovisual cada vez mais internacional que o público brasileiro vai poder compartilhar. Que venham os filmes! E que venha, em breve, uma coprodução com o Brasil!

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