Nossa Opinião

6.0
A teia das relações entre os personagens, suas manias, crenças e fixações, antes pontos chave do desenvolvimento, passam agora para o segundo plano, em nome da atmosfera de thriller policial.
Nota 6.0

Muitos cinéfilos prenderam a respiração quando foi anunciado o remake do argentino O Segredo dos Seus Olhos, um dos grandes filmes dos últimos anos e vencedor do Oscar de longa estrangeiro em 2010.

Nem a presença do diretor do original, Juan José Campanella, como produtor executivo ou o elenco liderado pelos astros Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão), Nicole Kidman e Julia Roberts fizeram sumir por completo o medo de Olhos da Justiça ser uma abordagem equivocada de algo que funcionou à perfeição da primeira vez.

Se não é o desastre que temíamos, não dá para negar que a comparação, presumidamente inevitável, desfavorece bastante o filme de Billy Ray, cineasta que tem no currículo a assinatura dos competentes O Preço de Uma Verdade (2003) e Quebra de Confiança (2007), suspenses que ficam boa parte do tempo em salas fechadas (no caso do primeiro, uma redação de jornal, no segundo, os escritórios do FBI).

O histórico de Ray ajuda a explicar o fator principal que pode ter chamado sua atenção em O Segredo dos Seus Olhos: a investigação policial. Por isso, sua versão desloca os acontecimentos para os Estados Unidos pós 11 de setembro, ainda em estado de choque e com qualquer crime sendo analisado sob o prisma de uma potencial ameaça terrorista. A teia das relações entre os personagens, suas manias, crenças e fixações, antes pontos chave do desenvolvimento, passam agora para o segundo plano, em nome da atmosfera de thriller policial.

Ejiofor ocupa o papel que foi de Ricardo Darín e Kidman faz Claire, a chefe de departamento e interesse romântico/platônico do protagonista. Dean Norris (de Breaking Bad) assume a vaga de Guillermo Francella como fiel escudeiro, tendo menos espaço na tela que sua contraparte portenha.

Está na personagem de Julia Roberts a alteração que muda muito o sentido de Olhos da Justiça em relação a O Segredo dos Seus Olhos. Sua personagem é a policial Jess, mãe da vítima do crime que desencadeia a trama. O remake tem, portanto, uma dose de drama familiar e vingança que coloca tudo demasiadamente dividido entre mocinhos e vilões.

Passa a existir então uma explicação irrecusável para a tragédia permanecer tanto tempo na cabeça dos agentes envolvidos. É como se a obsessão por um caso deixado sem explicação do original argentino não fosse forte o suficiente sem este componente pessoal.

O tiro sai pela culatra. Afinal, quantas vezes já não vimos histórias de entes queridos fazendo justiça com as próprias mãos, em busca de alguma compensação? É um tema recorrente do cinema norte-americano, do qual o filme não procura fugir. Pelo contrário, vai em direção a este tipo de narrativa.

É provável que quem por acaso não conheça o longa de Campanella se veja envolvido pela trama, que flui de forma satisfatória mesmo com as idas e vindas no tempo, e seja surpreendido pelo desfecho. Quem já viu O Segredo dos Seus Olhos, porém, vai encontrar pouca coisa que chame a atenção.

Até o plano-sequência num estádio de futebol, momento impactante no original, virou uma cena padrão, cheia de cortes, embora mantenha as mesmas ações. Como no resultado final como um todo, pegaram algo extremamente poderoso e transformaram num produto genérico.

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