Nossa Opinião

9.0
'Obra' não é um filme óbvio, muito menos para consumo rápido. É para quem está interessado em lidar com seus tempos dilatados, seus gestos mínimos, com a pequenez humana diante de grandes espaços
Nota 9.0

“A memória é a chave da arquitetura. Sem ela, não temos futuro” (Daniel Daniel Libeskind, arquiteto polonês naturalizado americano)

Entre as tantas cenas do longa Obra, uma causa especial mal estar e encantamento ao mesmo tempo. Oprimido pela metrópole e pelos problemas pessoais que pesam em seus ombros, o protagonista João Carlos (Irandhir Santos) pratica corrida para aliviar a pressão. Mas à medida em que a câmera se distancia dele e o plano se abre, percebemos que ele corre em uma pista no terraço de um prédio (o emblemático Conjunto Nacional). Mergulhado no mar de prédios e ruídos, é como um animal engaiolado, andando em círculos.

É esta sensação de ‘emparedamento’, como o próprio diretor Gregório Graziosi ressalta, que faz com que o espectador entenda o labirinto geográfico, social e emocional em que o personagem se encontra. Filho e neto de arquitetos, o jovem diretor, que faz sua estreia em longas-metragens, também estudou arquitetura por um ano antes de se decidir pelas artes plásticas e pelo cinema.

Esta tríplice formação deu a Gregório um olhar peculiar, capaz de decodificar o mal-estar dos que vivem em grandes metrópoles, sem perder a atenção ao que de belo há em cidades como São Paulo.

A metrópole é cinza, cheia de arestas, mas é também a casa do arquiteto (sim, João Carlos é um arquiteto que trabalha em uma grande obra, em um terreno que pertence à sua família), é onde ele se move com familiaridade. A cidade é uma mãe dura, que acolhe, mas não abraça. Na verdade, ela o quase o sufoca.

Muito por isso, nenhum plano do filme, rodado em scope, revela o horizonte. Da janela do prédio, se vêem outros prédios. Em momentos difíceis de sua trajetória, é nas paredes de edifícios, clubes noturnos decadentes e elevadores que João Carlos se apoia. Se o homem é produto do meio, João Carlos é o retrato de uma cidade que pulsa até quando está silenciosa.

E são justamente os silêncios, e não os diálogos, que gritam em Obra. É na palavra não dita à sua mulher (a atriz inglesa Lola Peploe), uma arqueóloga urbana que espera o primeiro filho de João Carlos, que se entende o quão distante ele a mantém das questões que o atormentam.

É na crise silenciosa de dor na coluna (que rui feito um pilar de um velho prédio do Centro) que nos revela o peso da responsabilidade que ele herda ao descobrir que há um cemitério clandestino no terreno de sua família.

É no abraço ameaçador de seu pai, conivente com os atos que o avô de João Carlos cometeu, que se sente que a família espera que ele carregue o fardo e concorde com o crime do passado.  Mas não é a solução desse crime, ou na descoberta de quem são os corpos, mas sim na maneira como João Carlos lida com esta herança que importa para a narrativa. Como diz o diretor, Obra é quase uma “espécie de suspense errado.”

O ator brasileiro Irandhir Santos e a atriz inglesa Lola Peploe vivem um casal à espera de seu primeiro filho
O ator brasileiro Irandhir Santos e a atriz inglesa Lola Peploe vivem um casal à espera de seu primeiro filho

Em uma implosão que dá lugar ao novo, João Carlos se acerta com o passado e abre espaço para novas construções emocionais e morais. A explosão, no entanto, para frustração de quem espera grandes embates verbais e um roteiro que conduz o espectador pela mão, é interna. É nos gestos precisos, quase coreografados, de Irandhir, impecável no papel, que as angústias do arquiteto se mostram.

Como na metrópole, a violência é muitas vezes latente e silenciosa, disfarçada de civilidade. Obra não é um filme óbvio, muito menos ‘para consumo rápido’. É para quem está interessado em lidar com seus tempos dilatados, seus gestos mínimos, com a pequenez humana diante de grandes espaços, como em um filme de Michelangelo Antonioni, um quadro de Giorgio De Chirico ou a sensação de atravessar um grande viaduto a pé. É um mergulho no vazio em branco-e-preto, que nos faz sentir tão desprotegidos quanto fascinados com o pulsar da cidade.

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