Nossa Opinião

5.0
O apuro técnico é inegável, e muitos cobram inclusive indicações ao Oscar para o filme. Porém, falta substância e sobra o ímpeto de chocar.
Nota 5.0

Com Beasts of No Nation, o Netflix faz sua estreia em longas-metragens colocando o pé na porta. Tudo no filme de Cary Joji Fukunaga é feito na medida para impressionar: desde a trama, que acompanha os horrores de uma criança em meio à guerra civil africana, até a fotografia virtuosista, comum em campanhas grandiosas de publicidade, pontuada ainda pela trilha imponente.

Agu (Abraham Atta) é o personagem principal. No espaço de 137 minutos ele passará de menino brincalhão e sorridente para soldado letal. Tudo isso com direito a uma série de frases de efeito na narração em off. Exemplo: “Sol, por quê você brilha neste mundo? Eu quero te pegar nas mãos e esmagá-lo até que você não brilhe mais. Assim, estará sempre escuro e ninguém precisará ver tudo de horrível que acontece aqui”.

Pelo caminho mais fácil, o roteiro nos faz sentir a dor de Agu. O ritmo é intenso, na medida para deixar o público grudado no sofá e assistir sem pensar muito. Depois de perder a família, o jovem protagonista é adotado pelo comandante miliciano, uma figura que alterna entre o paternal e o cruel, vivido com competência por Idris Elba. Há em determinado ponto uma insinuação de abuso sexual, uma das poucas coisas sugeridas, e não mostradas em cena.

Se não é segredo que a equipe do gigante do streaming analisa meticulosamente os hábitos e preferências do seu público na hora de criar conteúdo original, desta vez a estratégia vai até o limite do apelativo. O apuro técnico de Beasts of No Nation é inegável, e muitos cobram inclusive indicações ao Oscar para o filme. Porém, falta substância e sobra o ímpeto de chocar.

É como uma propaganda da Unicef anabolizada por cenas de violência explícita, mas que não propõe nenhuma reflexão real sobre os problemas do lugar que retrata – o país africano onde a ação se passa nunca é nomeado, ajudando na impressão de que aquela é a realidade única de todo o continente. Um misto de sadismo e exploração à serviço do entretenimento.

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