selomostra39festival-rio-seloApesar dos mais de 250 filmes que integram a programação do Festival do Rio 2015, a seção Première Brasil, que exibe em competição os novíssimos longas e curtas nacionais, mantém a tradição de ser uma das mais concorridas do evento.

Ao final de cada sessão, que neste ano ocorrem no Cinépolis Lagoon, na Lagoa Rodrigo de Freitas, há sempre comentários pelos corredores de que a seleção deste ano tem tudo para ser uma das melhores da história do festival.

Há motivos para crer nisso. A lista conta com longas como Nise, que arrancou aplausos emocionados da plateia na noite de terça, Órfãos do Eldorado, que lotou diversas salas do Lagoon, e exibiu um mergulho profundo na obra de Milton Hatoum; Califórnia, de Marina Person, um nostálgico e, ao mesmo tempo, atemporal registro do conturbado, e delicioso, processo de crescer e adolescer.

Há também Boi Neon, do pernambucano Gabriel Mascaro, que venceu o prêmio especial da mostra “Horizontes” da 72ª edição do Festival de Veneza.

O longa é um interessante exercício de construção de um universo bruto e terno ao mesmo tempo. É uma obra em que a beleza nasce de contrastes que acabam se revelando harmoniosos. Não só pelo fato do diretor criar um universo em que masculino e feminino habitam tanto os corpos e mentes dos homens quanto das mulheres, mas também pelas imagens que nascem do atrito entre um universo bruto, o das vaquejadas no norte e nordeste do Brasil, e um mais sutil, o da costura e da moda, com a chegada de grandes indústrias do setor na região.

É neste Brasil em mutação que vive e viaja a trupe de Iremar (Juliano Cazarré, de Serra Pelada), Galega (Maeve Jinking, de O Som ao Redor) e sua filha Cacá (Alyne Santana), Zé (Carlos Pessoas) e Negão. A bordo de um caminhão que serve de casa tanto para eles quanto para alguns bois, formam uma família esdrúxula, mas verdadeira. Iremar passa a vida preparando os bois, e seus rabos, para serem puxados pelos vaqueiros nas vaquejadas. Mas ele gosta mesmo é de costurar e de moda.

Para os que amam o universo da construção da beleza por meio da costura, o registro do processo criativo preciso e delicado de Iremar é uma atração à parte. A figura super masculina de Cazarré quase ‘briga’ com o clichê do costureiro e, por isso mesmo, cativa e seduz o olhar do espectador. Vê-lo estudar os tecidos, seus recortes de revista, desenhar o modelo e, finalmente confeccionar um dos figurinos usados por Galega, é estranhamente belo e lúdico.

Galega dirige o caminhão da trupe. Apesar de brutalizada pelo ofício e pelo meio, encontra seu feminino ao se deparar com calcinhas coloridas, com a chegada de um novo vaqueiro na trupe, com a cor de seu cabelo loiro artificial mas cacheado natural. “Nasci assim. É assim que eu gosto. Natural”, diz ela, ao ser questionada pela filha Cacá (a pequena Alyne Santana, ótima no papel) por que não fazia chapinha no cabelo como o vaqueiro vivido por Vinícius de Oliveira (de Central do Brasil).

Neste universo de contradições, masculino e feminino, ao contrário do que rezam os clichês sobre o Brasil profundo, contaminam-se e se confundem o tempo todo. “É um filme sobre a paisagem humana, sobre as pessoas e seus corpos que convivem e entram em conflito com o lugar em que vivem”, comentou Mascaro.

“É uma tentativa atualizar o imaginário político e simbólico acerca da contemporização das relações humanas no Brasil em meio à recente onda de prosperidade econômica, em especial no Nordeste brasileiro, lugar onde nasci e desde sempre vivi”, declarou o diretor sobre seu longa, que foi premiado no Festival de Veneza e integrou a programação oficial do Festival de Toronto, no Canadá, ambos em setembro.

É exatamente a forma de retratar e fotografar os corpos com distanciamento suficiente para que o espectador tenha perspectiva ampla do dueto homemXambiente, mas sem perder a dimensão humana, que faz das cenas de sexo do filme poderosos momentos. Não o sexo pero puro exercício estilístico, mas como quebra de paradigmas pré-estabelecidos.

Em uma determinada cena de sexo, que quebra nossos próprios preconceitos, Mascaro retrata não só o ainda tabu nu frontal masculino (quantas atrizes em nu total já foram filmadas ao longo da história para cada nu total de atores?) como o desejo feminino com frescor e liberdade.

O assistente de direção do longa, Marcelo Caetano, comentou que as cenas de sexo foram muito discutidas entre diretor, equipe e atrizes antes de serem filmadas. Foi principalmente delas a escolha de como seriam esses momentos. Ganhamos todos.

Com a direção generosa de Mascaro, com o ponto de vista feminino em um universo duro e masculino (que masculiniza até mesmo a mulher) e com a liberdade com que foram filmadas. São cenas extremamente naturais, mas nem por isso menos belas e bem fotografadas.

Ainda que reste no espectador mais preso ao storytelling tradicional uma vontade de ver Iremar dar um salto triplo em direção a seus sonhos (que demoram, mas talvez cheguem em uma continuação da história que o espectador pode terminar de construir), as mudanças, principalmente na forma como vemos o universo do Brasil profundo e os paradigmas de gêneros e papeis sociais, são fortes diante das lentes de Mascaro. Boi Neon é um filme que persiste e cresce na memória.

Comentários

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Nossa Opinião

8.5
Neste universo de contradições, masculino e feminino, ao contrário do que rezam os clichês sobre o Brasil profundo, contaminam-se e se confundem o tempo todo.
Nota 8.5