“Sim, o amor é o tema mais importante que existe. É o assunto dos assuntos. Merece que lhe consagrem a metade da vida (como Bergman) ou três quartos dela (como Renoir). Da mesma maneira que cada relato tem seu valor intrínseco, todo amor é único.”

A fala que abre o setor dedicado às mulheres na exposição Truffaut: um Cineasta Apaixonado, fala muito sim da relação do diretor francês com atrizes icônicas como Cartherine Deneuve, Jeanne Moreau, Jacqueline Bisset e Fanny Ardant, mas diz mesmo da conexão de um dos principais nomes da nouvelle vague com o cinema.

Em cartaz no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, a exposição vai do dia 14 de julho a 18 de outubro, de terça a sábados, das 12h às 20h, e aos domingos e feriados, das 11h às 19h. O ingresso custa 10 reais, e a entrada é gratuita às terças.

“Esta exposição ter saído da França para aterrizar justo em São Paulo é de um valor emocional excepcional para mim, e espero que sirva como um convite para que a juventude da cidade possa conhecer a clandestinidade de François Truffaut”, afirmou o curador e diretor da Cinemateca Francesa, Serge Toubiana, durante debate com o crítico Sérgio Rizzo que marcou a abertura da mostra para convidados na noite da segunda-feira, 13.

“O que mais impressiona a mim [no cinema de Truffaut] é o tema da clandestinidade. A juventude clandestina, o amor clandestino, o amor clandestino ao cinema, as personagens clandestinas. Esse é um paradoxo patente em toda a sua obra, porque ao mesmo tempo em que tudo parece evidente, é também clandestino”, explica Serge, um dos principais pensadores do cinema francês, sobre o autor de filmes como Os Incompreendidos, A História de Adele H. e O Homem que Amava as Mulheres, entre outros.

Faço filmes para realizar meus sonhos de adolescente, para fazer bem a mim mesmo e, se possível, às outras pessoas também” 
— François Truffaut
Ele justifica que, ao contrário de outros críticos, discorda da ideia de um Truffaut de temas leves e alegres, uma ideia que, em grande parte, foi cunhada pelo próprio cineasta, grande manipulador da imprensa em seu tempo. “Seu cinema é complexo, denso, misterioso. O que interessa é o que não está evidente”, explica. “Apesar de não saber de todos esses quartos escuros antes de mergulhar em sua biografia, nunca achei que ele fosse de toda essa leveza. Alguém que faz um filme como O Quarto Verde não pode ser resumido apenas como um homem que fala de amor incondicional e só.”

“Um grande paradoxo que me fascina em Truffaut é o fato de ter deixado tantos segredos e vestígios em sua obra”, afirmou Serge no começo do debate da segunda-feira. “O meu objetivo central é que cada visitante possa captar de alguma forma esses pequenos e grandes segredos de Truffaut”, completou.

@Pierre Zucca

Chama a atenção na montagem o volume e o detalhamento da documentação deixada por Truffaut sobre sua obra e seu modo de pensar o cinema, fosse como roteirista, diretor, produtor e, até, assessor de imprensa. São mais de 600 itens, entre fotografias, páginas de roteiro, cartas, prêmios, objetos e trechos de filmes e entrevistas que integram um cenário pensado para funcionar quase como um labirinto formado por rolos de película. Se na versão francesa tudo foi pensado em ordem cronológica, aqui a ideia é conduzir uma viagem por meio do cinema.

Causa um efeito bonito, mas pode parecer um pouco genérico, especialmente quando comparamos esta mostra com a forte ambientação, por exemplo, da exposição sobre Stanley Kubrick, feita no mesmo museu. Um espaço sempre muito impactante, a sala redonda reproduz, em monitores dispostos lado a lado, a mesma cena de um filme de Truffaut com dois segundos de atraso em relação um ao outro. Aqui, a sensação de que o filme se move remete à vertigem dos primeiros contatos com cineastas deste porte.

Jules e Jim é um sonho: todos nós sofremos diante do aspecto provisório de nossos amores, e esse filme nos leva justamente a sonhar com amores definitivos. É isso” 
— François Truffaut

Há ainda um corredor dedicado às atrizes. O espaço cenográfico conta com portas coloridas que convidam o visitante a espiar pelo olho mágico. Quando o faz, descobre cenas icônicas das principais mulheres retratadas por Truffaut.

Ao final, está a sala sobre Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, sobre a qual se fez muito mistério durante a montagem. Entre objetos e a sempre marcante interpretação de Jeanne Moreau para Le Tourbillon de La Vie, está uma experiência imersiva numa das cenas mais icônicas do filme. É uma chance única de integrar, mesmo que de forma efêmera, o belo triangulo amoroso composto ainda por Oskar Werner e Henri Serre.

Truffaut preocupava-se acima de tudo em ser financeiramente independente, o que o levava a pensar desde a escolha cuidadosa de atores e atrizes à produção, realização e mesmo divulgação dos seus títulos. Há documentos que mostram anotações suas sobre os conteúdos que deveriam ser destacados nas comunicações à imprensa, por exemplo.

Quero que meus filmes deem a impressão de terem sido rodados com 40º de febre”
— François Truffaut
Antes de conseguir dedicar-se integralmente à carreira de diretor, Truffaut trabalhou como repórter e crítico de cinema. Uma carreira como jornalista que, apesar de breve, diz Serge, fez toda uma geração se apaixonar pela sétima arte.

O sucesso de seus filmes, porém, o perturbava. Trufaut criou um sistema de produção já em 1957, tendo como objetivo sua independência. Quando críticos o acusavam de ter se vendido, mais adiante, ficava profundamente magoado porque não se via nem como alguém dentro do sistema, nem como um rebelde do lado de fora. “Ele se enxergava como um artesão independente”, esclarece Serge.

O curador conta da agitação que atormentava o criador durante a produção de O Último Metrô, cujo orçamento era altíssimo para seus padrões, e que viria a ganhar dez prêmios Cesar, o Oscar do cinema francês. “Apesar de ser um orçamento mediano para a época, era algo enorme para ele, que ficou ainda mais angustiado com a saída do produtor alemão. Depois da consagração do filme, ele fez A Mulher do Lado, quase que para confrontar o sistema ao negar o que se esperaria de alguém que atinge sucesso comercial.”

734 François Truffaut e Jean-Pierre Cargol nas gravações de O Garoto Selvagem (1969) Pierre Zucca

Ao contrário de Godard, com quem teria uma amizade conturbada, de afetos e desentendimentos (como em toda relação de duas grandes mentes da literatura ou das artes, compara o curador), Truffaut era mais afeito a um cinema romanesco do que às produções políticas.

“Ele se interessava por política, mas assistia a tudo como um espetáculo. Para ele, a única coisa que tinha valor era o cinema, por isso olhava como quem está de fora. Via os políticos como atores, e os criticava por atuarem muito mal”, detalha Serge. Assim, um dos nomes mais importantes da nouvelle vague se sentava diante da televisão para ver reportagens sobre Watergate da mesma forma como sentava para assistir à série de TV Dallas.

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