‘Baseado em fatos reais’ já se tornou uma expressão tão corriqueira em trailers no cinema que talvez já não cause mais tanto impacto no espectador. Mas quem assiste ao trailer de O Clã, novo filme de Pablo Trapero, e se depara com um ‘a realidade supera a ficção’ pode, aí sim, instigar-se a conferir o que o pai de uma típica família de classe média faz quando caminha pela casa, avisando que o jantar está quase pronto. Ao mesmo tempo, no final do percurso, de bandeja na mão, ele entrega uma refeição a um homem acorrentado, em desespero, trancado em um banheiro sujo.

Trapero, que já coleciona prêmios e participações em festivais pelo mundo como Cannes, Veneza (onde recebeu o prêmio de melhor direção este ano), Berlim, sabe muito bem conduzir o clima de seus filmes e gerar expectativa no público. Em O Clã, que somente na Argentina já foi visto por mais de 2,5 milhões de pessoas e é o representante do país a uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ele reconstrói a surreal, mas real, história da família Puccio. Do início até meados dos anos 1980, eles sequestraram, e mataram, várias vítimas sem nunca deixar suspeitas na vizinhança.

O patriarca, Arquímedes Puccio (Guillermo Francella), comandava, como o auxílio de dois comparsas e dos próprios filhos homens Alejandro (o ídolo teen Peter Lanzani) e Maguila (Gáston Cocchiarale) o planejamento e a execução dos crimes. Arquímedes foi um ex-agente militar, que ainda contava com a proteção que seus contatos com o alto escalão do exército lhe garantiam, e manipulava com destreza principalmente a mente de Alex, que, apesar de ser um jovem super star do rúgbi argentino, colaborava com o pai, atraindo vítimas que ele mesmo conhecia.

Quando o clã Puccio foi desmascarado, em 1985, o choque e a comoção na sociedade foi geral. Houve quem os defendesse por anos a fio, pois era surreal demais para a vizinhança do abastado bairro de San Isidro e dos jogadores do Los Pumas admitir que o horror convivia com eles dia a dia, sem que eles se dessem conta.

É a mistura destas contradições, do conflito familiar, de filhos que têm de encarar, em situação extrema, a figura opressiva do pai, para tentar construir sua identidade no mundo de que se trata O Clã.

Mas trata também de um lado obscuro, macabro, de um criminoso extremamente meticuloso. O patriarca dos Puccio, que morreu sem admitir seus crimes, na ficção é vivido por Guillermo Francella (um dos atores mais famosos da Argentina, que divide a cena com Ricardo Darin em O Segredo de Seus Olhos).

A família Puccio, que mantinha os reféns em um cativeiro em sua própria casa, foi desmascarada em 1985
A família Puccio, que mantinha os reféns em um cativeiro em sua própria casa, foi desmascarada em 1985

Despir Francella de sua figura tão conhecida e transformá-lo frio e, ao mesmo tempo muito humano Arquímedes, foi um grande desafio de Trapero e do próprio ator. O patriarca é um criminoso, mas é também um pai atencioso. É justamente este embate que seduziu Trapero e que seduz o público. “O que me interessa é o encontro entre realidade e ficção. O espectador tem a possibilidade de seguir a vida de uma família muito distante deles, mas que parece ‘normal”, contou o diretor em entrevista ao TelaTela.

É a humanidade de tipos como Puccio, da avó de Família Rodante, do advogado de Abutres, de Julia, de Leonera que tornam os personagens de Trapero muito próximos do espectador e, ao mesmo tempo, cinematográficos.

Some-se a isso tudo a destreza de Trapero de traçar um paralelo entre as transformações ocorridas na Argentina e na família. Os dois primeiros sequestros ocorrem nos dois últimos anos da Ditadura argentina e os dois últimos, nos primeiros anos da nova democracia, quando o país enfrentava uma séria crise econômica e Puccio já não tinha a mesma influência.

A comparação entre o que muda no funcionamento do país e no funcionamento da estrutura familiar é mais um dos trunfos de O Clã e afasta o filme do perigo de ser apenas um thriller oportunista. Seriam a alienação e a indiferença, tanto das filhas da família quanto dos vizinhos, uma defesa ou uma cumplicidade? “É um filme que conta uma história diferente cada vez que se vê”, comentou o diretor.

Sobre O Clã, os Puccio e até sobre o Oscar, Trapero falou ao TelaTela:

É surpreendente que em O Clã uma família supostamente tão normal cometeu crimes tão chocantes. Ao mesmo tempo, em seu roteiro, há um subtexto que retrata os momentos políticos e históricos da Argentina. Como você construiu o roteiro do longa?

É importante dizer que, antes de um thriller sobre sequestradores, O Clã é um filme sobre a família. E por meio do retrato da família, principalmente da relação entre o filho mais velho e seu pai, esta história tão distante da gente, torna-se mais universal. Isso porque todos entendem as questões de família, de pais e filhos.

Não importa de que país você é, o vínculo familiar é algo que todos nós temos. Por meio disso, pude narrar, de alguma maneira, o contexto do que se passava com a Argentina em um momento histórico muito particular, sobre o qual há poucos filmes feitos. Filmamos muito a ditadura argentina e também muito a chegada à democracia, mas há poucos filmes que retratam esta transição, dos últimos anos da ditadura até que se chegue a democracia. Então, o filme conta uma etapa pouco vista no cinema. 

É interessante observar como a perda de uma certa função social dos militares, como a retomada da democracia, foi um fenômeno que se observa em todos os países. Puccio, um oficial, praticamente privatiza a prática do sequestro e tortura que praticava quando estava na ativa.

Sim. Esta é um pouco a base do filme, algo como que se eles fossem uma família comum, que leva sua vida cotidiana normalmente. Os Puccio eram uma família respeitada na vizinhança, ao contrário do que a gente pensa quando se imagina um clã que sequestra pessoas. A gente pensa em uma família mais disfuncional, extrema, mais parecida com ar de True Detective.

Quando as investigações começaram e a polícia foi descobrindo que eles eram uma família querida, com boas relações sociais, em que o pai também era contador, a mãe professora, o filho Alex era jogador de rúgbi muito famoso, que todos os outros filhos tinham boas relações com os vizinhos, os próprios moradores do bairro foram aos jornais dizer que aquilo era um horror, que era um complô contra eles. Ninguém acreditava que aquela família era capaz de tal loucura.

Mas quando você fala da relação familiar, ela é de fato muito forte no filme, mas o subtexto é surreal.

Sim. De alguma maneira, o filme traz o sentido do absurdo da vida cotidiana, em que as situações se tornam surreais e os personagens, ao mesmo tempo, lidam com a vida real, como nas conversas de Arquímedes e Alejandro, em casa com sua filha. O universo do gênero surrealista convive com o retrato da intimidade da família.

Os Puccios, em foto de família da década de 1980
Os Puccios, em foto de família da década de 1980

Você já retratou em outros filmes seus, como Abutres, Elefante Branco, Leonera, questões que fazem parta da vida real dos personagens, mas que são surreais.

Sim.  No caso de O Clã o caso foi de fato real, mas em outros filmes são histórias ficcionais inspiradas em universos reais, mas não em um caso particular. No caso de O Clã o fato de nos depararmos com personagens tão insensíveis, tão frios, mas que estão vivendo suas vidas cotidianas, ‘normais’. Já no caso de Leonera, se fosse ‘na vida real’, uma pessoa que tivesse que recuperar seu filho, isso seria uma aventura e não a vida cotidiana. Ou, por exemplo, o personagem da avó de Família Rodante tem de ajudar sua família a viajar de Buenos Aires ao casamento na fronteira com o Brasil. Esta viagem é uma grande aventura para todos. Eu gosto de encontrar histórias que são próximas da gente, mas que também significam uma aventura para os personagens. O que me interessa é o encontro entre realidade e ficção.

Como foi a escolha do elenco de O Clã, principalmente a dupla de protagonistas. Guillermo Francella e Peter Lanzani são uma dupla improvável, pois um é famoso, veterano, enquanto o outro é um jovem que faz seu primeiro filme, mas funcionam muito bem juntos.

Já na primeira etapa de pesquisas para o roteiro, contatei o Francella e o convidei para viver Arquímedes, que é um personagem que oferecia o risco dele não ser bem recebido pelo público, por conta de quem estaria interpretando. Mas ele disse na hora que gostava muito da ideia de viver este personagem e que o fascinava, pois tinha vivido perto da casa dos Puccio e que foi muito surpreendente para ele quando saiu a notícia dos sequestros. Era um desafio para ele como ator e também para mim, como diretor, guiá-lo no caminho deste personagem que tem a possibilidade de encantar e atrair o público, mas que também causa repulsa. Ele poderia ter o público em suas mãos.

E no caso de Peter Lanzani?

Eu conhecia Peter de seu trabalho na série Quase Anjos e era a primeira vez que estava em um filme. Então, eu tinha de um lado um ator extremamente experiente, com muita preparação e do outro um estreante. Foi um processo intenso, que demandou muito de todos. Peter/Alejandro fez treinamento físico e, no caso de Francella foi mudar a maneira de olhar, caminhar, falar. Foi muito lindo com eles e com todo o elenco, pois nos divertimos muito.

Foto do arquivo do jornal Clarín revela Arquímedes Puccio em 1999, quatro anos depois de ter sido condenado
Foto do arquivo do jornal Clarín, revela Arquímedes Puccio em 1999, quatro anos depois de ter sido condenado

Como foi o projeto de pesquisa e elaboração do roteiro? Você encontrou pouco material publicado sobre o caso e teve de realizar várias entrevistas com pessoas que conviveram com os Puccio, com a polícia?

Comecei a trabalhar neste projeto em 2007, ele foi anunciado em 2012 e finalmente conseguimos filma-lo em 2014. No princípio, me surpreendeu que, apesar de eu achar que este caso era muito conhecido e muito lembrado, havia pouco material disponível. Não havia muita informação além dos jornais da época, nem livros, nem textos mais profundos e investigativos. Isso significou que eu teria de fazer minha própria investigação. Precisei falar com as pessoas do bairro, com a polícia, com as famílias e amigos das vítimas, de Alejandro no clube, com os advogados.

Muita gente foi me contando pouco a pouco sobre a intimidade da família. Gente, que por exemplo, tinha estado dentro da casa dos Puccio e me contavam como eram suas relações familiares, como era Alejandro no clube, seus jogos, seus treinos. Foi um longo processo o de falar com as pessoas e também a de pesquisa, para conseguir fotografias, todo tipo de documentos que pudessem ajudar a reconstruir este passado.

Você é o indicado da Argentina ao Oscar 2016, e já fez muito sucesso com O Clã, tanto de público quanto de crítica e em festivais. Como está sua expectativa para a corrida a uma vaga entre os finalistas a filmes estrangeiros no prêmio americano?

Eu já fui pré-indicado duas outras vezes. Então, esta situação eu já conheço e sempre me provoca alegria por ter sido escolhido pelos meus companheiros argentinos para representar o cinema do país. A verdade é que há muitas expectativas. O filme foi muito bem no Festival de Toronto (em outubro), levou o prêmio de público do Festival de Miami, ganhou um prêmio em Veneza. Então, são públicos muito diferentes. Isso, de alguma forma nos faz ver que o filme se comunica com diversos públicos, de diferentes culturais. E isso é o que mais nos dá a chance de pensar que a partir de agora vão pelo menos ver o longa e, quem sabe, escolhê-lo para ser finalista.

 

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