Dentre as leis que regem a órbita dos astros, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood segue uma lógica irrefutável. Quando confrontado com erros pouco justificáveis, opte por medidas cosméticas e evite ao máximo qualquer atitude que possa implicar numa correção de rota ou (a ser refutado a todo custo) em bom senso.

94% dos membros da Academia são brancos; 77% são homens; 2% são negros
Não se trata de crítica pequena apontar a falta de diversidade numa indústria multibilionária com poder inigualável de moldar convenções sociais, influenciar culturas e restringir visões de mundo.

Em 2015, não havia na lista de finalistas sequer um ator, diretor, ator coadjuvante, atriz ou atriz coadjuvante nenhum nome que não fosse branco. Isto em meio a uma safra que incluía o ótimo Selma, dirigido por Ava DuVernay, criadora negra que não foi indicada, sobre a vida de ninguém menos que Martin Luther King.

A mesma situação repete-se em 2016 diante dos olhos incrédulos de centenas de pessoas que apontam o claro viés que parece pautar essas decisões. Se em 2015 esse tipo de cobrança foi visto como novidade (não era), o que explica a insistência no erro neste ano?

O britânico David Oyelowo, que tornou-se conhecido por sua grande interpretação do dr. King, e esnobado pelos votantes em nossa opinião, comentou a pálida situação da lista de indicados dizendo: “Esta instituição não reflete sua presidente. Eu sou um membro da Academia, e ela não me representa”.

62 anos é a idade média de um membro da Academia; apenas 14% deles têm menos de 50 anos

Oyelowo se refere a Cheryl Boone Isaacs, mulher negra que chefia a instituição. Ao lado de Chris Rock, que retorna ao comando da cerimônia, compõe a curta lista de nomes negros de destaque envolvidos com o Oscar.

O ator tem razão quando lembra que dois dos maiores sucesso de bilheteria do ano nos Estados Unidos têm protagonistas negros (Star Wars: O Despertar da Força tem John Boyega, e Policial em Apuros 2 tem Kevin Hart e Ice Cube) e que uma das melhores séries da safra atual, Empire, tem elenco composto por negros.

Ele deixa de fora ainda Straight Outta Compton: A História do N.W.A., que conta a história de um grupo de Hip Hop nascido nas ruas de Compton, em Los Angeles. Há também Idris Elba ator que está em Beasts of No Nation. Os dois filmes ganharam bastante atenção como possíveis candidatos aos prêmios da Academia, mas acabaram praticamente ignorados – apenas o primeiro emplacou uma indicação a melhor roteiro adaptado, ainda assim escrito por dois brancos (um homem e uma mulher).

Mesmo o cinéfilo mais displicente deve se lembrar de ter visto alguma grande atuação de ator ou criador negro que não é sequer mencionada pela Academia. Se é verdade que há sim menos oportunidades na indústria que inclua artistas negros (e latinos, e LGBT, e etc), pode-se também argumentar que uma iniciativa como essa tomada pelo prêmio de maior visibilidade do cinema poderia desenrolar uma série de mudanças que acabariam no incentivo a mais vagas e a mais papéis para afrodescendentes.

Indicado em 2005 por Hotel Ruanda, o ator Don Cheadle fez uma dura piada em sua conta do Twitter: “Ei, Chris [Rock], venha me ver no Oscar este ano. Eles me colocaram para estacionar carros no piso G:

O post foi feito em resposta a uma brincadeira que Rock publicara mais cedo, dizendo que o Oscar é a versão branca dos BET, os Black Entertainment Television Awards, premiação para atores e criadores negros que atuam na televisão americana. O que para Chris Rock é motivo de piada foi levado muito a sério por atores como o diretor Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith, que se recusaram a comparecer ou a assistir à cerimônia deste ano. O primeiro declarou em seu Instagram que não pode apoiar o Oscar pois não é possível que em dois anos consecutivos ele não tenha encontrado sequer um ator negro. “Não é uma coincidência.”  

#OscarsSoWhite… Again. I Would Like To Thank President Cheryl Boone Isaacs And The Board Of Governors Of The Academy Of Motion Pictures Arts And Sciences For Awarding Me an Honorary Oscar This Past November. I Am Most Appreciative. However My Wife, Mrs. Tonya Lewis Lee And I Will Not Be Attending The Oscar Ceremony This Coming February. We Cannot Support It And Mean No Disrespect To My Friends, Host Chris Rock and Producer Reggie Hudlin, President Isaacs And The Academy. But, How Is It Possible For The 2nd Consecutive Year All 20 Contenders Under The Actor Category Are White? And Let’s Not Even Get Into The Other Branches. 40 White Actors In 2 Years And No Flava At All. We Can’t Act?! WTF!! It’s No Coincidence I’m Writing This As We Celebrate The 30th Anniversary Of Dr. Martin Luther King Jr’s Birthday. Dr. King Said “There Comes A Time When One Must Take A Position That Is Neither Safe, Nor Politic, Nor Popular But He Must Take It Because Conscience Tells Him It’s Right”. For Too Many Years When The Oscars Nominations Are Revealed, My Office Phone Rings Off The Hook With The Media Asking Me My Opinion About The Lack Of African-Americans And This Year Was No Different. For Once, (Maybe) I Would Like The Media To Ask All The White Nominees And Studio Heads How They Feel About Another All White Ballot. If Someone Has Addressed This And I Missed It Then I Stand Mistaken. As I See It, The Academy Awards Is Not Where The “Real” Battle Is. It’s In The Executive Office Of The Hollywood Studios And TV And Cable Networks. This Is Where The Gate Keepers Decide What Gets Made And What Gets Jettisoned To “Turnaround” Or Scrap Heap. This Is What’s Important. The Gate Keepers. Those With “The Green Light” Vote. As The Great Actor Leslie Odom Jr. Sings And Dances In The Game Changing Broadway Musical HAMILTON, “I WANNA BE IN THE ROOM WHERE IT HAPPENS”. People, The Truth Is We Ain’t In Those Rooms And Until Minorities Are, The Oscar Nominees Will Remain Lilly White. (Cont’d) Uma foto publicada por Spike Lee (@officialspikelee) em

Por sua vez, Jada postou o vídeo a seguir em sua conta do Facebook reiterando que a Academia tem o direito de indicar e convidar quem quiser, mas que implorar ou pedir por reconhecimento fere a dignidade e o poder das pessoas negras.

We must stand in our power!We must stand in our power.

Posted by Jada Pinkett Smith on Monday, January 18, 2016

 

Outros nomes, como Cuba Gooding Jr. e Will Packer, também se pronunciaram a respeito. Em defesa de seus 6.300 membros, a presidente da Academia afirmou que a política para admissão de novos nomes mudou nos últimos quatro anos, mas que as mudanças esperadas não estão acontecendo tão rápido quanto o necessário. Segundo ela, a missão hoje é “inclusão de gêneros, raças, etnias e orientações sexuais”.

A presidente Boone Isaacs prometeu tomar medidas para alterar dos membros. Enquanto isso, há quem fale que uma eventual vitória de Leonardo DiCaprio é que seria uma forma de “justiça”.

Comentários

comentários