Nossa Opinião

4.0
É alarmante ver um time de criação formado por mulheres construir personagens femininos tão fracos
Nota 4.0

Quase todo filme francês que chega às nossas telas vem com uma espécie de aura, um de selo de qualidade automático pairando. O mito foi construído com justiça durante a Era Nouvelle Vague e por seus seguidores imediatos, e por isso é até estranho quando chegam de lá produções um tanto quanto inócuas, até sem sal.

É o caso de Os Olhos Amarelos dos Crocodilos, da diretora Cécile Telerman, que em termos de linguagem tem muito em comum com os dramas mais inexpressivos de Hollywood ou com as piores novelas do Projac.

A trama, adaptada do romance homônimo de Katherine Pancol, coloca em oposição duas irmãs: Josephine (Julie Depardieu) é estudiosa, discreta, submissa, com problemas financeiros e no casamento. Já Iris (Emmanuele Béart) se coloca como uma figura segura, vaidosa, acostumada a uma vida de luxos e glamour. Elas não poderiam ser mais diferentes, e o filme faz questão de reforçar isso incessantemente, sem nenhuma sutileza.

Aliás, é alarmante ver um time de criação formado por mulheres (Cécile, Katherine e Charlotte De Champfleury, co-roteirista) construir personagens femininos tão fracos. Josephine é uma espécie de Bridget Jones francesa, que após o divórcio reencontra felicidade e inspiração em um novo homem, alguns anos mais jovem que ela. Iris é mãe relapsa, preocupada apenas com sua imagem e em fazer fama, sempre sob o olhar reprovador do marido, que exerce o papel de centro racional do filme. Juntas, elas fazem um pacto sobre a autoria de um livro, o que trará à tona todas as mágoas acumuladas.

O problema continua nos personagens secundários, desde a mãe das duas, uma senhora gananciosa que não sabe apreciar o trabalho da filha mais humilde, até a secretária (e amante, claro) do padrasto, que sonha em engravidar para assim poder assumir de vez seu romance.

Marcam presença também clichês como o encontrão entre homem e mulher (com direito a livros caindo no chão e tudo) que inicia um interesse amoroso, a personagem que se constrange após a primeira conversa com o pretendente e fica remoendo suas palavras consigo mesma, as olhadas ao horizonte com cara de conteúdo para mostrar a hora da reflexão, e uma insistência em movimentar a história quando alguém ouve escondido algo que não devia.

Pouco inspirado, ‘Os Olhos Amarelos dos Crocodilos‘ é contraindicado até para quem só deseja “sentir um gostinho da França”. Melhor ir até a padaria mais próxima e pedir um croissant.

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