Nossa Opinião

10.0
Larraín envolve seu filme numa espécie de neblina. O sol quase nunca dá as caras, afinal de contas, logo como anuncia a citação inicial do longa, trata-se de uma história de trevas, e não de luz.
Nota 10.0

Em tempos em que o Papa Francisco parece não medir esforços para exibir uma faceta mais descolada e próxima das novas gerações, disposto a aparecer em manchetes ‘viralizáveis’ como a gravação de um disco de rock, o cinema não quer deixar esquecer os aspectos mais sombrios da Igreja Católica.

Dois filmes bastante elogiados em festivais internacionais deste ano (o norte-americano Spotlight e o chileno O Clube, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim) tratam dos escândalos de abuso sexual e pedofilia, que recentemente motivaram inclusive a criação de um novo tribunal do Vaticano para julgar estes crimes, ação idealizada por Francisco e exigida há tempos pelas vítimas.

Rodado antes do anúncio desta espécie de mea-culpa, o filme de Pablo Larraín retrata uma tentativa da instituição em varrer o problema para debaixo do tapete, transformando uma pequena casa num vilarejo litorâneo em um barril de pólvora movido a segredos, culpas e pecados inconfessáveis.

Neste lar de paredes amarelas mora um grupo formado por quatro padres e uma freira. Afastados da convivência paroquial, seu isolamento é uma advertência por condutas indevidas, um tempo que deveria ser dedicado à penitência e arrependimento.

Porém, o clima amistoso da casa mais se assemelha a um spa, ou a uma colônia de férias. O álcool corre solto em refeições sempre fartas, e eles até arrumam um jeito de levantar dinheiro, vindo das corridas de cachorro vencidas por Rayo, seu animal de estimação. A paz só termina quando surge lá um sacerdote mais jovem, com o objetivo de investigar um incidente que acaba de acontecer.

Neste momento, O Clube coloca em choque a velha Igreja, acostumada a adotar uma postura auto-suficente e acima de qualquer lei terrena, contra a nova, preocupada em controlar crises e a evitar manchas em sua imagem perante à opinião pública. O embate adiciona tensão, à medida que a postura incisiva do recém-chegado gera desavenças.

Do lado de fora, a figura de um sujeito perturbado, molestado quando criança pelos padres de sua cidade, ronda como ameça constante. É um esqueleto que saiu do armário, com o qual nenhum deles consegue lidar.

Larraín envolve tudo isso numa espécie de neblina. O sol quase nunca dá as caras durante o filme, afinal de contas, logo como anuncia a citação inicial, trata-se de uma história de trevas, e não de luz. Para reforçar o impacto de suas imagens, o cineasta usou lentes anamórficas antigas, modelos preferidos do russo Andrei Tarkovsky.

Neste conto impiedoso repleto de violência psicológica e física, é o desfecho amargo que dá o golpe final em uma instituição que entrou para história por, diante das maiores barbáries da civilização, optar por virar o rosto e lavar as mãos.

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