Não há soluções mágicas quando a sociedade tenta encontrar a melhor forma de lidar com adolescentes infratores. A afirmação é óbvia, mas é sempre bom não perdê-la de vista no momento em que o Brasil discute a redução da maioridade penal.

[4 filmes nacionais para refletir sobre a redução da maioridade penal]

Dois filmes em cartaz nos cinemas sugerem que o cerne do problema tem menos a ver com algo que a repressão policial possa resolver, e mais com um trabalho de extrema paciência e cuidado de agentes educadores e políticos.

Numa Escola de Havana, de Ernesto Daranas, acompanha Chala (Armando Valdes Freira), menino de 12 anos que enfrenta a ameaça de ser expulso do colégio onde estuda e mandado para um reformatório. Seus professores e diretores estão cansados dos problemas que o garoto traz, seja brigando com os colegas ou se envolvendo em atividades ilícitas fora dos muros da instituição. A solução proposta é jogar aquela batata quente para longe.

Filho de uma mãe soterrada no mundo da prostituição e das drogas e de pai desconhecido, o menino ainda carrega o fardo de colocar dinheiro em casa, o que faz com um bico de cuidador de cachorros participantes de rinhas. Assim como aqueles animais, é também uma espécie de vira-lata largado à própria sorte.

A única disposta a lutar para entender Chala antes de simplesmente descartâ-lo é a veterana professora Carmela (Alina Rodríguez). Prestes a se aposentar (a contragosto, mas sua conduta é considerada imprópria para o ambiente de ensino), ela visita o garoto em casa, busca compreender de onde vem aquela revolta e sugere meios de tentar canalizá-la para algo positivo.

Como disse Matheus Pichonelli em sua precisa coluna no site da CartaCapital: “os demais, justamente os que dizem cumprir seu papel, parecem incapazes de perceber que transitam entre o paternalismo e o abandono. Os gestores daquele sistema de ensino são os síndicos que olham o regulamento, aplicam as normas e dormem tranquilos”.

Do outro lado do oceano, em uma pequena cidade da França, é onde se passa a história de De Cabeça Erguida, filme da diretora Emmanuele Bercot que teve a honra de abir a edição deste ano do Festival de Cannes.

O cenário muda para a Europa, mas o roteiro é semelhante. Logo no começo, vemos Sevérine (Sara Forestier), retrato de uma mãe despreparada, sem saber o que fazer com os filhos, diante da juíza da infância Florence Baque, vivida por Catherine Deneuve. O pequeno Malony tem então seis anos.

Na cena seguinte, Malony, já com 15 anos, acelera um carro, com sua mãe e seu irmão caçula no banco de trás. Seu gosto por roubar automóveis é o principal motivo que o leva repetidas vezes ao tribunal, onde encara o olhar da magistrada e ouve com considerável nervosismo as considerações de advogados a respeito de prendê-lo ou lhe dar mais uma chance.

Além da personagem de Deneuve, o principal aliado na tentativa de inserir Malony na sociedade é o educador Yann (Benôit Magimel), ele próprio alguém que já esteve em situação parecida quando jovem. Na ausência de uma figura paterna, é Yann quem assume este papel, embora também seja alguém com um lado explosivo.

Em certo momento, no meio de uma discussão, Yann perde a paciência e bate a cabeça do garoto numa janela. É uma das cenas mais fortes de um filme que por vezes cruza a linha do sensacionalismo – o protagonista chega a agredir uma grávida, em outro exemplo.

De Cabeça Erguida não é tão gentil com Malony como Numa Escola de Havana é com Chola. Enquanto no filme cubano há espaço para destacar outros aspectos da personalidade do garoto (quando brinca com os amigos ou demonstra um carinho genuíno com a professora Carmela), a produção francesa bate na tecla do “menor problemático”, deixando mais difícil gerar uma empatia – é possível que muita gente veja o filme e sinta raiva de Malony. Ainda assim, o desfecho tem uma certa redenção e não chega a condená-lo por completo, tampouco defende o encarceramento junto a criminosos adultos como solução.

Nas duas obras há a presença de um interesse romântico como catalisador de uma energia transformadora. Chola é apaixonado por Yeni (Amaly Junco), uma das meninas de sua sala, que também pode ter que sair da escola, por problemas burocráticos. Malony encontra acolhimento em Tess (Diane Rouxel), a quem primeiramente rejeita de forma violenta (seu primeiro impulso em relação à tudo), para depois descobrir o afeto e alguma sensação de responsabilidade.

Ambos cineastas parecem dar a dica de que passa pelo amor e prolongada dedicação, e não por mais ódio ou imediatismo, a resposta para uma discussão sem hora para acabar.

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