Se os cinemas de rua rareiam, para dar lugar a empreendimentos imobiliários ou igrejas das mais diferentes vertentes evangélicas, o que dizer dos drive-ins? É bem possível que as gerações mais novas, cada vez mais acostumadas a ver filmes no computador ou, quando muito, em shopping centers, nem saibam o que seja isso.

“O único lugar onde você vê o filme e as estrelas”, como define a propaganda do espaço que pode ser considerado não apenas o cenário, mas um dos protagonistas de O Último Cine Drive-In. O longa de estreia do brasiliense Iberê Carvalho chega aos cinemas impulsionado por 4 prêmios no último Festival de Gramado: melhor filme na opinião da crítica, ator (Breno Nina), atriz coadjuvante (Fernanda Rocha) e direção de arte (Maíra Carvalho).

O drive-in do título existe e é mesmo o único remanescente de sua espécie em atividade no Brasil. Ao optar por filmar naquele lugar, Iberê acabou contribuindo com o início de um movimento de mobilização da cidade para mantê-lo em funcionamento.

Um dia antes da estreia no circuito comercial do país, houve ali uma sessão especial, que marcou também a inauguração de um novo projetor digital. “Daqui para frente, se alguém disser que o cinema drive-in está aí até hoje por causa do nosso filme vai ser demais”, projeta o cineasta, em entrevista ao TelaTela. Essa história paralela só deixa O Último Cine Drive-In ainda mais saboroso

A obra é uma homenagem amorosa à sétima arte, com dezenas de referências, que começam no nome do jovem Marlonbrando (assim mesmo, tudo junto) e passam também pela camiseta do Karatê Kid em uma das personagens e pelos pôsteres de clássicos que decoram a parede da casa de Almeida, seu pai, interpretado por Othon Bastos.

Este, por sinal, é um ator que “traz consigo boa parte do cinema brasileiro”, como define o diretor, lembrando das parcerias do veterano com mestres como Glauber Rocha e Ruy Guerra.

A tensão entre os dois personagens masculinos, defendidos com ótimas atuações, move o roteiro. O filho procura o pai, ausente há quase uma década, quando a mãe passa por um problema de saúde. Teimosos, eles penam para retomar uma conexão, que, quando vem, não à toa se dá num local de comunhão por natureza, o espaço do cinema.

Sobre seu filme, a escolha de Othon e Breno para o elenco e a importância do ritual de ir ao cinema, Iberê Carvalho falou ao TelaTela.

TelaTela – Como você se sente sabendo que seu filme pode ter dado uma sobrevida ao último cine drive-in do país, em Brasília?

Iberê Carvalho – É muito gratificante. Durante as filmagens a gente já sentiu esse movimento. Quando a gente estava filmando acabou aparecendo nas notícias locais, e o drive-in teve um revival. É um espaço que está na memória afetiva da cidade. Quem nasceu nos anos 70, como eu, ou nos anos 80 tem sempre uma história pra contar em relação a este lugar.

Inclusive aquela reforma, que acontece no filme, a gente fez questão de fazer com material perene. Geralmente em produções cinematográficas você usa material descartável, para baratear, porque você só precisa que funcione na tela. A gente de fato reformou o letreiro de néon, a entrada, pintou as faixas no chão, como um presente para o cinema.

Fizemos uma pré-estreia lá inaugurando o projetor DCP [para filmes em formato digital]. Significa que eles estão acreditando, fazendo um investimento pesado para se adaptar, para o cinema continuar vivo, com condições de exibir os filmes que estão por vir. Daqui para frente, se alguém disser que o cinema drive-in está aí até hoje por causa do nosso filme vai ser demais.

O diretor brasiliense Iberê Carvalho
O diretor brasiliense Iberê Carvalho
O que me preocupa de toda essa inovação tecnológica é o cinema virar uma experiência individual.

Você disse que todos em Brasília guardam uma história pessoal com aquele lugar. Qual é a que você tem na memória?

Em 2011 eu nem sabia que o espaço ainda estava aberto, mas vi que iriam passar o À Prova de Morte, do Tarantino. Eu achei ideal ver aquele filme no drive-in. Quando cheguei vieram lembranças de quando eu ia lá com o meu pai. Lembrei de correr por aquele espaço, comer hambúrguer e tal. Mais do que um filme, existe a experiência coletiva de assistir a um filme no drive-in.

Foi ali que me deu o estalo de fazer o filme naquele ambiente. Já havia o argumento de uma história de família, mas não tinha o cinema inserido.

A partir daí, o que mudou no roteiro?

Eu tinha uma sinopse de cinco páginas, onde já existia o pai, que era dono de uma lanchonete, já existia a Paula, que trabalhava no balcão e era uma figura que trazia um pouco mais de comédia para o filme, já existia o Zé, que era um ajudante que cuidava mais da segurança do local. E aí vinha a chegada do filho que, claro, não chamava Marlonbrando, e transformava aquele ambiente.

Quando tive o insight de fazer o filme no drive-in vi que os personagens poderiam morar ali dentro. De fato a projecionista do drive-in real é uma mulher, de fato tem uma pessoa que cuida da portaria e da limpeza. É possível o local ser mantido por três pessoas. Encaixou tanto que parece que o universo conspirou a favor.

Quanto mais eu pesquisava o drive-in de verdade, eu via que ele estava sendo mantido por uma família. Pelo amor da família por aquele espaço. A Marta Fagundes, a pessoa que toma conta daquele espaço, o mantém vivo por causa do pai dela, o antigo dono. A partir dali o projeto deslanchou.

Othon Bastos faz Almeida, apaixonado por cinema
Othon Bastos faz Almeida, apaixonado por cinema

Escalar Othon Bastos para o papel de Almeida foi um achado. Como foi essa escolha?

Eu achava que o guardião do último cinema drive-in não poderia ser outro que não o Othon Bastos. Como eu ouvi outro dia alguém falando em Gramado, ele não é um ator, é uma entidade. Ele traz consigo boa parte do cinema brasileiro, fez personagens de Glauber Rocha, Ruy Guerra, Leon Hirzman…

E até agora ele se mantém atuante, com 82 anos continua forte, atuando pra caramba. Foi muito feliz pro projeto ele ter gostado do roteiro e aceito.

Como foi a experiência com ele no set?

Foi ótima. É fácil dirigir o Othon porque ele deixou todo mundo de boca aberta com a energia. A gente trabalhou de madrugada, com frio, tivemos que virar a noite e ele sempre com uma disponibilidade para trabalhar enorme. E, por ser um cara de cinema, ele respeita a relação com o diretor, de uma forma muito generosa e respeitosa.

Eu fiquei até com medo, pensava “Poxa, meu primeiro filme, vou dirigir o Othon Bastos, que já foi dirigido pelo Ruy Guerra, pelo Glauber, Walter Salles. Como vai ser isso?”. Métodos tão diferentes, outro momento. Mas logo de cara ele já me deixou à vontade, demostrou que estava ali pra contribuir, criar junto, mas que a palavra final era minha. Isso me deixou muito seguro para assumir meu papel como diretor e poder dizer pra ele que queria as cenas de outro jeito, sem nenhum constrangimento.

E o Breno, como você chegou nele?

O conheci num trabalho que a gente fez em Brasília, um videoclipe do MV Bill. O Breno é de São Luís, mas morou um tempo em Brasília, fez o teste para aquele projeto, a gente trabalhou junto e deu tudo certo.

A comunicação entre eu e ele era fácil. Isso pra mim é fundamental. Não adianta ser um grande ator e eu não conseguir me comunicar com essa pessoa.O Breno é um cara muito inteligente, consegue fazer uma interpretação naturalista e minimalista, que me agrada muito.

Eu tinha testado outros atores, mas quando o Breno fez o teste vi que ele estava com tanta vontade de fazer aquele filme, e que a comunicação entre eu e ele ainda se mantinha, mesmo passando três, quatro anos que a gente tinha se conhecido. Aí resolvi apostar nisso, na vontade, na garra, e não num nome badalado, uma cara conhecida. Eu acho que foi um acerto.

Breno Nina faz Marlonbrando, aqui numa cena que remete a Pequena Miss Sunshine
Breno Nina faz Marlonbrando, aqui numa cena que remete a Pequena Miss Sunshine

Fazer cinema no Brasil ainda é um ato de resistência?

Menos do que antes, talvez. Eu citei aí algumas gerações que a realidade talvez tenha exigido mais deles, e eles abriram muitas portas para nós. Hoje a gente vive uma realidade diferente. Eu tenho em Brasília um fundo de apoio à cultura, um fundo local, que consegue apoiar realizações do cinema local. Existe o fundo setorial do audiovisual que reserva inclusive uma cota dos recursos para as regiões fora do eixo Rio-São Paulo.

Fazer cinema nunca é fácil. Você tem que, além de entender de dramaturgia, entender de roteiro, conseguir dirigir, ainda tem que aprender a fazer projeto, captar, é um negócio meio maluco. Mas é possível.

Eu comecei a fazer cinema há quinze anos, consegui fazer meu primeiro longa. Filmei em 2013, dois anos depois já tá chegando nas salas de cinema. Pra quem não é da área parece muito tempo, mas quem conhece um pouco do mercado sabe que há poucos anos atrás isso seria muito difícil para um diretor que não é conhecido, fora do eixo, e sem apadrinhamento de algum nome mais forte.

O filme mostra o cinema como uma experiência ritualística, de encontro entre pessoas. Como você vê esse momento em que as salas vão perdendo espaço para outros meio de se chegar a um filme, como pelo computador?

O importante é o filme ser visto. Mas eu não vou dizer que não prefiro que as pessoas vejam no cinema. Porque é no cinema, se for numa boa sala, com boa projeção, onde a pessoa vai ter a experiência mais próxima de todo o trabalho que cada um dos profissionais colocou ali. Em termos de experiência visual, auditiva, tudo. É onde você vê cada detalhe que a gente investe tantos recursos e tantos talentos.

Por mais que a pessoa não seja entendida, ela sente intuitivamente, sem tanta consciência, tudo isso. O filme chega nela de outra forma, com todos os elementos que compõe uma obra audiovisual chegando com potência. Essa que é a força do cinema.

Mas, ao mesmo tempo, as pessoas estão aí, acontecendo. Não dá pra gente ser saudosista, senão acontece com a gente a mesma coisa que acontece com o Almeida, que se mantém cabeça dura, sem abrir mão de nada, e tenta passar os filmes que ele gosta, sem tentar se adaptar e a vida é um pouco cruel com ele.

A ideia do filme é falar do cinema como esse espaço para reunir as pessoas. O que me preocupa de toda essa inovação tecnológica é o cinema virar uma experiência individual. Isso eu acho que não é positivo para o cinema em si, e para a sociedade mesmo. Eu gosto do cinema enquanto experiência coletiva, nem que seja em casa.

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