Nossa Opinião

7.5
O trunfo de Jennifer é expor o nível de desconstrução por que um homem tem de passar para não ser, na falta de termo melhor, um babaca
Média 7.5

O estupro coletivo sofrido por uma jovem carioca há algumas semanas no Brasil trouxe à tona um termo que gerou intensos debates: o da cultura do estupro. “Mas por que falam em cultura do estupro e não do assassinato?”, perguntavam os curiosos e os de intenções questionáveis.

Boa oportunidade para começar a entender essa expressão está no documentário The Mask You Live In, que está na Netflix. Num resumo rasteiro: os estupradores não estão vindo de Marte ou brotando de terrenos áridos, mas sendo criados por uma sociedade que trata mulheres como objetos, sexo como violência e virilidade como falta de empatia.

O título é inspirado numa frase de George Orwell, o autor de 1984 e A Revolução dos Bichos: “Ele usa uma máscara, e seu rosto moldou-se para preenchê-la”. É assim que o filme começa, mostrando uma série de homens contando quando ouviram pela primeira vez que não deveriam chorar, por exemplo, intercalados pelas histórias de meninos muito jovens que já dizem nunca falar sobre quando se sentem tristes ou incomodados com algo.

A iniciativa é da diretora e ativista Jennifer Siebel Newsom, a mesma de Miss Representation. Aqui, seu objetivo é mostrar um outro lado do sexismo e como ele se embrenha na vida daqueles que estão desde cedo sendo treinados para reproduzi-lo.

A premissa soa perigosa, pois flerta com a defesa, ou vitimização, daqueles acostumados ao papel de algozes. Mas Jennifer manobra com destreza pelo tema, sem transformar seu projeto num conto sobre os pobres homens brancos e as opressões que são programados a cometer.

Antes, ela foca na saúde emocional e no tipo de comportamento que é ensinado, incentivado e recompensado em meninos. O trunfo de Jennifer é expor o nível de desconstrução por que um homem tem de passar para não ser, na falta de termo melhor, um babaca.

Partindo de conceitos como a plasticidade do cérebro para negar diferenças biológicas inerentes às questões de gênero, Jennifer expõe como a violência nasce no momento em que se encoraja meninos de 6, 7 anos a pararem de falar sobre os seus sentimentos (e enxergar os do outro), e a se tornarem violentos e predadores sexuais incansáveis.

Assim criamos e confirmamos, geração após geração, máximas injustas como a de que meninos não choram, meninos são mais violentos que meninas, meninos gostam mais de sexo que meninas, meninas dizem que sim quando querem dizer não.

À medida que esses axiomas são desconstruídos pelos especialistas contatados por Jennifer, as tão criminalizadas fragilidades vêm à tona, expondo seres humanos que, eles próprios, desde cedo, reproduzem um sistema de opressão sem muito pensamento crítico, achando fazer apenas o que foram naturalmente criados a fazer. Homens são assim mesmo, afinal.

Não é bem assim.

Se tem o mérito de levantar essas questões da esfera pessoal, o roteiro perde um pouco de fôlego por tentar entregar um final redentor, que acalme os ânimos dos espectadores conforme estes se afastam dessas reflexões. Tentar abordar um sistema de poder de forma simplista pode ter efeitos colaterais nefastos, e caberia aqui também pensar questões sociais, de classe e raciais que se retroalimentam na manutenção disso tudo que aí está.

Aqui, as inquietações geradas por um problema maior acabam por se reduzir a indivíduos em busca de remição, ou de afeto. Funciona sob alguma ótica, mas confia demais na sensibilidade de meninos e homens que, como justamente acabou de se provar, podem não ter ferramentas adequadas para isso.

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