Nossa Opinião

4.0
Os entrevistados exibem aquele sorriso de canto de boca, como alguém que fez uma molecagem. Quando o papo ameça ficar sério, a postura muda. Eles titubeiam, se esquivam, desconversam.
Nota 4.0

Meia Hora e as Manchetes Que Viram Manchete está sendo vendido como um documentário, mas talvez seja mais apropriado observá-lo como uma peça de marketing, algo que os executivos da empresa podem mostrar em alguma convenção de final de ano, para provar que seu produto é um case de sucesso.

Porque se há uma conclusão no filme é a de que “produto” é mesmo a palavra que melhor cabe ao jornal carioca. É um tablóide pensado desde o momento zero para atingir seus consumidores, e, em todas as decisões desde então, o que parece pesar mais é o quanto aquilo significará em termos de retorno financeiro, o tempo inteiro com a justificativa a tiracolo de que “estamos entregando ao povo o que ele quer”.

Alexandre Freeland (diretor de redação entre 2007 e 2012), Henrique Freitas (editor-executivo entre 2005 e 2013) e Humberto Tziolas (editor-chefe) são os principais narradores da história. Sempre com um sorriso no canto da boca típico de alguém que fez uma molecagem e levou vantagem nisso, eles lembram as capas que deram o que falar pelos trocadilhos, piadas de duplo sentido e gozações em geral.

Maldade? “Está nos olhos de quem vê”, como declara Freitas à certa altura, referindo-se, por exemplo, a uma primeira página que ladeou a Parada do Orgulho LGBT com a festa de entrega de faixas de campeão brasileiro ao Fluminense, time que entre os torcedores do Rio sofre provocações de cunho homofóbico semelhante aos torcedores do São Paulo na capital paulista.

Em outro momento, o entrevistador pergunta se Tziolas já deram uma manchete só pela piada. Ele nega. O entrevistador traz de volta uma manchete de 2011, que estampava em letras garrafais “Luan Santana morto a tiros”, e só na minúscula linha fina explicava que se tratava de um xará do cantor sertanejo. Tziolas responde com um sorriso amarelo.

Nessas horas, já mais perto do final, quando o papo ameça ficar sério, a postura dos entrevistados muda. Eles titubeiam, se esquivam, desconversam. Entra em cena a professora Sylvia Debossan Moretzsohn, da Universidade Federal Fluminense, uma rara voz dissonante. A jornalista questiona para a câmera a maneira com que as ações da polícia são endossadas, ao tratar suspeitos por adjetivos como “baratas”, “vagabundos” e por aí vai.

A reflexão fica no raso. O diretor Angelo Defanti mostra também ocasiões nas quais esses mesmos policiais exageraram, muitas vezes atirando primeiro e perguntando depois em pessoas inocentes, o mesmo jornal assume a postura de criticar a polícia. Mas não chega a ir fundo na clara ligação de causa e consequência entre os dois pontos.

Pior, num movimento perigoso (para não dizer irresponsável, pelo tom puramente sensacionalista) tenta aproximar a cobertura de situações específicas, como o acidente da Tam em Congonhas em 2007, ao de outros jornais tidos como sérios, insinuando que talvez eles tenham mais semelhanças com o tabloide do que gostariam de admitir.

Caso a tese seja verdadeira, certamente não é um mérito do Meia Hora, e sim uma crise no setor. E quem tiver algum interesse em entendê-la, pode passar reto pelo filme e ir logo procurar (re)ver O Mercado de Notícias, documentário lançado ano passado por Jorge Furtado.

Comentários

comentários