Colocando logo de cara os pingos nos is: o documentário Aqui Deste Lugar é sim apoiado pelo Governo Federal e pela Caixa Econômica, que aparecem nos materiais de divulgação como “apoiadores”. Porém, querer julgá-lo apenas como propaganda do programa Bolsa Família é fazer coro ao debate muitas vezes carregado de um ódio cego que toma o Brasil nos últimos anos.

Por isso mesmo, calejado pela discussão acalorada que o filme gerou em sua passagem pelo Cine PE, em maio, o diretor Sérgio Machado tem se esquivado de inserir o filme exclusivamente na discussão política.

Nesta estratégia, ele e a produtora Gullane decidiram pelo lançamento do documentário apenas em 2015, mesmo com o longa finalizado ainda em 2013, justamente para fugir do período da eleição-2014 e não receberem ainda mais acusações de quem costuma sair às ruas e redes sociais com a expressão “bolsa-esmola” na ponta da língua.

“É absolutamente intolerável quel alguém passar fome num país que não está passando por nenhuma catástrofe natural, que não está em guerra”, disse o diretor, em entrevista ao TelaTela.

“Da mesma forma que existem filmes que falam sobre a ditadura para que a gente nunca esqueça e corra o risco de voltar para aquela situação, é importante fazer este registro para que nunca mais ninguém passe fome, independentemente de quem estiver no governo”.

Ele e Fernando Coimbra (do premiado O Lobo Atrás da Porta) usam no filme o método conhecido como cinema direto. A câmera apenas observa a ação, com o mínimo de interferência possível em cena, ajudados pela fotografia precisa da dupla Rodrigo Carvalho e Pablo Hoffmann.

Das várias famílias entrevistadas durante a pré-produção, os cineastas optaram por acompanhar três: uma no Rio Grande do Sul, outra no Ceará e a última em São Paulo. Todas com uma presença predominantemente feminina, uma opção consciente, já que as estatísticas mostram que os lares mais pobres do País são mantidos por mulheres.

Na capital paulista, uma faxineira se desdobra nos serviços para dar uma vida melhor aos filhos. “Nunca gasto dinheiro comigo. Tudo que ganho é para eles”, diz, a certa altura, com perceptível orgulho.

No interior do Ceará, a menina Natália sonha em ser cantora de forró, um desejo herdado da mãe, que nunca conseguiu perseguir a carreira pois engravidou cedo e foi impedida pelos homens com quem se relacionou. Seu pai está preso, o lugar onde mora é simples, mas ela tem sempre um sorriso no rosto.

Selena, da cidade gaúcha de Rio Grande, estuda e está as voltas com o primeiro amor, um sujeito tímido disposto a pedi-lá em namoro perante sua família.

Nenhum dos personagens é retratado como vítima, ou pede piedade ao espectador. Tampouco são acomodados com o dinheiro que recebem, como sugerem alguns críticos do programa. Pelo contrário, são homens e mulheres que vão à luta com mais gana, até porque agora não precisam sofrer as mazelas da fome.

Aqui Deste Lugar capta o novo momento desta parte da população, em que uma adolescente de baixa renda pode ter como objetivo de vida se tornar veterinária, pode gravar em um celular as músicas que compõe, ou simplesmente juntar os amigos para um churrasco na laje.

São situações que podem parecer banais para quem nunca acordou sem saber se faria ao menos uma refeição naquele dia, mas uma realidade completamente nova para toda uma geração que sentiu na pele os benefícios de um programa social consistente pela primeira vez.

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