Há algo de novo no reino dos homens brancos de mais de 60 anos que dominam a Academia de Hollywood – e tantos problemas de representatividade tem causado nos últimos anos.

Estou honrada em estender os convites para 683 criadores, artistas e executivos de destaque que representam o melhor na comunidade audiovisual global, e que fizeram um impacto permanente nos fãs do mundo todo. Estamos orgulhosos de receber esses novos membros e sabemos que seus pontos de vista são uma oportunidade, e não só um convite. Uma missão”
— Cheryl Boone Isaacs
Após anos fazendo ouvidos moucos para as questões de diversidade apontadas por artistas, jornalistas e profissionais do audiovisual, os organizadores de um dos prêmios mais visados da categoria anunciaram esta semana que convidaram 683 artistas para integrar a Academia, com foco principal em mulheres e minorias.

Deste total, 46% são mulheres e 41% são negros. Entre 2011 e 2013, as mulheres eram apenas 30% do total de convidados, número que caiu para 25% em 2014 e 2015. A lista de convidados traz pessoas oriundas de 59 países. De todos, 28 são vencedores do Oscar. As idades variam de 24 anos a 91 anos. Confira a lista completa.

Há na lista 283 membros internacionais, entre os quais estão os brasileiros Lula Carvalho, Anna Muylaert, Pedro Kos, Affonso Gonçalves, Antonio Pinto, Marcelo Zarvos, Rodrigo Abreu Teixeira, Alê Abreu, Renato Dos Anjos, Vera Blasi.

“A organização, das lideranças aos arquivadores, todos os 6 mil membros, se engajou nesse debate. Por conta disso, conseguimos convidar um novo grupo de vozes que representam o audiovisual hoje”, afirmou a presidente da Academia Charyl Boone Isaacs à Variety.

“A conversa é contínua. Acho que haverá muita energia positiva que irá polinizar tudo e se multiplicar.”
— Cheryl Boone Isaacs
Caso todos aceitem o convite, uma pequena mudança começará a se desenhar no universo de mais de 6 mil membros da Academia – ainda que pequena. Com 25% de mulheres e 8% de negros, a presença masculina deve variar de 75% para 73%, enquanto o percentual de pessoas brancas cairia de 92% para 89%.

Ainda é pouco, mas já sinaliza o surgimento de uma mudança de mentalidade que certamente não alterará apenas o que se vê na noite do tapete vermelho. Até porque não há hoje no mundo indústria com poder igualável de moldar comportamentos, ditar tendências culturais, ampliar ou restringir visões de mundo.

Dessa forma, quando um prêmio com essa projeção resolve se posicionar e dar visibilidade a mulheres, negros, latinos, LGBT, deve até incentivar a abertura de mais vagas e a criação de mais papéis para esses artistas. Fugindo da “saga do homem branco” que marcou as últimas indicações ao Oscar, teremos um cinema mais inclusivo dos diferentes atores sociais e representativo da realidade que vivemos. E uma geração de crianças e jovens que, ao se ver mais bem representada nas telas, torna-se protagonista de suas próprias histórias.

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Na prática, focar a diversidade implicou enviar o dobro de convites feitos no ano anterior, 322. A Academia pretende atingir o objetivo de ter duas vezes mais diversidade até 2020. Isso foi possível após a organização eliminar um sistema de cotas que restringia o número de novos membros até pouco tempo atrás.

Muitos veteranos — e isso é comum no debate sobre ações afirmativas — protestaram conta a lista de convidados, alegando que estariam perdendo poder e que suas escolhas serão “diluídas” dentro de um grande número de votantes. Uma reclamação que faz mais expor a raiz da falta de diversidade no meio.

“O que quer dizer diluir? Estamos falando de pessoas que são altamente capacitadas e envolvidas com a arte. Nossa indústria está crescendo e florescendo, e nós queremos ter certeza de que esses talentos estão incluídos em nossas discussões”, respondeu Isaacs prontamente.

Alguns membros vão perder os direitos de voto

Uma mudança importante anunciada pela Academia é que alguns de seus membros passarão a ter status emérito, ou seja, perderão o direito de votar. Isaacs confirma que isso ocorrerá, mas não dá indicativos de quantos ou quais nomes seriam afetados. O objetivo da medida seria o de, seguindo um critério de relevância, tirar da lista nomes que entraram na Academia há muitos anos, mas já terminaram suas carreiras no cinema – o que, garante ela, não significa que se trata de retirar o poder de voto dos mais velhos.

Não trazer nenhum negro concorrendo em nenhuma de suas principais categorias foi uma demonstração rude do racismo latente na indústria americana. As respostas vieram de todos os cantos do mundo, concentradas nas redes sociais na campanha #OscarsSoWhite.

Um dos principais esnobados na lista de indicados de 2016, o ator inglês Idris Elba, torna-se agora membro da Academia que o ignorou este ano, a despeito da inegável consistência de sua carreira, no cinema e na televisão.

Outro nome que passa a integrar a academia é John Boyega. Um dos principais novos personagens de Star Wars: Episódio 7 – O Despertar da Força, Boyega não recebeu indicação pelo papel neste ano, mas é um dos novos convidados a integrar a organização. No Twitter, comemorou: “É sempre uma benção ser um dos muitos votantes do Oscar, o que certamente despertará uma mudança. Muito obrigado!”

 

 

Entre as mulheres negras, destacam-se Anika Noni Rose, de Dreamgirls, e a diretora Amma Asante, de Belle. Ela também se manifestou em suas redes sociais dizendo: “Não posso mentir, adorei isso!”. 

 

Entre as mulheres, entraram para o clube Emma Watson, Tina Fey, Alicia Vikander, vencedora da categoria atriz coadjuvante por Garota Dinamarquesa, e Brie Larson, vencedora da estatueta de melhor atriz este ano por O Quarto de Jack. “Entrei! Estou empolgada para usar meu voto e indicar talentos que reflitam o mundo real em que vivemos. DIVERSIDADE.”

 

 

Também passa a integrar esse time a atriz America Ferrera, conhecida por seu papel à frente da série Ugly Betty. “Desde criança sonho com a oportunidade de expressar meu talento e agora posso criar essas oportunidades para os outros. Obrigada!”

 

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