Nossa Opinião

9.0
Sem julgamentos, o filme tampouco cria desculpas para a protagonista que vive para atacar os estigmas a que está sujeita como sexagenária
9.0

Os olhos borrados de preto, o cabelo desarrumado, o piercing sobre o lábio, os dedos cheios de anéis. A maquiagem pesada enfatiza as rugas no rosto de Angélique, que conhecemos já meio inebriada por champanhe no cabaré em que trabalha.

A mulher de meia-idade, ainda mais em contraste com a juventude extravagante de suas colegas de profissão, poderia muito bem ser apenas mais uma figura ridícula da noite. Seria, não fosse a pulsão de vida que a impulsiona pelo caminho que só cabe a ela trilhar.

Aos olhos de uma sociedade tão impiedosa com o feminino que foge aos padrões das capas de revista, a mulher mais velha que tenta ganhar a vida com sua sexualidade pode ser até mesmo uma afronta. Logo ficamos sabendo dos “fracassos” que acumula como mãe e, por extensão, como pessoa.

Se em Party Girl conhecemos Angélique por lampejos de melancolia e olhares vazios entrevistos em sua figura beberrona, irreverente e libidinosa, também a vemos deslocada à luz do dia, num café frequentado por senhoras de sua idade.

É nos braços de seu último cliente que ela busca redenção, no homem “direito” que a tirará dessa vida e lhe dará tudo o que poderia supostamente almejar: uma casa, conforto e uma convivência mais pacífica com os filhos. O que mais, se não o casamento, pensarão eles, para colocar Angélique nos trilhos?

Dentro do gênero de autoficção que marca muito da produção contemporânea, o diretor Samuel Thais (que assina a obra, com Claise Burger e Maria Amachoukeli-Barsacq) retrata a vida da própria mãe e interpreta a si mesmo no filme, assim como seu irmão e duas irmãs.

Sem julgamentos, o corajoso Party Girl tampouco cria desculpas para as escolhas da protagonista, que vive para atacar, um a um, os estigmas a que está sujeita como sexagenária. É ajudado pela magnífica fotografia de Julien Pouperd, em que a câmera busca os atores, em vez do contrário.

Apesar de a princípio parecer ceder aos ideais românticos do namorado, Angélique resiste bravamente a deixar-se domar e abrir mão de sua identidade. Paradoxalmente, a mulher que fez a vida com o próprio sexo não consegue entregar-se ao homem que quer tê-la apenas para si. Ao abrir mão de quem era, perde o tesão por ele, pela vida.

Ao confrontar-se com o drama burguês de uma Emma Bovary, Angélique anseia por mais. Quanto mais próximo o dia do casamento, mais ela se apega a definições de amor que, diz o próprio filho, parecem sair da boca de uma menina de 14 anos. Talvez porque Angélique, com toda a sua vivência, tenha se recusado justamente a deixar para trás a juventude e suas ilusões.

Em sentido oposto, que diferença há entre a maquiagem fortemente marcada da mulher “festeira” que pinta o rosto obstinadamente e as senhoras que paralisam a própria face com toxina para tentar apagar as marcas do tempo?

Party Girl chega ao Brasil em circuito pequeno, depois de passar pelo Festival do Rio ano passado. Vem credenciado por dois prêmios na edição 2014 do Festival de Cannes ao trio de diretores, que saiu> da Croisette levando o troféu Camera d’or (dado ao melhor filme de estreia) e outro pelo trabalho em conjunto, na seção Un Certain Regard.

Reconhecimentos assim às vezes funcionam como armadilhas, já que acabam por chamar a atenção e criar uma expectativa que nem sempre se sustenta quando o filme começa sua carreira pelo mundo. Mas, nesse caso, pode acreditar no hype.

Os diretores levam tudo com mãos firmes. Contrapõem cenas de ternura familiar com rompantes que, no fundo, revelam a resistência daquela mulher em ceder – com razão – aos cegos ditames sociais que ignoram sua própria identidade. Angélique é um modelo: a despeito de todos os seus defeitos, não abre mão jamais de dolorosamente ser quem ela é.

Comentários

comentários