selomostra39Seguidor do cinema marginal por opção, Cristiano Burlan tem seu método próprio de produção. Faz filmes extremamente baratos, contado quase sempre com os mesmos parceiros, e está interessado em explorar uma linguagem bem diferente do que o público médio pode considerar palatável.

Jogando por suas próprias regras, vem conquistando espaço e tornou-se frequentador habitual dos festivais de cinema, principalmente depois do reconhecimento de seu documentário Mataram Meu Irmão, grande vencedor do É Tudo Verdade, em 2013.

Para se ter uma ideia, só em 2015, estreou seu Hamlet, com colaboração da Spcine na distribuição, foi jurado do festival In-Edit, estreou o documentário O Sermão dos Peixes no Festival Latino-Americano e agora chega pela quarta vez à Mostra, com Fome, que já tinha participado do Festival de Brasília, de onde o filme saiu com o troféu de melhor som (para Cláudio Gonçalves e Flávio Bessa), além de uma menção honrosa do Júri para o trabalho de Jean-Claude Bernardet.

O teórico e hoje ator, que veio de Paris para o Brasil com 13 anos e nunca perdeu o sotaque francês, mostra mais uma vez que tem uma presença forte em cena. Ele faz um morador de rua que vaga pelas ruas de São Paulo empurrando seu carrinho de supermercado, provocando motoristas e divertindo-se com outras figuras que conhece pelo caminho.

O roteiro, escrito com Henrique Zanoni, propõe apenas pontos de partida aos atores e se desenvolve a partir de construções e improvisos destes, o que gera certa estranheza. Tudo está sempre atravessando a fronteira entre atuação e naturalismo – se é que possível ser natural sabendo-se que está sendo filmado.

A lente de Burlan se demora sobre este homem, que se move quase como intruso pelos cartões postais mais antigos da cidade (Catedral da Sé, Pátio do Colégio, Viaduto do Chá). Figurantes involuntários passam em cena olhando para a figura de Bernardet, depois para a câmera e depois novamente para o velho homem, como que querendo encontrar um motivo para que aquele sujeito tão rude seja alvo de atenção.

Neste movimento, a produção já alcança seu objetivo de fazer as pessoas olharem para algo que costuma ser ignorado, quase invisível, mesmo durante a gravação.

A força dessas imagens é interrompida com a trama paralela da estudante que quer fazer um trabalho sobre o assunto, que parece se esforçar para colocar em palavras tudo que Fome já havia deixado implícito.

Quando a ação volta a se concentrar em seu protagonista, o filme volta aos eixos novamente. Não demora a entrar em cena Francis Vogner, também pensador do cinema, mas de uma geração posterior a Bernardet. Personagens e personalidades fora da tela se misturam num confronto ideológico sobre a sétima arte, um inspirado momento de suspensão em uma obra que, assim como seu realizador, pouco liga para as convenções.

Comentários

comentários