selomostra39Body, da cineasta polonesa Malgorzata Szumokswa, é das ótimas surpresas que um evento como a Mostra proporciona ao público. Mesmo com o prêmio de melhor direção no Festival de Berlim (dividido com o romeno Radu Jude, de Aferim!, também na programação) é um daqueles títulos que surgem abaixo do radar à princípio, mas têm tudo para agradar quem se aventurar em uma das sessões.

Logo na primeira cena, o perito criminal vivido por Janusz Gajos encontra um homem enforcado, preso a uma árvore, numa clara tentativa de suicídio. Quando colocada no chão, a vítima simplesmente sai andando, numa manifestação de que coisas estranhas estão por vir na sequência.

Mistura de drama e comédia, a história acompanha o dia-a-dia deste detetive que, por ossos do ofício, vive tão de perto a morte, mas em casa ainda não se recuperou do baque da perda da esposa. Seu relacionamento com a filha Olga (Justyna Suwala) é problemático, e se agrava junto com a anorexia dela.

Anna, a terapeuta adepta a métodos nada ortodoxos que cuida da menina, mantém uma conexão com o mundo espiritual. Psicografa mensagens de entes queridos e admira o Brasil, reduto de milhares de praticantes do espiritismo.

O filme cruza estes três personagens de maneira a criar uma espécie de grupo de apoio mútuo entre eles, mesmo que o confronto entre o ceticismo e a crença em forças sobrenaturais esteja sempre permeando as conversas.

Malgorzata escreveu Body pensando em explorar as dores da alma e também do corpo. Estes parecem sempre desajustados em cena, seja na magreza extrema de Olga e das outras pacientes de Anna, ou na maneira arrastada com que o personagem de Janusz Gajos se movimenta.

Repleto de imagens altamente expressivas, num registro naturalista e de poucos planos, o filme teve a participação do diretor de fotografia Michal Englert já no roteiro. Juntos, ele e a cineasta viam clipes e trechos de outras obras que serviam de inspiração à trama.

Neste processo de estudos, também decidiram incorporar a música You’ll Never Walk Alone, hit de 1963 da banda britânica Gerry and The Peacemakers e hoje mundialmente conhecida como hino da torcida do Liverpool FC, um dos clubes mais tradicionais do planeta. É ela quem fecha a sensível última cena, acenando com a crença de que, por mais que pareça, nunca estaremos sozinhos.

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Nossa Opinião

8.5
Repleto de imagens altamente expressivas, num registro naturalista e de poucos planos, o filme mistura gêneros para falar sobre vida e morte de maneira inventiva.
Nota 8.5